TONS OF ROCK

TONS OF ROCK 2026: Um dia em Oslo à procura das raízes do metal norueguês

Da antiga Helvete à Ópera, visitámos a cidade que guarda tanto silêncio quanto estrondo antes do TONS OF ROCK tomar conta do seu centro.

Há cidades que se preparam para um festival enchendo as ruas de cartazes e contagens decrescentes. Oslo não. A capital norueguesa segue o seu ritmo próprio, entre fiordes e museus de arquitectura a dar para o impossível, como se o estrondo que se avizinha no centro da cidade fosse só mais um episódio na sua longa história de extremos. E talvez seja precisamente essa indiferença elegante que a torna o palco perfeito para o Tons Of Rock.

Chegámos com um dia de antecedência. Suficiente para perceber que esta é uma cidade cara, sim, mas generosa para quem sabe procurar — e que o Oslo Pass, esse cartão que abre as portas dos transportes públicos e de quase todos os museus, é tão indispensável como um par de calções leves, porque os 28 graus que encontrámos, um inferno para os habitantes locais, soaram-nos a uma agradável brisa de Verão português.

Dois dias antes da nossa chegada, os noruegueses tinham celebrado o solstício de Verão à sua maneira: a tradição manda incendiar um animal de madeira nas águas frente à Ópera e ao Museu Munch, um ritual pagão que ainda sobrevive ao betão e ao design escandinavo. Não estivemos lá para o ver, mas o cheiro a fumo parecia ainda pairar sobre o porto quando ali chegámos.

A CAVE ONDE TUDO COMEÇOU

Não há peregrinação possível ao metal norueguês que não passe pela Neseblod Records. Hoje chama-se assim, mas o nome original — Helvete, inferno — diz tudo sobre o que ali nasceu. Fundada em Junho de 1991 por Euronymous, esta loja é hoje um dos santuários mais improváveis da cultura popular europeia: parte loja de discos, parte museu não oficial do black metal, com uma das maiores coleções do mundo de vinl, CDs, cassetes e memorabilia rara do género.

Descer as escadas até à cave é como atravessar uma porta para 1991. Lá está a parede “BLACK METAL”, lendária, fotografada e citada incontáveis vezes em documentários e livros sobre a história do género, rodeada de cartazes originais, algumas t-shirts vintage e relíquias que ainda transportam a energia bruta e perigosa daqueles primeiros anos. Não há reconstituição aqui — é o artefacto verdadeiro, preservado com o mesmo fanatismo que gerou a cena que celebra.

Sair da antiga Helvete para o resto de Oslo é como sair de um concerto de black metal para a luz do meio-dia: um choque, mas um choque bem-vindo.

MUNCH, RÊGO, E A VERSÃO DO “GRITO” QUE CALHAR VER

A pouca distância dali, dominando a linha do horizonte do porto com a sua arquitectura angular e bem contemporânea, ergue-se o Museu MUNCH, dedicado por inteiro a Edvard Munch — um dos pais do expressionismo e, convenhamos, o artista que melhor capturou em tela a sensação de pânico existencial que tantas bandas de metal passaram a vida a tentar traduzir em som.

O museu alberga a maior colecção mundial dedicada ao pintor, distribuída por salas que revelam tanto a sua versatilidade técnica como as obsessões emocionais que o perseguiram a vida inteira. A célebre “O Grito” tem ali três versões, que vão alternando em exposição a cada trinta minutos — por isso, qual delas se vê é sempre uma questão de sorte e de tempo de visita.

Curiosamente, este ano o museu acolhe também uma extensa colecção da portuguesa Paula Rêgo, um cruzamento inesperado e bem-vindo entre duas tradições de arte que, cada uma à sua maneira, não tiveram medo de olhar de frente para o desconforto.

VIKINGS, EXPLORADORES POLARES E UM BARCO DE REGRESSO

Do centro, um autocarro leva-nos à península de Bygdøy, onde a oferta museológica se multiplica ainda um pouco mais. O Museu Norueguês de História Cultural propõe uma viagem extensa pela herança do país, da Pré-História à Era Viking, passando pela Idade Média e pela história eclesiástica norueguesa — um mergulho em artefactos e objectos do quotidiano que ajuda a perceber de onde vem, afinal, tanto do imaginário que o metal nórdico foi buscar aos seus mitos fundadores.

Ali perto, o Museu Fram presta homenagem à coragem dos exploradores polares noruegueses — Fridtjof Nansen, Otto Sverdrup, Roald Amundsen — e tem como peça central o próprio navio Fram, a lendária embarcação de madeira considerada a mais resistente do mundo. Entrar nele é sentir, por instantes, o frio extremo e o isolamento absoluto que essas tripulações enfrentaram nas regiões mais inóspitas do nosso planeta. Não é difícil traçar uma linha, ainda que improvável, entre esse espírito de enorme resistência e a teimosia com que o metal norueguês se afirmou perante o mundo.

Mesmo junto ao museu, um barco traz-nos de volta ao centro de Oslo, deixando-nos perto do edifício do Nobel da Paz e também do Museu Nacional — o maior museu de arte de todos os países nórdicos, com colecções de arte antiga e moderna, design, artesanato e arquitectura sob o mesmo teto. Tem espaço — e obras — para se lhe dedicar uma tarde inteira, e guarda também ali uma das versões mais célebres de “O Grito”.

A CALMA ANTES DO ESTRONDO

Faltava ainda um dia o Tons Of Rock começar oficialmente, mas Oslo já nos tinha mostrado algo bastante essencial: esta é uma cidade que vive confortavelmente entre extremos, entre o silêncio contemplativo de um museu e a fúria fundadora de uma cave onde nasceu um género musical inteiro. Entre aqueles fiordes tranquilos e um animal de madeira a arder nas águas frente à Ópera.

No dia seguinte, o centro da cidade mudaria definitivamente de registo. As guitarras chegaram, os palcos acenderam-se, e a Oslo que hoje nos recebeu com museus e recordações de uma época distante deu lugar a outra coisa. Mas ficou já claro: este festival não acontece no vazio. Acontece numa cidade que conhece bem o peso da sua história — e que, por algum motivo, decidiu há muito que o metal lhe assenta como uma luva.