TONS OF ROCK

TONS OF ROCK: Do black metal a Yungblud — este festival na Noruega tem espaço para tudo [entrevista]

O TONS OF ROCK, que é o maior festival de metal e rock da Noruega, chega a 2026 mais ambicioso do que nunca — com 40.000 pessoas por dia, bilhetes esgotados meses antes e um cartaz que vai dos IRON MAIDEN a YUNGBLUD.

De Halden, uma pequena cidade fronteiriça, ao coração de Oslo. De uma ideia descabida — ligar para a Live Nation a pedir os SLAYER — ao maior festival de metal e rock da Noruega. Doze anos depois da sua primeira edição, o Tons of Rock é actualmente um dos eventos mais aguardados do calendário festivaleiro europeu, com capacidade para 40.000 espectadores diários e um cartaz que, em 2026, mistura lendas do rock clássico com o caos glorioso do black metal norueguês e a irreverência de uma nova geração.

Jarle Kvåle, um dos responsáveis pela organização do Tons Of Rock, recebeu-nos para falar de origens, de crescimento e das escolhas que fazem do festival algo mais do que uma lista de nomes num cartaz.

O festival nasceu em 2014. Qual foi o ponto de partida?
Somos três pessoas que se juntaram com o desejo de criar um festival de metal e rock ao ar livre na Noruega. Na altura não tínhamos nada assim — sabíamos que isso faltava no país. Decidimos ir para um lugar pequeno chamado Halden e encontrámos uma boa localização. Ligámos para os promotores da Live Nation e dissemos: ‘Queremos os SLAYER‘. E conseguimos os SLAYER. Foi assim que começou.

Começar com os SLAYER não é um gesto tímido. Correu tudo bem desde o início?
Foi um início muito bom, mas também um pouco caótico, como é normal num festival deste nível feito pela primeira vez. Depois tivemos alguns anos difíceis para tentar estabelecer o evento — não vendíamos bilhetes suficientes. Mas em 2016 as coisas mudaram quando conseguimos a digressão de despedida dos BLACK SABBATH. Isso foi fundamental para equilibrar as finanças. Sem essa contratação, teria sido difícil continuar.

Entretanto mudaram de localização. O que trouxe a mudança para Oslo?
O primeiro local era incrível e atmosférico, mas tinha grandes desafios logísticos e de produção. Além disso, era difícil atrair as pessoas até lá. Mudámo-nos para Oslo e agora estamos no coração da cidade, a trinta minutos a pé da estação central. É um espaço verde enorme, e é tudo muito mais fácil para grandes produções.

Para quem o visita pela primeira vez, o que torna o Tons of Rock único?
Ter um festival tão grande no coração de uma capital é algo único. Tudo é acessível a pé, podes explorar Oslo, a natureza, os pontos turísticos. É muito fácil voar para aqui de qualquer parte da Europa — e, se não quiseres acampar, a cidade tem imensos hotéis e boas ligações de transporte. O festival encerra à meia-noite, o que permite que as pessoas continuem a noite nos bares de Oslo.

Falemos do cartaz de 2026. Ter o Yungblud no alinhamento pode surpreender os fãs mais puristas do metal. Como justificam essa escolha?
O festival sempre teve uma grande variedade, desde o rock mais mainstream ao black metal norueguês mais extremo. A carreira do Yungblud explodiu de forma insana no último ano — vi o espectáculo dele no Reino Unido no Verão passado e a resposta foi incrível. Até as bandas de metal mais antigas querem tocar com ele. Adoro ter uma mistura de IRON MAIDEN e Alice Cooper com BEHEMOTH e MAYHEM no mesmo dia que o Yungblud. O público está a responder muito bem.

Essa abertura acaba por funcionar como porta de entrada para novos públicos?
Exactamente. Nas sondagens vemos que as pessoas acabam por ver bandas que normalmente não iriam ver. Podes vir pelo Yungblud ou pelos BRING ME THE HORIZON e acabar na tenda a ver os MAYHEM. Os noruegueses são muito abertos musicalmente, e os convidados internacionais apreciam esta mistura de estrelas mundiais com as bandas que tornaram a Noruega famosa na cena metal.

Quanto tempo demoram a construir um cartaz destes?
Basicamente dois anos. Neste momento já estamos a fazer propostas para 2027 e até para 2028. A maioria das bandas confirma-se no Outono anterior, cerca de oito a dez meses antes, mas o processo começa muito cedo.

Já tiveram no festival nomes como SLAYER, BLACK SABBATH, IRON MAIDEN, METALLICA, GUNS N’ ROSES, PANTERA, KISS. Há alguma banda que ainda não conseguiram e que gostariam de trazer
Adoraria ter uma reunião dos LED ZEPPELIN! [risos] Mas há sempre novas bandas a crescer. Temos tido muita sorte e uma boa reputação — as bandas gostam de tocar aqui. Quando tivemos os METALLICA, a nossa equipa foi ver alguns espectáculos deles antes, para se preparar e conhecer a equipa técnica. Esse profissionalismo no acolhimento é fundamental: se a equipa técnica estiver satisfeita, a banda também estará.

Qual foi o pedido mais insólito que já receberam de um artista?
Houve uma vez em que um artista achou que o aeroporto era demasiado longe. Ele viu que existia um aeroporto mais perto que tinha sido encerrado e perguntou se podíamos reabri-lo para ele. Infelizmente, não temos esse poder.

O que é que o público pede para melhorar o festival?
Conveniência em todos os aspectos: variedade de comida e bebida, poucas filas, boas casas de banho. O básico. Também desenvolvemos outras actividades — sessões de cinema, comédia, pequenos palcos — porque as pessoas passam aqui muitas horas e querem ter o que fazer entre concertos. Áreas para sentar e descansar são igualmente valorizadas.

Este ano houve mudanças na disposição dos palcos. Porquê?
Queríamos ter bandas maiores no segundo palco principal e melhorar a experiência do público também com melhor produção e visibilidade. Isso permitiu-nos trazer uma tenda nova para o palco secundário — com a mesma capacidade de 11 a 12 mil pessoas, mas num formato mais funcional.

40.000 pessoas por dia é um número impressionante para um país do tamanho da Noruega.
É fantástico que um festival de metal e rock atinja estes números. Este ano os bilhetes voaram — os passes de quatro dias esgotaram muito mais cedo do que alguma vez nos tinha acontecido. E não aumentámos muito a capacidade, apenas cerca de 500 pessoas por dia, porque não queremos sacrificar o conforto. Podíamos vender mais 5.000 bilhetes, mas a experiência do público seria pior.

Pensam expandir a marca TONS OF ROCK para outros formatos?
Já fazemos pequenas coisas durante o ano, como o kickoff de Inverno em Oslo. Recentemente lançámos também uma edição nas montanhas — Tons Til Fjells — para cerca de 800 pessoas, num local lindíssimo. A natureza norueguesa reflete-se muito nas nossas bandas e quisemos criar algo pequeno mas único. A resposta foi incrível, com 70% dos bilhetes vendidos no primeiro dia.

Já que falamos na natureza: por que razão a Noruega produziu tantas bandas de black metal?
Talvez porque a natureza é bela, mas também pode ser aborrecida. [risos] Precisas de acção na vida! O ambiente é majestoso, mas também pode ser muito escuro e dramático, o que inspira músicos, pintores e escritores. É uma natureza intensa.

E essa intensidade parece libertar muita experimentação. As bandas nórdicas não têm medo de misturar géneros.
Sim, as bandas aqui não gostam de estagnar. Mesmo as bandas de black metal de há 35 anos desenvolveram-se e mudaram de estilo. É fantástico ver essa evolução.


O Tons of Rock 2026 realiza-se em Ekebergsletta, Oslo, entre 17 e 20 de Junho. Os passes de quatro dias encontram-se esgotados; bilhetes diários ainda disponíveis em tonsofrock.no