Os SLIPKNOT estrearam esta semana o seu primeiro tema inédito desde a saída de três dos seus membros históricos — e a recepção dos “maggots” está longe de ser unânime, reabrindo a discussão sobre o futuro da banda de Des Moines.
Há bandas que, ao fim de mais de duas décadas de carreira, já não precisam de provar absoluatmente nada. Os SLIPKNOT eram, até há uns anos, uma delas. Mas raramente uma canção de três minutos e meio gerou tanta ansiedade colectiva como «Arsenal», o tema editado esta quarta-feira, dia 9 de Setembro, e que marcou o regresso da banda de Des Moines a território totalmente inédito desde a saída do álbum «The End, So Far», em Setembro de 2022.
Entre esse álbum e agora, os SLIPKNOT publicaram o EP «Adderall», de 2023, composto por faixas instrumentais, interlúdios e variações da canção homónima. Não passou, portanto, de um interregno. Já este ano, o colectivo editou por fim o quase mítico, e eternamente adiado, «Look Outside Your Window», composto por temas experimentais escritos e gravados durante as sessões de «All Hope Is Gone», de 2008, e que permaneceram inéditos durante quase uma década e meia. Não passou, portanto, de uma curiosidade. Está bum de ver que «Arsenal» é, de facto, a primeira canção nova da banda em três anos — e chegou envolta numa reformulação de proporções raras — até na história de um grupo como este.
Esse contexto merece ser sublinhado aqui. Desde a edição de «The End, So Far», os SLIPKNOT separaram-se de Craig Jones em 2023, de Jay Weinberg poucos meses depois e, no mês passado, de Sid Wilson — três saídas que alteram de forma bastante significativa a fisionomia de um entidade criativa historicamente definida pela sua identidade colectiva, quase tribal, simbolizada pelos números e máscaras de cada elemento.
Para o lugar de Weinberg entrou Eloy Casagrande, o antigo baterista dos SEPULTURA, cuja contratação foi recebida com uma espécie de entusiasmo generalizado pela comunidade metaleira. O substituto de Jones, por sua vez, ainda permanece um mistério — mais um capítulo na já longa tradição de ocultação identitária da banda. Quanto ao papel de Wilson na composição deste novo material, a informação disponível não permite confirmar se o DJ terá tido qualquer intervenção antes da ruptura, mas a verdade é que o tema está carregado de scratches (e isso era algo que não acontecia há muito tempo num tema dos SLIPKNOT).
Portanto, foi neste contexto de reconstrução — e depois de uma digressão de aniversário dedicada aos 25 anos do álbum de estreia para a Roadrunner, que os levou por palcos de todo o mundo ao longo de 2024 e 2025 — que «Arsenal» surgiu, precedida de um teaser publicado no YouTube cerca de uma hora antes da estreia oficial.
Esteticamente, o vídeo-clip do novo single mantém os SLIPKNOT fiéis ao seu imaginário mais reconhecível — o da desfiguração como linguagem. As imagens mostram figuras que arrancam máscaras de borracha para revelar, por baixo, outras que conseguem ser ainda mais perturbadoras. É uma metáfora visual que dificilmente passará despercebida aos fãs mais atentos: é a ideia de que, por trás de cada transformação, existe sempre uma camada mais sombria a aguardar. O elenco inclui Jackson White, conhecido sobretudo pelo papel de Stephen DeMarco na série da Tell Me Lies — uma escolha que reforça a aposta do grupo numa narrativa cinematográfica cuidada, distante da estética mais crua de outros períodos da sua discografia.
No entanto, se a componente visual reuniu algum consenso, o mesmo não se pode dizer da música. Nas redes sociais — sobretudo no subreddit dedicado aos SLIPKNOT e no X — as reacções a «Arsenal» revelam uma comunidade fraturada, algures entre a lealdade e a frustração. No Reddit, multiplicam-se títulos de publicações pouco entusiásticos: “para mim, a nova canção é um grande ‘meh'”; “infelizmente, isto foi… decepcionante“; “as letras da nova canção são dolorosamente más“.
Um fã foi,inclusivamente mais longe na sua análise, escrevendo, em tradução livre: “Não posso ser o único um pouco desiludido. Está subproduzida, é seca, pouco inovadora, isto não são os SLIPKNOT que conhecíamos. A bateria do Eloy é óptima, ele arrasa completamente e o breakdown é bastante interessante… Acho que é a minha parte preferida. O Corey está como sempre esteve; no entanto, isto é claramente uma decepção. O Sid já não está na banda, os SLIPKNOT que conhecíamos já não existem. Temos de nos mentalizar e aceitar a nova era, embora isso não seja fácil para a maioria das pessoas.”
Outro fã, mais moderado, atribuiu à canção uma nota entre 6 e 6,5 em 10, descrevendo-a como fragmentada: “A canção está toda desconexa. Deixaram claramente o Eloy fazer o que quis. Soa um pouco a «Volume 3», mas também soa àquele single um pouco piroso que lançaram antes de um álbum, com um coro estranho a meio. E o Sid está por toda a canção. É quase como se fossem três canções diferentes numa só. Gosto do início. O meio, arrasta-se. O fim, adoro. Espero que experimentem à vontade neste próximo álbum. Espero odiar algumas canções e adorar outras.”
Verdade seja dita, nem todas as vozes foram cépticas. Há quem tenha lido em «Arsenal» sinais de revitalização, como resume este comentário: “Gostei. Parece que recuperaram a energia e o fogo. Acho o vídeo fixe também. Estou ansioso por ver o que mais têm na câmara.”
Feita uma reflexão, o que este episódio revela, mais que o valor intrínseco de uma única canção, é a dificuldade em gerir a herança de uma banda cuja identidade sempre dependeu de um equilíbrio quase alquímico entre nove — depois oito, agora efectivamente reduzidos — elementos. Cada saída dos SLIPKNOT não é só uma troca de músico; é a perda de uma máscara, de um número, de um pedaço da mitologia construída desde o álbum de estreia de 1999.
É também sintomático que a banda já não dependa de uma editora tradicional — depois da ruptura com a Roadrunner Records, os SLIPKNOT publicaram este mais recente single através da sua própria editora, a (sic)est Records. Claro, essa autonomia editorial dá-lhes liberdade criativa total, mas também lhes retira a rede de segurança institucional que outrora ajudava a gerir expectativas e narrativas em torno de cada novo lançamento.
No final, «Arsenal» acaba por funcionar como um teste de fogo: não tanto pela qualidade da canção em si mesma, mas pelo que representa. É a primeira prova sonora de uma formação que perdeu três dos seus rostos mais icónicos em menos de dois anos, e a reacção dividida dos fãs sugere que o colectivo enfrenta agora um desafio que nenhuma máscara consegue esconder — o de provar que a essência dos SLIPKNOT sobrevive às suas mutações mais recentes. O verdadeiro veredicto, esse, provavelmente só chegará quando lançarem o próximo álbum completo.



