NEUROSIS

NEUROSIS: As imagens do primeiro concerto após sete longos anos de silêncio [vídeo]

O concerto do passado Sábado, no festival FIRE IN THE MOUNTAINS, no Montana, assinalou o retorno dos NEUROSIS aos palcos na sequência de mais de meia década de ausência. Confere as imagens em baixo.

Foi ao som de dez temas, sem grandes anúncios prévios nem espectáculo mediático, que os NEUROSIS puseram finalmente fim a um interregno de sete anos sem concertos. A actuação teve lugar na noite do passado Sábado, d25 de julho, no festival Fire In The Mountains, erguido em terras tradicionais Blackfeet, no estado do Montana. O convite partiu da Firekeeper Alliance, organização sem fins lucrativos dedicada à redução das taxas de suicídio juvenil em comunidades nativas americanas — um contexto que veio conferir ao regresso da banda um peso simbólico que ultrapassa a mera efeméride musical.

O alinhamento da actuação percorreu uma década de repertório. Abriu com «We Are Torn Wide Open» e seguiu para «Mirror Deep», «First Red Rays», «End Of The Harvest», «The Tide», «Lost», «Seething And Scattered», «Distill (Watching The Swarm)» e «Blind», encerrando com «Untethered». Podes conferir uma filmagem parcial, e amadora, da actuação no player ali em baixo.

Recorde-se que este muito ansioado regresso aos palcos surge poucos meses após a edição de «An Undying Love For A Burning World», o primeiro LP de estúdio dos NEUROSIS em dez anos, lançado em Março de 2026 pela Neurot Recordings — a editora fundada pela própria banda. O disco apresenta uma formação renovada: ao núcleo histórico composto por Steve Von Till na voz e guitarra, Jason Roeder na bateria, Dave Edwardson no baixo e Noah Landis nos teclados, junta-se agora Aaron Turner, figura incontornável da cena underground norte-americana através dos SUMAC e ISIS, e cujo percurso artístico se cruza há muito com o legado dos próprios NEUROSIS.

A chegada de Aaron Turner ao colectivo surgiu, precisamente, no rescaldo daquele que foi um dos episódios mais dolorosos da história da banda oriunda de São Francisco. Numa entrevista ao The New Scene, Steve Von Till abordou pela primeira vez com mais detalhe a ruptura silenciosa, em 2019, com o co-fundador Scott Kelly, afastado na sequência de acusações de violência doméstica e manipulação emocional que a banda optou por não tornar públicos, respeitando o pedido de privacidade da família de Kelly.

“Não quero alimentar demasiado essa situação, porque estamos a olhar em frente. Mas não tínhamos a certeza de nada. Tivemos de nos afastar e pôr tudo em suspenso. Tivemos de ganhar perspectiva. Conseguem imaginar a mistura de emoções que sentimos ao ver a obra de uma vida inteira arrancada de nós daquela forma? Foi de partir o coração, devastador e vergonhoso, ver aquilo a que o nosso nome ficou associado”, recordou o guitarrista e vocalista dos NEUROSIS.

O músico explicou ainda porque motivo esse silêncio se prolongou durante mais de três anos. “Tudo o que tínhamos a dizer sobre isso, dissemo-lo no comunicado que fizemos na altura, e continuamos a defender exactamente essas palavras. Portanto, quando finalmente ficámos livres para falar abertamente do que se passou em 2022, foi quando pudemos, pelo menos… nem sei bem como explicar”, disse ele, descrevendo o período entre 2019 e 2022 como “um purgatório”. “Não podíamos falar… Não podíamos dizer nada. Estávamos só a cuidar de um cadáver em decomposição”, recordou Von Till.

Foi apenas em 2022, com a possibilidade de falar abertamente, que os NEUROSIS iniciaram um processo de luto e reconstrução. “Foi aí que pudemos finalmente fazer o luto emocional, seguir em frente, processar a morte do ego, processar toda a humilhação e perguntarmo-nos o como, o quê e o porquê”, contou Steve Von Till, sublinhando que encontrar a resposta demorou ainda mais tempo. “Só o ego não chega. Só porque queremos não é suficiente”, admitiu.

O reencontro dos quatro elementos originais deu-se apenas no final de 2023, e sem qualquer plano definido. “Juntámo-nos todos e começámos a fazer barulho, sem saber o que ia acontecer, sem ter um plano, sem ter um propósito, mesmo sem saber o que estava a acontecer. E sentimos instantaneamente que tudo o que sempre fomos continuava ali. O nosso desejo continuava ali. A nossa voz única será sempre aquilo que é, só por causa do nosso processo colectivo”, explicou, reconhecendo, no entanto, que ainda faltava clareza sobre o rumo a seguir — clareza que só chegaria com a entrada de Aaron Turner nos NEUROSIS.

O processo de composição e gravação do disco de regresso dos NEUROSIS seguiu depois um método fragmentado, ditado pelas contingências da vida quotidiana dos músicos. “Só temos os fins de semana livres. Todos temos de ir trabalhar como toda a gente, por isso decidimos dividir tudo em partes mais pequenas, focarmo-nos num terço de cada vez, desconstruí-lo até à sua forma mais essencial e, duas semanas depois, gravá-lo.

Duas semanas depois, ensaiar o segundo terço, gravá-lo. Duas semanas depois, fazer tudo de novo. Duas semanas depois, misturar… Tínhamos o engenheiro de masterização pronto, só à espera dos ficheiros do Scott Evans. E já estávamos a aprovar test pressings semanas antes do lançamento no final de Março de 2026″, detalhou Von Till.

«An Undying Love For A Burning World», o 10.º álbum dos NEUROSIS, foi gravado por Scott Evans — nome habitual da produção ligada aos KOWLOON WALLED CITY, SUMAC e GREAT FALLS — ao longo de três fins de semana deste Inverno, no Studio Litho, em Seattle, e mistirado em apenas três dias no Antisleep Audio, em Oakland, seis semanas antes da edição do disco.