Em «Necropolitan», os londrinos GREEN LUNG trocam as colinas pagãs pelas catacumbas da capital britânica — e o resultado é um disco tão urgente quanto assombrado.
Há uma ironia tipicamente british por detrás de «Necropolitan», o quarto álbum dos GREEN LUNG: a de que o mal, afinal, não mora só no campo. Se «This Heathen Land», editado em 2023, nos levava por colinas, charnecas e círculos de pedra à procura de um passado pagão enterrado sob a Inglaterra rural, este novo capítulo inverte totalmente essa lógica. O colectivo liderado por Tom Templar descobriu que, em Londres — uma cidade que se sabe ser tão carregada de fantasmas como de gente viva —, nem sequer é preciso sair de casa para que uma pessoa se sinta “assombrada”.
Convenhamos, esta não é a primeira vez que uma banda de rock pesado descobre que o horror urbano tem tanto poder de sedução como o rural. Mas os GREEN LUNG fazem-no com um argumento sólido: Londres é, literalmente, uma cidade construída sobre os mortos. Casas assombradas, templos ocultistas, o último copo de condenados antes da forca, um metropolitano que continua a servir os vivos como se fosse um comboio de Caronte, e os célebres Magnificent Seven — os sete grandes cemitérios vitorianos que hoje funcionam como pulmões verdes no meio do betão.
O título deste disco é, por tudo isso, um jogo de palavras duplo: «Necropolitan» tanto evoca a necrópole como o cosmopolitismo mórbido de uma metrópole que nunca deixou de dialogar com os seus fantasmas.
E sim, essa mudança de cenário traz também uma mudança de ritmo. Onde «This Heathen Land» avançava a passo lento, envolto em nevoeiro e na escala temporal dos milénios, canções como «Dance To The Grave», «Black Magick Radio», «Ozymandias» ou a desenfreada «Necropolitan Line» já respiram uma outra urgência — mais Jack, o Estripador sob candeeiros a gás que xamã perdido num círculo de pedras. Este é um álbum que anda depressa porque a cidade também anda apressada, mesmo quando está cheia de mortos.
O que não mudou é a evidência de que os GREEN LUNG continuam a ser uma das bandas mais articuladas do Reino Unido. Se procurarmos apenas o instinto certeiro para o rock retro de inspiração Black Sabbath e Deep Purple, com aquele toque teatral de uns Queen ou de King Diamond, solos afiados e um uso inteligente do órgão, «Necropolitan» cumpre sobejamente. No entanto, a verdadeira assinatura da banda está sempre na forma como a música nos transporta para o lugar de onde nasce a canção.
Assim como «Song Of The Stones», em «This Heathen Land», parecia desenhar no ar uma linha pagã algures no Wiltshire, agora «Necropolitan Line» chega como um comboio subterrâneo em fuga, arrastando-nos para uma noite de bebedeira entre mortos com bom gosto musical.
E convenhamos, quando soubemos que os GREEN LUNG iam trocar definitivamente o campo pela cidade, havia razões mais que suficientes para desconfiar: poucas bandas sobrevivem incólumes a uma mudança de paisagem tão radical sem perderem o que as tornava especiais. Mas poucos grupos britânicos têm, actualmente, uma visão tão nítida — e tão bem executada — do que querem dizer e de como o querem dizer em termos de som. «Necropolitan» confirma que essa visão sobreviveu à travessia do campo para a metrópole. Portanto, bem-vindos à necrópole dos GREEN LUNG. Uma vez lá dentro, dificilmente alguém vai sair incólume.



