MASTODON

MASTODON processados judicialmente pela família de BRENT HINDS

A disputa envolve a participação de BRENT HINDS nos negócios dos MASTODON e a utilização da imagem do guitarrista após a sua morte.

A separação entre Brent Hinds e os MASTODON, que já tinha deixado um rasto de tensão antes da morte do guitarrista, ganhou agora uma nova dimensão nos tribunais. A família do músico processou a banda norte-americana, alegando que Hinds continuava a deter participações em empresas relacionadas com o grupo quando morreu e que o processo destinado a comprar esses interesses nunca chegou a ser oficialmente concluído. Em causa está também o uso de uma representação do guitarrista na capa de «Marrow Deep», o primeiro álbum dos MASTODON editado após a sua morte.

A queixa civil foi apresentada no dia 3 de Setembro no tribunal do condado de Fulton, na Geórgia, e coloca como réus os restantes membros fundadores dos MASTODONTroy Sanders, Bill Kelliher e Brann Dailor — além de várias entidades empresariais associadas ao grupo. Segundo o processo judicial, o espólio de Hinds entende que ainda não recebeu compensação adequada pela participação que o músico mantinha na banda e em negócios relacionados, assim como pela utilização da sua imagem depois da sua morte.

O caso surge pouco mais de um ano depois da saída de Hinds dos MASTODON e cerca de um ano após a sua trágica morte, num contexto em que as relações entre o guitarrista e os antigos companheiros já se encontravam profundamente deterioradas.

Brent Hinds foi um dos quatro membros fundadores dos MASTODON, banda formada em Atlanta em 2000. Durante um quarto de século, a formação manteve-se intacta e tornou-se uma das mais influentes bandas surgidas da cena metal norte-americana no século XXI. Contudo, em Março de 2025, o grupo anunciou a separação de Hinds. Nessa altura, o trio Sanders, Kelliher e Dailor descreveu a separação como uma decisão tomada de forma conjunta e afirmou estar “profundamente orgulhoso e além de grato” pela música e pela história partilhadas com o guitarrista, desejando-lhe sucesso e felicidade no futuro.

A versão apresentada publicamente na altura não revelava, no entanto, a extensão das divergências internas. Nos meses seguintes, Brent Hinds tornou evidente que a sua perspectiva sobre o fim da relação era bastante diferente. Numa resposta a um comentário publicado na conta oficial dos MASTODON no Instagram, depois da banda assinalar o aniversário de «Once More ‘Round The Sun», o guitarrista escreveu uma mensagem particularmente agressiva dirigida aos antigos companheiros. O comentário acabaria por ser apagado.

Agora, de acordo com a nova acção judicial, o guitarrista terá sido informado da sua saída através de um e-mail. Esse processo de separação incluía uma proposta para manter confidenciais as circunstâncias que tinham levado ao afastamento e previa igualmente a aquisição da participação de Hinds nas empresas relacionadas com os MASTODON. O problema é que, segundo o espólio, esse processo nunca ficou concluído.

A documentação apresentada pelo grupo a Hinds estabelecia, alegadamente, os termos para a compra da sua participação, mas o guitarrista nunca chegou a assinar esse acordo. A sua morte, ocorrida antes da operação estar formalizada, deixou a questão por resolver. Assim, o espólio sustenta que Brent Hinds continuava a deter interesses económicos nos MASTODON e na respectiva loja de merchandising, entre outras empresas ligadas às actividades da banda.

Outro dos pontos centrais da queixa prende-se precisamente com o valor que os MASTODON terão proposto para encerrar essa relação empresarial. Segundo o processo, a banda enviou ao espólio de Brent Hinds um cheque no valor de 80 mil dólares, que foi apresentado como compensação pela aquisição dos seus interesses. O problema, de acordo com os representantes do músico, é que o cheque não vinha acompanhado de uma contabilidade suficientemente detalhada que explicasse como tinha sido calculado esse montante.

Por essa razão, a família de Hinds recusou-se a descontar ese cheque e a pretensão apresentada agora em tribunal passa, assim, por obter uma contabilização completa dos negócios e participações em causa, de forma a determinar exactamente quanto era devido ao guitarrista no momento da sua saída do grupo e quanto continua a ser devido aos seus herdeiros. esta questão não diz respeito, pelo menos segundo a informação conhecida até agora, a uma simples disputa sobre royalties de determinadas gravações. A queixa refere interesses de propriedade na própria estrutura empresarial dos MASTODON e negócios associados à banda, incluindo a sua actividade de vendas actual.

A outra frente da disputa diz respeito a «Marrow Deep», o novo álbum dos MASTODON, editado no mês passado e apresentado como o primeiro registo da banda sem qualquer contribuição musical do guitarrista. O álbum surgiu num período inevitavelmente marcado pela morte de Hinds e pela relação de décadas que manteve com Troy Sanders, Bill Kelliher e Brann Dailor. A capa apresenta três figuras que os MASTODON identificaram como uma interpretação das Parcas da mitologia grega, colocadas sobre uma estrutura esquelética abstracta.

Entre os elementos da ilustração é, no entanto, possível identificar o rosto de um homem barbudo muito semelhante ao de Brent Hinds, que surge integrado entre os crânios e rostos que compõem o vestuário de uma das figuras representadas. É precisamente essa utilização que o espólio contesta. Segundo a queixa, os músicos escolheram e colocaram na capa uma imagem reconhecível de Hinds e utilizaram essa representação para promover, comercializar e distribuir «Marrow Deep», incluindo através de edições físicas, versões digitais, streaming, merchandising e outros produtos relacionados.

O argumento da família é, portanto, que a imagem do guitarrista passou a fazer parte da exploração comercial de um produto que foi lançado após a sua morte sem que existisse, alegadamente, uma autorização ou acordo que cobrisse essa utilização. A situação é particularmente delicada porque Hinds não participou musicalmente no LP. A sua presença em «Marrow Deep» é apenas visual e simbólica, tornando a questão dos direitos sobre a sua imagem distinta da participação que teve na obra dos MASTODON ao longo dos anos.

Importa aqui referir que est disputa judicial acontece poucas semanas depois dos MASTODON terem abordado publicamente, e de forma bastante mais aberta do que no momento da separação, os problemas que conduziram ao afastamento de Brent Hinds. Num documentário de cerca de 35 minutos disponibilizado pela banda, os três membros remanescentes falaram sobre a relação com o guitarrista, os últimos anos da sua permanência no grupo e o impacto da sua morte.

No vídeo, que pode ser visto em cima, Troy Sanders descreveu esse período como o momento em que os problemas de Hinds atingiram o seu ponto mais grave, referindo-se ao álcool e a outras questões relacionadas que, segundo o baixista e vocalista da banda, tinham ganho um peso cada vez maior na vida do guitarrista. Sanders explicou também que os três membros da banda tinham tido repetidas conversas com Hinds na tentativa de o ajudar, descrevendo uma situação que se tornou progressivamente mais difícil de gerir.

Sabíamos, no nosso coração, que isto nunca ia mudar“, afirmou Sanders no documentário, recordando as conversas que os três mantiveram com o companheiro de longa data. A banda descreveu ainda a decisão de se separar de Hinds como algo que não foi tomado de ânimo leve, apresentando-a como o resultado de anos de dificuldades e de tentativas para resolver uma situação que se tinha tornado insustentável. O processo não contesta directamente as alegações relacionadas com o consumo de substâncias, mas o espólio acusa os MASTODON de terem divulgado aspectos privados da vida do músico que, segundo a queixa, lhes tinham sido confessados em privado e que o músico tinha escolhido não tornar públicos enquanto estava vivo.

Como é já do conhecimento geral, a 22 de Agosto de 2025, poucos meses depois de ter deixado os MASTODON, Brent Hinds faleceu num acidente de viação em Atlanta, aos 51 anos. A morte alterou inevitavelmente a natureza da separação. Uma questão empresarial que ainda estava a ser negociada passou a envolver os herdeiros do músico, responsáveis pela administração dos seus interesses e activos. Pouco mais de um ano depois, esta triste história encontra-se agora perante os tribunais.