Um ano depois da morte de Brent Hinds, os MASTODON entregam o seu nono álbum de estúdio como quem entrega um obituário — pesado, confuso e, pela primeira vez, sem forças para fingir que está tudo bem.
Há bandas que fazem da dor um método de trabalho. E os MASTODON são uma delas, mas «Marrow Deep», o seu nono álbum de originais, leva essa lógica a um ponto de ruptura. O disco chega ao mundo cerca de um ano depois da morte de Brent Hinds, o guitarrista e vocalista fundador que a banda tinha despedido meses antes em circunstâncias tudo menos pacíficas, e poucos meses depois de Brann Dailor, baterista e uma das vozes do grupo, ter perdido a mãe, em Fevereiro de 2025.
Hinds morreu num acidente de mota cerca de uma semana antes da banda entrar em estúdio para gravar este LP. Não há distância possível entre a vida e a obra aqui — e ouve-se isso mesmo nos primeiros minutos.
Escrever a partir do luto não é novidade para os MASTODON. Quase todos os discos da banda nasceram desse lugar: a morte do empresário Nick John, em 2018, atravessa o «Hushed And Grim»; a mãe do guitarrista Bill Kelliher ecoa ao longo do «Once More ’Round the Sun»; o irmão de Hinds, morto num acidente de caça, está presente em «The Hunter»; e o suicídio da irmã de Dailor, ocorrido quando o músicoera ainda adolescente, atravessa tanto «Crack The Skye» como o disco de estreia, «Remission», de 2002.
O que muda em «Marrow Deep» é a proximidade. Desta vez a perda não é recordada — é recente, é múltipla, e envolve alguém que ajudou a fundar a própria banda. Quando Troy Sanders rosna “We don’t get over this” em «In The Ruins», não soa a fórmula lírica: soa a facto.
Há um argumento a fazer-se de que «Marrow Deep» funciona como o «Shine On You Crazy Diamond» dos MASTODON — a homenagem a um companheiro decisivo para a génese do grupo, mas que se foi perdendo pelo caminho, como a própria banda até já reconheceu. É também, por isso, e de forma mais ampla, um disco sobre a fragilidade da vida. Em «Ghost Again», Dailor canta a Hinds: “I saw your ghost again, followed by crushing feelings of regret“. A voz soa em carne viva antes do tema se fechar sobre si mesma, num amontoado de riffs pesados. É um momento duro. E, para um disco de metal, estranhamente comovente.
Sonicamente, «Marrow Deep» não trai em absolutamente nada a identidade dos MASTODON: vozes rascantes e gritadas, riffs que oscilam entre o compacto e o viscoso, ritmos assimétricos que tornam o headbanging um exercício de alto risco, e solos em profusão. Mas há algo na forma como as canções se desenrolam que deixa transparecer a turbulência interna do grupo. Não é um defeito — pelo contrário, a banda toca no auge da sua capacidade técnica, com o teclista João Nogueira e o guitarrista solo Nick Johnston, ambos incorporados na formação este ano, a manterem o trio original em alerta constante. Mas os instrumentos choram, uivam e lamentam tanto quanto as vozes.
«Barbarian’s Blood» abre o disco com um riff que soa a afogamento, balançando como ondas antes de rebentar, enquanto Troy Sanders grita por socorro. «Golden Spires», um dos pontos altos deste álbum, treme sob uma guitarra rítmica que faz lembrar o cenário de uma peça de teatro a desabar sobre um palco vazio. Já em «They’re Coming For You», a música cria a sensação de um mundo a fechar-se sobre nós, com riffs que rastejam como aranhas antes de caírem sobre o ouvinte; e em «Out Like A Lamb», o órgão de Nogueira gira até se despenhar.
O vocabulário do rock progressivo faz parte da identidade dos MASTODON há duas décadas, mas em «Marrow Deep» esse lado ganha um protagonismo pouco habitual. João Nogueira reparte os solos com Kelliher e Johnston em pé de igualdade, e os ecos de bandas movidas a sintetizador e teclados — PINK FLOYD, DEEP PURPLE, até os YES — nunca estiveram tão à superfície na discografia do grupo.
Nogueira convoca sintetizadores analógicos com o peso sinistro de um John Carpenter (ouça-se a «Barbarian’s Blood» ou a balada «Moth And Bone») e passagens sinuosas que remetem para uns DREAM THEATER (em «Snakes For Dinner»), ora somando às canções — como os sinos de «In The Ruins» —, ora deixando-se levar longe de mais, como no encerramento «The Three Fates», que acaba por resvalar para uma longa jam progressiva.
A dupla de guitarristas, por seu lado, trabalha o luto através de motivos com raiz nos blues, algumas explosões pirotécnicas e frases longas que convocam, inevitavelmente, David Gilmour. Não o fazem sozinhos: a lista de convidados dos MASTODON continua extensa. Com Kurt Ballou, dos CONVERGE, a coproduzir o disco ao lado de Patrik Berger (nome ligado a Lana Del Rey e Charli XCX), não surpreende que Ben Koller e Nate Newton, também dos CONVERGE, apareçam a tocar percussão e a emprestar a voz, respectivamente. Há ainda participações de nomes pesados dos GOJIRA, LAMB OF GOD, QUEENS OF THE STONE AGE e CLUTCH.
No entanto, é a introdução de «The Vanishing», tocada por Geezer Butler, dos BLACK SABBATH, que melhor traduz o espírito geral deste LP: o baixista improvisa como quem aquece antes de um ensaio, até o recitativo se transformar num motivo sombrio. A canção torna-se um dos melhores momentos do disco, com um groove desprendido, enquanto Dailor imita o efeito vocal que Ozzy Osbourne usou em «Planet Caravan», dos BLACK SABBATH.
Convenhamos, este «Marrow Deep» é, a espaços, turbulento, ornamentado, contido, caótico e catártico — muitas vezes tudo isto ao mesmo tempo. Acima de tudo, soa maduro. Desapareceu a fúria adolescente e a vontade de parecer duro que, há duas décadas, levou a banda a escrever «Leviathan» a partir de “Moby Dick”. E sim, podem ainda revestir algumas canções com referências à tragédia grega, mas as fúrias que atravessam este disco são inteiramente dos MASTODON — incontroláveis e, por isso mesmo, exclusivamente suas.
Para quem acompanha os MASTODON desde «Remission», há aqui uma sensação algo estranha: a de assistir a um grupo que já não escreve sobre monstros marítimos ou mitologia como metáfora de conflitos internos, mas que enfrenta, sem qualquer disfarce, a possibilidade muito real de que a dor não passe. Resta perguntar, como quem acompanha o LP do princípio ao fim: quanto mais pode uma banda aguentar? «Marrow Deep» não responde. Uiva a pergunta, e deixa-a em suspenso.



