O baterista original dos PEARL JAM mostra como se toca a icónica faixa de «Ten», e revela as influências e opções que estiveram por detrás de uma das ‘performances’ mais marcantes da história da banda.
Dave Krusen, o baterista que gravou «Ten», o histórico álbum de estreia dos PEARL JAM, voltou a sentar-se atrás da bateria para revisitar uma das canções que ajudaram a transformar o grupo numa das maiores referências do rock dos 90s. Numa nova sessão para a Drumeo, o músico norte-americano analisou em detalhe a sua interpretação de «Even Flow», explicando as opções rítmicas, as influências e, sobretudo, a importância de saber acompanhar a música sem tentar assumir o protagonismo.
A sessão surge num momento particularmente interessante para a história dos PEARL JAM. Enquanto Krusen revisita o trabalho que realizou há 35 anos, a banda prepara-se para iniciar uma nova etapa na sua história, após a saída de Matt Cameron em 2025. O sucessor de Cameron já foi escolhido, mas a identidade do novo baterista continua a ser mantida em segredo até à actuação dos músicos no Ohana Festival, que decorre em Setembro.
Ao desmontar «Even Flow», Krusen deixou claro que a abordagem à faixa nunca passou por transformar a bateria no elemento dominante. Pelo contrário, a sua interpretação foi construída a partir da capacidade de reagir aos restantes instrumentos e também à voz de Eddie Vedder. Segundo o músico, a parte de bateria é relativamente simples na estrutura, mas exige atenção constante ao baixo, à guitarra rítmica e, sobretudo, à dinâmica vocal. Em vez de funcionar como uma fundação rígida sobre a qual os restantes instrumentos se apoiam, a bateria acompanha o movimento da canção e contribui para a sua evolução.
É precisamente essa característica que torna a performance de Krusen particularmente interessante. Os padrões até podem parecer simples quando analisados isoladamente, mas a forma como são tocados — e o momento em que determinadas variações surgem — dá à faixa uma sensação orgânica que dificilmente poderia ser reproduzida por um baterista excessivamente preciso. Os poucos fills utilizados ao longo assumem, por isso, uma importância considerável. Krusen explica que procurou responder à dinâmica dos fills de guitarra, permitindo que a bateria dialogasse com o instrumento em vez de simplesmente preencher os espaços deixados pelos restantes músicos.
Uma das revelações mais interessantes do vídeo, que pode ser visto em baixo, está na influência que o ex-baterista dos PEARL JAM identificou para a sua abordagem ao tema. O baterista aponta Steve Jordan e o trabalho que desenvolveu com Keith Richards como uma das principais referências para aquilo que acabou por fazer em «Even Flow», nomeadamente a forma como Jordan tocava nos Keith Richards’ X-Pensive Winos.
Essa influência ajuda a compreender a personalidade da bateria no álbum de estreia dos PEARL JAM. Em vez de procurar uma execução excessivamente pesada ou tecnicamente exibicionista, Dave Krusen apostou numa interpretação solta, dinâmica e profundamente musical. O resultado é uma bateria que está permanentemente presente sem ocupar demasiado espaço. Há movimento, mas existe também contenção. Há pequenas alterações e fills, mas aparecem porque a música os pede e não para demonstrar a capacidade técnica do músico.
Essa é uma abordagem que pode passar despercebida a quem ouve «Even Flow» só como um dos grandes clássicos dos PEARL JAM, mas que se torna evidente quando a faixa é analisada a partir da perspectiva do baterista. Esta sessão para Drumeo permite precisamente ouvir e observar esses detalhes de outra forma. Ao separar os elementos e explicar as suas decisões, Dave Krusen demonstra como uma performance aparentemente simples pode depender de uma enorme sensibilidade para o ritmo, para o espaço e para a interacção entre músicos.
Para os fãs mais dedicados dos PEARL JAM, a participação de Dave Krusen na Drumeo não se limitou, aliás, a «Even Flow». A plataforma também apresentou uma sessão especial em que o baterista interpretou e analisou o «Ten» na íntegra, uns já longos 35 anos depois de ter sido ravado originalmente, passando por temas como «Once», «Alive», e «Jeremy», enquanto vai recordando as histórias, influências e equipamento utilizados durante as sessões.
A iniciativa acaba por funcionar como uma espécie de viagem ao interior de um dos discos mais importantes da história do rock. Para além da nostalgia, permite perceber que a identidade de «Ten» não nasceu apenas dos riffs criados por Stone Gossard e por Mike McCready, pelas linhas de baixo de Jeff Ament ou pela voz de Eddie Vedder. A bateria de Krusen foi tão, ou ainda mais, determinante para estabelecer o carácter inicial dos PEARL JAM.


