SLEEP

SLEEP: Novo álbum, «Hempispheres», para ouvir na íntegra [streaming]

Oito anos depois, os lendários SLEEP reinventaram-se sem Matt Pike e provam que o culto sobrevive a qualquer mutação de linha.

Há bandas que se definem por um som. Os SLEEP definem-se por um estado de espírito — uma devoção quase litúrgica aos riffs pesados, lentos e repetidos até à exaustão hipnótica, num culto que atravessa gerações de amantes de doom e stoner rock. Depois de oito anos de silêncio discográfico, a banda norte-americana regressa com «Hempispheres», um álbum que chega acompanhado de uma reconfiguração radical da própria identidade do grupo.

Pela primeira vez na história dos SLEEP, o disco não conta com Matt Pike, guitarrista fundador e figura incontornável do stoner metal contemporâneo através do seu trabalho nos HIGH ON FIRE. A ausência de Pike marca uma ruptura simbólica com a era que produziu discos incontornáveis como «Dopesmoker» ou «Sleep’s Holy Mountain», e obriga a repensar aquilo que, até agora, parecia indissociável da identidade sonora da banda.

Do alinhamento original resta apenas Al Cisneros, baixista e vocalista, guardião incansável da mitologia lírica dos SLEEP — esse imaginário de fumo, ritual e devoção quase religiosa ao riff. Ao seu lado surge agora Dale Crover, baterista dos MELVINS, e cuja pulsação percussiva é tão reconhecível quanto influente na história do rock alternativo americano. Completa o trio Bubba Dupree, guitarrista de culto que despontou no início dos anos 80 nas fileiras dos VOID, uma das bandas seminais do punk de Washington D.C., e que ao longo da sua carreira colaborou também com os SOUNDGARDEN.

Como podes conferir no player em baixo, esta é uma versão dos SLEEP que dialoga tanto com o legado do stoner doom como com as raízes mais cruas e velozes do punk hardcore — uma combinação que, longe de diluir a identidade da banda, parece tê-la reencaminhado para territórios inesperados.

O álbum foi precedido por dois singles que já indiciavam o rumo da nova fase: «Have Spacesuit Will Travel» e a algo fúnebre «The Morrisist». Por seu lado, a faixa-título, «Hempispheres», assenta num groove pesado e fumarento, típico do vocabulário sonoro da banda, mas é o solo de três minutos de Dupree que surge como o momento mais surpreendente do LP — uma incursão quase raga, psicadélica e ondulante, que empresta ao som dos SLEEP uma dimensão lisérgica menos ligada ao doom clássico e mais próxima de uma exploração modal quase transcendente.

«Arrival of the Industry Ships» mergulha em águas ainda mais densas, com uma abordagem ao doom mais pesado e instável, enquanto o encerramento com «Whole Wheat Mountain Well Baked», aposta num staccato escaldante — um ponto final que acaba por reafirmar, com humor autoconsciente, aquilo que a própria banda descreve como os seus “estudos iommicos”, numa referência directa a Tony Iommi, dos BLACK SABBATH, patrono espiritual de todo o género.

Segundo o comunicado de imprensa que acompanha o lançamento do disco, «Hempispheres» nasceu de um conjunto de sessões de improvisação descritas como “descontraídas“, posteriormente registadas no estúdio dos MELVINS com o engenheiro de som Toshi Kasai, um colaborador de longa data da banda de Crover e figura habitual nos bastidores do rock alternativo americano das últimas duas décadas.

Como noticiado anteriormente, o lançamento de «Hempispheres» não se limita apenas ao formato discográfico. Em simultâneo, a Third Man Records e os SLEEP apresentam uma série de banda desenhada inspirada no imaginário lírico da banda, ambientada no “planeta cheio de riffs” a que os fãs há muito chamam Planeta Iommia — um território mítico que povoa as letras da banda desde os seus primórdios. O primeiro número da saga foi escrito pelo próprio Cisneros, com ilustrações de Dave Kloc e Arik Roper, e já está disponível em edição especial e edição normal aqui.

A ausência de Matt Pike poderia ter significado o fim, ou pelo menos a diluição irreversível, de uma das bandas mais influentes e mais reverenciadas do doom metal contemporâneo. Em vez disso, os SLEEP optaram por uma reconfiguração radical que não trai o espírito fundador da banda — desloca-o, isso sim, para novas coordenadas sonoras, moldadas pela sensibilidade percussiva de Crover e pela herança hardcore e psicadélica de Dupree.