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SLAYER celebraram o 40.º aniversário do clássico «Reign In Blood» a tocá-lo do início ao fim [vídeos]

A formação que marcou o regresso dos SLAYER aos palcos em 2024 voltou a reunir-se para o primeiro concerto de 2026, recuperando temas que não eram tocados ao vivo há mais de uma década e apresentando o «Reign In Blood» na íntegra.

Os SLAYER assinalaram de forma particularmente simbólica o 40.º aniversário de «Reign In Blood», um dos LPs fundamentais da história do thrash metal, com um concerto realizado na passada sexta-feira, 4 de Setembro, no Mystic Lake Amphitheater, em Shakopee, no Minnesota. O espectáculo marcou também o primeiro concerto da banda em 2026 e o regresso aos palcos um ano depois da sua última actuação completa.

Para celebrar quatro décadas sobre a edição daquele que continua a ser considerado um dos trabalhos mais influentes e extremos do género, a banda californiana dedicou a parte final do alinhamento a uma execução integral do disco. A ocasião permitiu ainda recuperar várias composições que não faziam parte de um alinhamento dos SLAYER há muitos anos, transformando o concerto num momento particularmente raro para os fãs presentes.

A noite contou com os DOWN, SUICIDAL TENDENCIES e HATEBREED como bandas de suporte, num cartaz que reuniu diferentes gerações e vertentes do metal pesado norte-americano.

A actuação começou com «South Of Heaven», faixa-título do álbum de 1988, antes da banda avançar por uma selecção de temas representativos de diferentes fases da sua carreira. «Hate Worldwide», «Disciple», «Mandatory Suicide», «Repentless», «War Ensemble» e «When The Stillness Comes» fizeram parte da primeira metade do concerto, que incluiu ainda «Jihad», «Seasons In The Abyss», «Born Of Fire», «Dead Skin Mask», «Hell Awaits» e «213».

Foi depois de «213» que os SLAYER iniciaram a viagem de regresso a 1986. «Angel Of Death», o primeiro tema de «Reign In Blood», deu início à interpretação integral do álbum, seguindo-se depois os temas «Piece By Piece», «Necrophobic», «Altar Of Sacrifice», «Jesus Saves», «Criminally Insane», «Reborn», «Epidemic», «Postmortem» e, inevitavelmente, «Raining Blood», responsável por encerrar a actuação.

A escolha ganhou particular significado devido à recuperação de vários temas que estavam ausentes dos alinhamentos há mais de uma década. «Piece By Piece», «Necrophobic», «Criminally Insane» e «Epidemic» não eram interpretados ao vivo desde 2014, enquanto «Altar Of Sacrifice» não era tocada desde 2015 e «Jesus Saves» desde 2019.

A apresentação de «Reign In Blood» na íntegra também representou uma oportunidade para revisitar um álbum cuja influência há muito ultrapassou largamente as fronteiras do thrash metal. Editado a 7 de Outubro de 1986 pela Def Jam Recordings, o terceiro LP de estúdio dos SLAYER surgiu num momento em que a banda californiana começava a consolidar uma identidade própria dentro da explosão do metal extremo norte-americano.

O disco marcou a primeira colaboração dos SLAYER com o produtor Rick Rubin, cuja abordagem teve um papel importante na definição do som do grupo. A produção contribuiu para uma apresentação mais directa e agressiva das composições, ajudando a transformar a velocidade, a precisão e a violência sonora que já caracterizavam a banda numa fórmula ainda mais devastadora.

Com apenas cerca de meia hora de duração, o «Reign In Blood» tornou-se precisamente conhecido pela sua intensidade e pela ausência de momentos de complacência. A sucessão praticamente ininterrupta de riffs velozes, bateria frenética e voz agressiva ajudou a estabelecer novos padrões para aquilo que podia ser feito dentro do thrash, influenciando posteriormente inúmeras bandas de death metal, black metal, metalcore e outras correntes extremas.

O percurso do álbum não foi, contudo, isento de controvérsia. A sua edição chegou a ser adiada devido às preocupações suscitadas pela capa gráfica e, sobretudo, pelo conteúdo de algumas das letras. A «Angel Of Death», em particular, tornou-se um dos temas mais polémicos do repertório dos SLAYER devido à forma como aborda Josef Mengele, médico das SS associado ao campo de concentração e extermínio de Auschwitz, e as experiências médicas realizadas sob o regime nazi.

A música provocou acusações de simpatia ou apologia do nazismo, algo que os membros dos SLAYER rejeitaram repetidamente ao longo dos anos. A banda defendeu que a canção abordava acontecimentos históricos pelo seu carácter perturbador, sem qualquer intenção de os glorificar.

Jeff Hanneman, guitarrista e principal compositor de grande parte do material clássico dos SLAYER, chegou mesmo a recordar o impacto que a controvérsia teve sobre a edição do álbum. Segundo Hanneman, a banda foi informada de que a Sony não pretendia inicialmente lançar o disco devido a «Angel Of Death» e ao conteúdo de «Reign In Blood». O músico sempre sustentou que a composição tinha uma abordagem documental e que não existia qualquer mensagem de apoio à ideologia nazi.

Apesar dos obstáculos, o «Reign In Blood» acabaria por tornar-se o primeiro álbum dos SLAYER a entrar na Billboard 200, onde alcançou o 94.º lugar. O reconhecimento comercial foi crescendo gradualmente e, a 20 de Novembro de 1992, o disco recebeu por fim a certificação de ouro da RIAA, correspondente a vendas superiores a 500 mil exemplares só nos Estados Unidos.

Quatro décadas depois, o disco continua a ocupar uma posição singular na história da banda. A decisão de o tocar integralmente em 2026 não se limitou, por isso, a uma celebração de aniversário: permitiu aos SLAYER recuperar uma parte significativa do repertório que esteve na origem da sua reputação e colocá-la novamente diante de uma plateia de milhares de pessoas.

O espectáculo de Shakopee aconteceu também num contexto particular para o grupo. Os SLAYER anunciaram inicialmente o fim da sua carreira ao vivo após a digressão de despedida concluída em 2019, mas regressaram aos palcos em 2024. A formação para o regresso manteve-se intacta em 2025 e agora em 2026, reunindo Kerry King na guitarra, Paul Bostaph na bateria, Tom Araya no baixo e voz e Gary Holt na guitarra. Esta é a mesma formação que esteve na estrada na última fase da carreira da banda, antes da despedida de 2019, e que voltou a ocupar os palcos para uma série de actuações especiais no ano passado.

Em 2025, a banda realizou apenas um número limitado de concertos completos. Entre eles estiveram as actuações nos Blackweir Fields, em Cardiff, no Finsbury Park, em Londres, e no Festival d’Été de Québec, no Canadá. A banda passou ainda pelo Louder Than Life, em Louisville, e realizou a sua única actuação na Costa Leste norte-americana de 2025 no Hersheypark Stadium, na Pensilvânia, a 20 de Setembro.

Dois meses antes, a 5 de Julho, os SLAYER tinham também participado no histórico concerto de despedida de OZZY e dos seus BLACK SABBATH, o Back To The Beginning, realizado no Villa Park, em Birmingham. Para essa ocasião, a banda apresentou um alinhamento de seis temas, contribuindo para uma celebração que reuniu alguns dos nomes mais importantes da história do heavy metal em torno da formação original dos BLACK SABBATH.

O concerto de Shakopee inaugura agora uma nova série de compromissos para os SLAYER. A banda tem ainda nove actuações anunciadas para o resto de 2026, começando no Rocklahoma, em Pryor, Oklahoma. Depois, o grupo viajará até ao México para actuar no Palacio de los Deportes, na Cidade do México, a 21 de Outubro, antes de marcar presença no Sick New World, em Fort Worth, no Texas, a 24 de Outubro. Em Novembro, estão previstas duas noites consecutivas no Kia Forum, em Inglewood, a 13 e 14 de Novembro. A agenda prossegue em Dezembro com uma série de datas na América Latina.

A dimensão e a distribuição geográfica destas actuações reforçam o caráter excecional da actual fase dos SLAYER. Embora a banda tenha deixado claro que o regresso aos palcos não corresponde necessariamente a uma retoma convencional da actividade que manteve durante décadas, cada novo concerto adquire um peso próprio precisamente por acontecer depois de uma despedida que, durante vários anos, parecia definitiva.

Em Minnesota, essa dimensão foi particularmente evidente na forma como o grupo construiu o alinhamento. Ao recuperar «Piece By Piece», «Necrophobic», «Criminally Insane» e «Epidemic», entre outros temas que há muito não eram tocados ao vivo, e ao reservar o último segmento do espetáculo para «Reign In Blood», os SLAYER transformaram o primeiro concerto de 2026 numa celebração concentrada de uma obra que ajudou a redefinir os limites do género.

Quarenta anos depois da sua chegada às lojas, o «Reign In Blood» permanece tão incontornável quanto controverso, mas acima de tudo como um dos discos que melhor representam a capacidade dos SLAYER para levar a agressividade do thrash metal até um território ainda mais extremo. Em Shakopee, essa história voltou a ser contada não através de uma simples referência ao passado, mas através da execução integral do álbum — do impacto inicial de «Angel Of Death» à catarse final de «Raining Blood».

E, para uma banda cuja história ao vivo parecia ter terminado em 2019, não deixa de ser significativo que o primeiro capítulo dos SLAYER em 2026 tenha começado precisamente com um regresso às raízes de uma obra que ajudou a definir o seu legado.