MOONSPELL

MOONSPELL: Novo álbum, «Far From God», para ouvir na íntegra [streaming]

Trinta e cinco anos de escuridão e os lisboetas MOONSPELL entregam o álbum mais honesto — e mais perigoso — da sua carreira recente.

O décimo terceiro álbum de estúdio dos MOONSPELL chegou finalmente aos escaparates e plataformas de streaming, cinco anos depois de «Hermitage» e um período de crise criativa que Fernando Ribeiro já descreveu como um risco real de extinção. Nascido de um profundo processo de procura criativa, dúvida e redescoberta, «Far From God» marca um regresso poderoso por parte da banda lisboeta.

Verdade seja dita, há bandas que existem apesar do tempo. Os MOONSPELL existem por causa dele — cada álbum uma cicatriz nova, cada silêncio uma escolha. Depois do peso orquestral de «Hermitage» e das comemorações dos 30 anos de «Wolfheart» e «Irreligious», a banda chegou a um ponto crítico que poucos artistas admitem publicamente.

“Desde o «Hermitage», estivemos bastante inquietos quanto à direcção a seguir. Explorámos uma série de caminhos, chocámos com as expectativas dos fãs mais do que seria provavelmente saudável para qualquer banda, e chegámos a um ponto em que algum do nosso legado musical — como o «Wolfheart» e também o «Irreligious», por exemplo — estava a atingir os 30 anos de existência. Por isso, atravessámos uma espécie de crise existencial e tivemos escolhas difíceis a fazer”, admitiu Fernando Ribeiro em entrevista à LOUD! no final de 2025.

Ora bem, o que salvou a banda não foi uma nova estratégia de marketing nem uma mudança de editora. Foi, como tantas vezes na história do rock e do metal, a própria música — o acto de a ouvir. Os músicos encontraram respostas a revisitar o cinema gótico, a ouvir bandas indie como Twin Tribes ou The French Police, e também, como sempre, a ler.

A decisão de entregar a produção a Jaime Gomez Arellano não é aqui fortuita. O produtor, responsável pelos álbuns mais recentes dos Paradise Lost, dos Sólstafir e dos Ghost, tem uma habilidade muito rara: a de fazer álbuns de metal soarem orgânicos, cavernosos e contemporâneos ao mesmo tempo — sem que nenhuma dessas qualidades se anule.

Não é, por isso, estranho que «Far From God» apresente os MOONSPELL com foco renovado, abraçando as texturas cinematográficas e o romantismo gótico que sempre definiram a identidade da banda, mas a cheirar a produção mais nítida e moderna, num exercício de estilo que acaba por conferir a cada riff, cada ornamento de teclado e linha vocal uma clareza impressionante. O resultado é um LP que soa, ao mesmo tempo, a memória e a promessa — não o som de uma banda a tentar recuperar o passado, mas a de uma banda que finalmente voltou a habitar o presente com confiança.

O alinhamento de «Far From God» é composto por oito temas e a abertura com «Cross Your Heart» é uma declaração de intenções que não pede licença para entrar. Impulsionada por melodias de guitarra sombrias, camadas densas de teclado e a voz inconfundivelmente imponente de Ribeiro, a canção evoca o espírito de «Irreligious» com um peso desavergonhadamente contemporâneo. O refrão memorável faz dela uma candidata óbvia aos alinhamentos dos concertos e prova desde logo que os MOONSPELL não perderam a sua capacidade para escrever temas antémicos.

«Biblical», a terceira faixa, é onde a banda se permite ser mais directa — e quase descarada. Temos mais um refrão infeccioso e uma atitude que frisa o desconcertante a conviver com o baixo massivo que define grande parte do carácter sónico do disco. Aires Pereira nunca soou tão determinante numa gravação dos MOONSPELL. O mais recente single, «The Great Wolf In The Sky», com Alicia Nuhro nas cordas, é, quiçá, a peça mais ambiciosa do álbum — e a mais emocionalmente carregada.

Convenhamos, como eles próprios explicam, o universo temático de «Far From God» não é ornamental. O álbum percorre o amor baudelaireano, a culpa existencial e a redenção, ressurreições cristológicas e a quieta nobreza das criaturas da noite. Vampiros, lobos e simbologia sagrada não são aqui escapismo, mas veículos de emoção verdadeiramente sombria: solene, romântica e sem filtros. E sim, de facto este álbum rejeita o brilho artificial em favor de uma fantasia ancorada na sinceridade.

Quando uma banda histórica lança um LP descrito como “regresso às origens”, é sempre algo tentador deixar o cepticismo tomar conta. Quantas vezes essa fórmula serviu para camuflar a ausência de ideias novas? Felizmente, «Far From God» não cai nessa armadilha. Os MOONSPELL continuam a ser uma das vozes mais distintivas do metal gótico ao equilibrarem melancolia, escuridão e grandiosidade poética sem nunca se tornarem uma caricatura do género que ajudaram a definir.

Mais ainda: «Far From God» sai num momento em que o metal gótico anda há anos a girar em falso — saturado de fórmulas, de estética sem substância, de sombras sem origem. Os MOONSPELL chegam com 35 anos de história nas costas, com a cicatriz de uma crise quase existencial ainda fresca, e entregam oito faixas que soam como o trabalho de uma banda que reaprendeu a razão pela qual existe.