MEGADETH

MEGADETH no fim da linha: uma conversa sobre o legado, os riffs e a arte de sair em grande [entrevista]

Os MEGADETH chegam a Lisboa no próximo Domingo, 5 de Julho, para o EVILLIVƎ FESTIVAL com um novo álbum debaixo do braço e a certeza de que, desta vez, é mesmo a despedida. O baixista James LoMenzo explica porquê.

Consta que havia um barril. Um barril digital, como James LoMenzo faz questão de esclarecer com um sorriso na voz, para onde os MEGADETH foram largando riffs durante meses e meses, à medida que iam correndo o mundo em tour. Ninguém sabia, na altura, que esses fragmentos musicais iriam dar forma ao último álbum de estúdio da banda. Nem sequer os próprios músicos.

A meio da última digressão já andávamos a atirar riffs para o barril“, recorda o baixista. “Começámos a sério há pouco mais de um ano. Antes de gravarmos, fizemos umas seis reuniões por Zoom para ouvir quase todas as músicas dos Megadeth que existem. Queríamos perceber o que é que faz um disco ser Megadeth.” É uma imagem simultaneamente curiosa e tocante: uma das bandas mais emblemáticas do thrash a sentar-se colectivamente, como se fossem estudantes de musicologia, para catalogar a sua própria herança, para dissecar o seu ADN sonoro. “Até o Dave estava curioso em explorar isso“, acrescenta o músico referindo-se ao líder dos MEGADETH.

A decisão de que este seria o derradeiro álbum do grupo não foi tomada no início do processo. Surgiu já tarde, com o processo de gravação bem avançado, quando Dave Mustaine reuniu os músicos e, segundo LoMenzo, lhes disse: “Pessoal, é aqui que estamos.” O fundador e líder dos MEGADETH propôs-lhes que, em vez de acabarem com um “suspiro“, saíssem “em grande, com algo vitorioso“. E a música que tinham em mãos dava-lhes razão para esse optimismo. “Foi mais fácil tomar essa decisão depois de ouvirmos a música que tínhamos. Estávamos muito entusiasmados com o resultado.

Uma das grandes histórias dos MEGADETH durante os últimos anos é a forma como a formação actual conseguiu atingir uma coesão que nem sempre foi evidente na longa e turbulenta história da banda. A chegada do guitarrista Teemu Mäntysaari foi, nas palavras de LoMenzo, uma revelação. “Meu Deus, o miúdo portou-se às mil maravilhas! Ele tem riffs fantásticos e uma capacidade de execução inigualável. Nunca vi ninguém aprender tão rápido e dar o seu toque pessoal às coisas.

Mas é sobre o baterista Dirk Verbeuren que James LoMenzo fala com a maior admiração. A relação entre baixista e baterista é, em qualquer banda, o alicerce sobre o qual tudo o resto é construído — o chamado “bolso” rítmico que determina se a música respira bem ou sufoca. Com Verbeuren nos MEGADETH, esse entendimento é, ao que parece, quase telepático. “O Dirk faz com que o meu trabalho não envolva quase nenhum esforço, porque sei sempre onde vai estar, consigo sempre sentir onde vai estar. Já toquei com uma série de bateristas excelentes e ele está lá no topo com todos eles.

LoMenzo insiste ainda que essa química vai muito além da técnica. É algo que começa fora dos palcos, na forma como as pessoas se relacionam, e no tipo de equipa que constroem. “Tem de haver sempre algum tipo de química, mesmo que seja fora do palco, e a química fora do palco é provavelmente mais importante do que a química musical, de certa forma.” O efeito prático desta coesão é perceptível em palco: quando quatro músicos estão verdadeiramente sincronizados, o público sente-o. “Notas logo aqueles 4% extras do público, eles ficam muito mais entusiasmados.

Perguntar a um músico como abordou determinado álbum é uma questão aparentemente técnica que revela, na verdade, muito sobre a filosofia musical de quem responde. James LoMenzo não hesita na resposta: são sempre as canções que mandam. “A música dita o que vais fazer“, explica ele. “Em alguns casos, alguém me envia uma canção para gravar. E eu dou-lhes uma opção. Pergunto: queres que faça o que eu faria? Ou queres que faça o que tu queres ouvir?“.

No caso do último LP dos MEGADETH, a resposta foi, em grande medida, seguir as guitarras. O baixista admite que não foi sempre a sua primeira escolha — há em si um músico que sonha com linhas de baixo que lideram, à maneira dos grandes grupos progressivos dos 70s —, mas também reconhece a lógica da contenção.

Se dependesse de mim, adoraria que fosse tipo os Yes, entramos naquela secção e o baixo lidera. Mas não havia músicas dessas, eram todas muito orientadas para riffs específicos.” A honestidade com que James descreve este processo é, por si só, muito reveladora: num contexto como p dos MEGADETH, onde os riffs de guitarra são a força gravitacional em torno da qual tudo orbita, tentar impor uma identidade de baixo demasiado autónoma seria, na sua própria palavra, “egocentrismo“.

No final, descobri que acompanhar o que já lá estava era a forma mais forte de fazer o disco ter impacto.” Há décadas de experiência condensadas nessa frase. James LoMenzo tem uma carreira extensa que passa pelos BLACK LABEL SOCIETY, pelos PRIDE & GLORY e por inúmeros outros projectos — e é precisamente essa versatilidade que lhe permite calibrar a sua contribuição ao serviço da música, em vez de ao serviço do ego.

Entre os momentos mais surpreendentes do processo criativo está a inclusão de «Ride the Lightning», tema que Dave Mustaine escreveu nos primórdios da sua carreira, antes de ser expulso dos METALLICA — a música que acabou por dar nome a um dos álbuns mais celebrados do thrash metal, mas que tem a impressão digital do fundador dos MEGADETH bem marcada nas suas origens.

A tensão histórica entre as duas bandas é já bem conhecida de qualquer aficionado do género: décadas de competição implícita, de narrativas paralelas, de rivalidade que ora parece enterrada ora ressurge em declarações oblíquas. Incluir a canção no derradeiro LP dos MEGADETH é, portanto, um gesto carregado de significado. “Fiquei surpreendido e encantado por ele querer ir por aí“, confessa LoMenzo. “Há sempre aquela tensão subliminar entre os Metallica e os Megadeth, mas para mim fazia todo o sentido. Se este é o nosso último trabalho, temos de abordar toda a história da banda. É fechar o círculo.

Ainda assim, o percurso para o produto final foi tudo menos linear. LoMenzo viveu na sua própria carne as turbulências que marcaram 2024 em Los Angeles: os incêndios que devastaram partes da cidade, as evacuações, a família deslocada. A sua entrada no estúdio, por exemplo, atrasou-se semanas, enquanto o resto da banda avançava no Tennessee, onde Dave Mustaine tem a sua base.

Havia evacuações. A minha família teve de se mudar e estávamos todos prontos a sair. Felizmente, a banda deu-me todo o apoio possível.” O processo adoptado foi, em bom rigor, modular: Mäntysaari e Verbeuren trabalharam presencialmente, LoMenzo partilhava as ideias de baixo em formato digital, e todos se iam juntando por fases. “Andávamos ali em círculos, tipo o Teemu e o Dirk, depois eu e o Teemu e depois os três juntos.

Há uma passagem na conversa com James LoMenzo em que o baixista abandona a linguagem técnica — a conversa sobre riffs, dinâmicas e posições de baixo — e fala com uma candura que dificilmente se finge. É quando se lhe pergunta o que o motiva a subir ao palco todas as noites, depois de décadas de viagens, hotéis e a logística implacável de uma grande digressão. “Viajar é horrível, não é? Toda a gente sabe isso. Há demasiada gente a viajar com poucos recursos. Mas a luz ao fundo do túnel são aqueles 90 minutos ou duas horas que temos lá em cima para levar esta música às pessoas.

O que se segue é uma espécie de confissão: James LoMenzo descreve os fãs no público a reviverem, em fracções de segundo, memórias e emoções que a música lhes convoca, e reconhece taambém que esteve já do outro lado. “Ia a concertos e pensava: Meu Deus, isto é aquilo que abracei, e foi da música que fiz a minha igreja.” A responsabilidade que sente perante o público dos MEGADETH é, nas suas palavras, tão real quanto o privilégio. “Aquela é a noite mais importante que toda a gente no público vai ter enquanto fã.” É uma frase que soa a cliché mas que, dita com esta convicção, não o é de todo.

A música que mais prazer lhe dá tocar em palco, confessa, continua a ser «In My Darkest Hour» — um dos momentos mais sombrios e mais belos do catálogo dos MEGADETH, escrito como homenagem à memória de Cliff Burton, baixista dos Metallica, falecido em 1986. “Resume todo o espírito dos Megadeth: tem a parte thrash, um refrão épico e muito drama.

E este ponto final no horizonte, traz mais pressão? Para James LoMenzo, o fim dos MEGADETH enquanto banda de estúdio não significa o fim da sua carreira musical. O que acontece depois da digressão de três a cinco anos que se avizinha é, ainda, uma questão totalmente em aberto — mas a ideia de se reformar e ir viver para “um sítio com praia” coexiste com a certeza de que nunca vai parar de tocar. “Não acho que conseguisse estar sem tocar. Tem sido a minha vida toda. Devo continuar a fazer projectos pontuais ou jams em clubes pequenos.

Há algo de notavelmente coerente nesta declaração, vinda de alguém que chegou aos MEGADETH por caminhos sinuosos e que, agora, se prepara para acompanhar a banda no seu capítulo final. A grandeza dos festivais e a intimidade dos pequenos clubes não são, para LoMenzo, experiências em competição: “Adoro os grandes festivais, mas aquela ligação com uma única pessoa num clube de 50 pessoas também é incrível“, conclui ele.

Este Ddomingo, em Lisboa, o EVILLIVƎ FESTIVAL recebe os MEGADETH para um daqueles concertos que vão certamente ficar na memória — não porque são “históricos” no sentido vazio em que essa palavra é usada no marketing das digressões, mas porque existe, de facto, uma consciência partilhada de que algo está a chegar ao fim. Os ingressos para o EVILLIVƎ FESTIVAL variam entre os 75 e os 79 euros, disponíveis em primeartists.eu e nos pontos de venda habituais.