TONS OF ROCK

TONS OF ROCK | Dia 1: Fogo, fúria e uma falha de energia no arranque em Oslo [reportagem]

Com 28 graus à sombra e cerca de 40 mil pessoas no recinto, o primeiro dia do TONS OF ROCK ficou marcado tanto pela intensidade das actuações como por um corte de energia que, longe de travar o entusiasmo, acabou por revelar a resiliência — e o bom humor — do público norueguês.

Já havia gente nos shuttles gratuitos a partir da estação central desde manhã. A romaria de metálicos, camisolas negras a contrastar com o céu escaldante de Oslo, começou cedo — porque neste festival começa-se cedo, e quem chega tarde perde sempre qualquer coisa que depois vai lamentar. Com 28 graus e sol sem tréguas, as filas nas torneiras de água foram constantes ao longo do dia, e o protector solar tornou-se tão indispensável quanto os auriculares de espuma. Os cantis de plástico distribuídos à entrada enchiam-se e esvaziavam-se num ciclo que acompanhou o ritmo das actuações.

Convenhamos, não houve surpresas no arranque. Como manda a tradição do certame, foram os BLACK DEBBATH a abrir oficialmente o festival, cumprindo mais uma vez a função de anfitriões da festa e dando a contagem decrescente para o que estava por vir. É um ritual que os habituais do Tons of Rock conhecem bem — e que, precisamente por isso, recebem com um afecto desproporcionado.

Ainda antes do sol começar a pesar, os primeiros palcos aqueciam com energia crua. As norte-americanas DIE SPITZ instalaram-se no Moonlight Stage e levaram ali o seu punk rock sem contemplações. Pouco depois, no palco principal, os CAVALERA lançaram-se de cabeça directamente ao clássico «Chaos A.D.», dos SEPULTURA, com «Refuse / Resist» a servir de detonador. A actuação prometia ser demolidora — e estava a sê-lo, minuto a minuto, até ao quinto tema.

Foi então que a energia falhou.

O corte de corrente paralisou o festival durante cerca de trinta minutos. Os palcos ficaram em silêncio, as luzes apagaram-se, e o público — esse público que não se assusta facilmente — manteve a compostura com uma tranquilidade que diz muito sobre o espírito do Tons of Rock. O caos não aconteceu. Confusão também não. E, quando a energia voltou, foi como se alguém tivesse simplesmente apertado o botão de play.

O atraso em cascata apanhou os PRESIDENT, cuja actuação acabou por coincidir com a subida a palco dos TRIVIUM. Os norte-americanos abriram com «Pull Harder On The Strings of Your Martyr» e, como se o calor de Oslo já não bastasse, ainda trouxeram pirotecnia — labaredas que subiram ao ar e fizeram a temperatura do recinto escalar mais alguns graus. O alinhamento funcionou como um percurso pelos melhores momentos de uma carreira sólida, e o público recebeu-o como tal.

A tarde pertenceu, em grande medida, às BABYMETAL. O trio japonês sofreu também um pequeno atraso por causa do corte de energia, mas a espera valeu cada segundo. De «BABYMETAL DEATH» a «from me to u», passando por «Song 3» — com os Slaughter To Prevail a aparecerem em vídeo — até «Ratatata», com a participação dos Electric Callboy também por videoconferência, foi um espectáculo de precisão, carisma e loucura controlada que deixou o Vampire Stage sem fôlego. O público que ali se reuniu saiu de lá com um sorriso largo e os tímpanos a vibrar.

Vale a pena assinalar um pormenor que não passou despercebido ao longo de todo o dia: a qualidade do som. Em qualquer ponto do recinto onde houvesse palcos, o som manteve-se limpo, bem definido, sem a distorção ou os desequilíbrios que tantas vezes mancham festivais desta dimensão. Além disso, a notória qualidade dos ecrãs utilizados pelas bandas contribuiu igualmente para uma experiência que, em termos técnicos, esteve muito acima da média.

De regresso ao palco Scream, o principal do Tons Of Rock, actuavam os DUMDUM BOYS. Veteranos do rock norueguês, influenciados pelo punk britânico, os músicos ocupam hoje um lugar afectivo no seu país que, para ponto de comparação, que recorda o dos XUTOS E PONTAPÉS em Portugal: o de quem esteve sempre ali, de quem ajudou a construir qualquer coisa, e de quem continua a ser recebido com o calor reservado às velhas bandeiras. O público cantou. E ficou bem preparado para o que se seguia.

Poucas bandas têm feito tanto barulho nos últimos anos com tão pouco ruído mediaticamente como os BLOOD INCANTATION. O quarteto de Denver apresentou um concerto que roçou a perfeição — death metal de contornos progressivos e psicadélicos que não se deixa encaixar em caixinhas fáceis, construído em camadas, denso e hipnótico ao mesmo tempo. E confirmaram, uma vez mais, o estatuto de proposta incontornável do género na actualidade.

Uma das maiores atrações do dia foram os THE OFFSPRING. A banda está num momento notável de forma, e a química em palco entre Dexter Holland e Noodles gerou mais do que uma gargalhada do público. Começaram com «Come Out And Play», do clássico «Smash», e o que se seguiu foi um desfile de êxitos que ninguém esperaria dispensar.

Pelo meio, surgiram algumas surpresas. Uma homenagem a Ozzy Osbourne, com excertos de «Electric Funeral» e «Paranoid», seguida de uma versão impecável de «Crazy Train». Depois, Edvard Grieg — sim, leram bem — com «In The Hall Of The Mountain King», e a seguir, numa viragem que poucos podiam ter antecipado, uma versão de «Love Story», de Taylor Swift. Tratada não como paródia, mas com uma seriedade cómica que o público absorveu deliciado. «Pretty Fly (For A White Guy)», «The Kids Aren’t Alright» e «Self Esteem» fecharam as contas, como se fossem pontos de exclamação no fim de uma frase já de si longa e bem construída.

Outro dos momentos altos do dia foi a homenagem a Quorthon e à música dos BATHORY, apresentada sob o nome BLOOD FIRE DEATH. O super projecto, liderado pelo Erik Danielsson dos WATAIN, reuniu uma formação de peso: Bard Faust na bateria, Rune “Blasphemer” Eriksen na guitarra, Apollyon no baixo e Ivar Bjørnson, dos ENSLAVED, também na guitarra.

E como se isso não bstasse, a noite reservou ainda participações especiais. Gaahl foi o primeiro a subir ao palco, para «A Fine Day To Die». A presença de Gaahl é de uma frieza que nenhuma chama derruba — um bloco de gelo em cena, com uma autoridade silenciosa que dispensa qualquer gesto excessivo.

Quando Danielsson entrou, o ambiente transformou-se de imediato: a intensidade escalou, a pirotecnia explodiu , e o fogo que a música dos BATHORY sempre carregou encontrou a sua forma física. «Enter The Eternal Fire», «Call From The Grave», «The Return Of Darkness And Evil» e «Blood Fire Death» não faltaram. Foi uma actuação que começou gelada e terminou em brasa — exactamente como devia ser.

O primeiro dia de Tons Of Rock encerrou com os BRING ME THE HORIZON e um recinto com cerca de 40 mil pessoas. A produção de palco era de cabeça de cartaz — sem meias medidas, sem compromissos. De «DArkSide» e «The House Of Wolves» logo a abrir, a «Can You Feel My Heart» e «Teardrops», a banda foi percorrendo uma discografia que já não precisa de se justificar. Para o remate final, as BABYMETAL regressaram ao palco para «Kingslayer», num momento que o recinto recebeu com uma euforia de que Oslo ainda não se tinha totalmente esquecido. O concerto terminou com «Drown» e «Throne».