EVILLIVƎ

EVILLIVƎ FESTIVAL WARM-UP @ Sala Tejo, MEO Arena, Lisboa | 04.07.2026 [reportagem]

Da nova geração de peso nacional a um regresso histórico e a uma “masterclass” norte-americana, os OKKULTIST, CAVALERA e TRIVIUM transformaram o EVILLIVƎ FESTIVAL WARM-UP numa noite para mais tarde recordar.

Eram pouco mais das 19:15 de Sábado, 4 de Julho, e a Sala Tejo da MEO Arena começava a encher-se de um calor que não vinha apenas do Verão lisboeta. Habia uma electricidade particular no ar — a mistura de expectativa e nostalgia que só certos cartazes conseguem gerar. O EVILLIVƎ Warm-Up escolheu bem os seus protagonistas para esta antecâmara do festival, e a noite prometia funcionar como um percurso quase cronológico pela história recente do metal extremo: do presente português ao passado brasileiro que se tornou eterno, terminando num futuro que os norte-americanos TRIVIUM já conquistaram há muito.

Vale a pena situar esta noite no contexto mais amplo em que se insere. Depois de uma edição histórica em 2025, realizada ao ar livre no Estádio do Restelo e que reuniu Judas Priest, Korn e Slipknot ao longo de três dias, o EVILLIVƎ optou por um regresso deliberado a um formato mais regrado: uma experiência concentrada, indoor, na MEO Arena.

Feitas as contas, a edição de 2026 distribui-se por dois dias, com o warm-up desta noite na Sala Tejo a anteceder a data principal de amanhã, Domingo, também na MEO Arena, onde MARILYN MANSON e MEGADETH assumem o papel de cabeças de cartaz, secundados por MASTODON, THE GATHERING, CONVERGE e IMMINENCE.

Longe de ser um mero prólogo, este dia extra de aquecimento acabou nesno por ganhar um peso quase equivalente ao do próprio festival. Não é todos os anos que um warm-up consegue reunir uma banda do calibre dos TRIVIUM e um espectáculo tão singular como o dos irmãos CAVALERA a tocarem um álbum incontornável na íntegra. A organização, ao decidir esticar a edição de 2026 por duas noites em vez de o comprimir num único dia, pareceu compreender que Lisboa — numa época em que o calendário de grandes concertos na cidade está particularmente preenchido — respondia melhor a uma proposta que privilegiasse a qualidade de cada actuação em detrimento da simples acumulação de nomes no cartaz.

Era, portanto, com esta ambição em mente que a Sala Tejo se preparava para receber três propostas que, apesar de pertencerem a gerações e geografias distintas, partilhavam um mesmo compromisso com a intensidade. E foi precisamente aos mais novos do cartaz que coube abrir a noite.

Tocou aos OKKULTIST a tarefa nada fácil de abrir os trabalhos perante um recinto que ia enchendo a bom ritmo. A banda, uma das propostas mais badaladas da nova geração do metal extremo luso, apresentou um som que mistura agressividade contemporânea a uma identidade estética e performativa própria, e cumpriu com correção aquilo que lhe foi pedido.

O alinhamento começou com «Death To You Breed», entrada directa e sem rodeios, seguida de «Meet Me In Hell» e «Teeth Of The Hydra», dois temas que mantiveram a energia em crescendo. De seguida, «Electric Haze» trouxe uma pausa relativa na fúria inicial, antes de «Crimson Ecstasy» devolver ao recinto a intensidade que a caracteriza. O concerto fechou com «Sixpounder» e «Sign Of The Reaper», duas escolhas que serviram de remate a um alinhamento tecnicamente competente.

Ainda assim, faltou a esta actuação algo que a maturidade costuma trazer: uma presença de palco mais assertiva, capaz de conquistar de forma inequívoca um recinto ainda a encher. A banda tocou bem, mas sem a confiança plena que se esperaria de quem já tem vindo a construir um percurso sólido dentro e fora de Portugal — como se a ocasião, mais do que o material ou a técnica, ainda pesasse sobre os ombros do grupo.

Não é motivo de alarme: é antes um sinal de que o potencial dos OKKULTIST continua por explorar na totalidade, e que a evolução natural de uma banda em ascensão passa também por estes momentos de aprendizagem em palcos maiores. A inclusão no cartaz de um evento com esta dimensão internacional confirma, de qualquer forma, um percurso ascendente — e será interessante voltar a vê-los depois de mais rodagem em contextos como este.

Se há um momento desta noite que ficará gravado na memória de quem esteve neste EVILLIVƎ Warm-Up , foi sem dúvida o que se seguiu. Os irmãos Max e Igor Cavalera, sob o nome CAVALERA, trouxeram a Lisboa o espectáculo Cavalera Plays Chaos A.D., dedicado à recriação integral de um dos discos mais influentes da história da música pesada: o «Chaos A.D.», editado em 1993 pelos SEPULTURA.

Para compreender o peso simbólico desta noite, é preciso recuar até 1996, ano em que Max Cavalera deixou os SEPULTURA na sequência de tensões internas que se arrastavam há algum tempo, incluindo divergências relacionadas com a gestão da banda. Foi uma separação dolorosa, que dividiu fãs e alterou de forma permanente o curso de uma das bandas mais importantes do metal brasileiro.

Max seguiria caminho próprio com os SOULFLY, enquanto Igor Cavalera permaneceria nos SEPULTURA por mais uma década, até também ele se afastar em 2006. Foi só em 2007 que os dois irmãos voltariam a unir forças, primeiro sob a designação CAVALERA CONSPIRACY e, mais tarde, em espectáculos como o desta noite, dedicados a revisitar integralmente álbuns clássicos da era em que ainda faziam parte dos SEPULTURA.

Há, por isso, algo de particularmente carregado em ver estes dois músicos a tocar o «Chaos A.D.», umas longas décadas depois da separação que nenhum dos lados terá vivido com facilidade. Não é apenas nostalgia — é também uma forma de reclamar, ao vivo, a autoria de um som que ajudaram a construir. E o contexto português torna tudo ainda mais denso: recorde-se que os próprios SEPULTURA, já sem os irmãos Cavalera, se despediram dos palcos nacionais precisamente em Lisboa, na mais recente edição do Rock In Rio — um capítulo que fecha um círculo estranho e que esta noite, de certa forma, se reabriu.

O concerto começou com a gravação que introduz o disco original, mergulhando de imediato o público em «Refuse/Resist», enquanto os primeiros mosh pits tomavam conta do recinto. A noite tinha por fim começado, e a Sala Tejo estava pronta para ela.

O que se seguiu foi uma sucessão de momentos que oscilaram entre a libertação e a reflexão política. «Slave New World» soou como uma evasão colectiva das rotinas diárias que todos, de alguma forma, carregamos. «Amen» funcionou quase como uma oração nocturna, sombria e solene. E se, no início dos anos 90, era a comunicação social o alvo dos avisos de «Propaganda», hoje são as grandes tecnológicas que parecem ter-se juntado à lista de ameaças à verdade — uma actualização que o público pareceu compreender sem necessidade de explicações.

O alinhamento manteve o ritmo sem quebras: «Nomad» e «Manifest» sucederam-se com a densidade rítmica que definiu o disco original, antes de «The Hunt» (um original dos NEW MODEL ARMY) elevar o nível de melodia orelhuda. O calor dentro da Sala Tejo tornou-se, de resto, quase tão intenso quanto o ambiente sonoro. A instrumental «Kaiowas» trouxe alguns minutos de pausa através de uma celebração das raízes brasileiras dos manos Cavalera, antes de «Clenched Fist» devolver o concerto à sua fúria inicial.

«We Who Are Not as Others» manteve a plateia em permanente movimento, e o Brasil voltou a estar presente nos versos incisivos de «Biotech Is Godzilla», um lembrete pouco subtil de que, desde a Cimeira do Rio de 92, pouco ou nada se resolveu em matéria de alterações climáticas e injustiça social. «Polícia», dos Titãs, surgiu como uma rara satisfação para os fãs mais atentos, antes de o alinhamento seguir para o seu momento mais aguardado: a introdução impecável de bateria de Igor Cavalera a conduzir-nos até «Territory».

O concerto ainda reservava uma surpresa: «Troops of Doom», tema que remonta aos primeiros tempos dos SEPULTURA, e que injectou uma última dose de fúria antes do encerramento, com «Chaos B.C.» a servir de fecho circular a uma actuação demolidora. Fica a pergunta, talvez inevitável: como consegue um disco com mais de trinta anos soar mais actual do que nunca? A resposta, esta noite, pareceu simples. Quando um artista domina um ofício capaz de falar ao mundo, a raiva colectiva encontra uma válvula de escape — mesmo que seja apenas por uma noite.

Coube aos norte-americanos TRIVIUM encerraram o alinhamento, e fizeram-no com a autoridade de quem construiu, ao longo de mais de duas décadas, uma das carreiras mais consistentes do metal moderno. Liderado pelo incomparável Matt Heafy, o grupo tem sabido equilibrar como poucos a agressividade, a sofisticação técnica e um alcance melódico que raramente se encontra reunido num só ato. Este regresso a Lisboa teve, por isso, um significado especial, reforçando uma relação já longa com o público português.

O concerto abriu com «Pull Harder On The Strings Of Your Martyr», e, como se o calor acumulado ao longo da noite ainda não bastasse, a banda trouxe consigo pirotecnia — labaredas que subiram junto ao palco e elevaram, mais uma vez, a temperatura de um recinto já naturalmente incandescente.

O alinhamento que se seguiu funcionou como uma verdadeira retrospectiva, atravessando praticamente toda a discografia do grupo sem se deter demasiado tempo em nenhuma fase em específico. «Strife» manteve a fasquia da agressividade lá em cima, antes de «The Sin And the Sentence» trazer a palco o tema-título de um dos álbuns mais aclamados da segunda metade da carreira do grupo. Seguiram-se «Down From The Sky» e «Until The World Goes Cold», que injetou uma dose de melodia sem nunca abdicar do peso instrumental que define a banda.

A meio do espectáculo, «Like Light To The Flies» e «Dying in Your Arms» mantiveram a coesão do alinhamento, antes de «Silence In The Snow» — faixa-título de um dos discos mais celebrados dos TRIVIUM — proporcionar um dos momentos mais fortes da noite, com Matt Heafy a alternar entre o registo limpo e o registo mais rasgado que se tornou uma das suas marcas de identidade vocal. «Throes Of Perdition», tema mais antigo no meio de um alinhamento que privilegiou sobretudo material recente, foi recebido com um entusiasmo particular por quem acompanha a banda desde os primeiros discos, funcionando quase como uma homenagem aos fãs de mais longa data.

O corpo principal do espectáculo fechou com «Catastrophist» e «The Heart From Your Hate», antes da banda regressar para um encore composto por uma única canção: «In Waves», uma escolha mesmo nada surpreendente para fechar a noite — o tema funciona há anos como hino de encerramento nos concertos de TRIVIUM, e a Sala Tejo respondeu em conformidade, com o recinto a cantar em uníssono.

No total, foram doze temas mais um encore que resumiram bem a versatilidade de uma banda capaz de transitar entre o thrash mais cru e passagens de construção melódica muito bem pensada sem nunca soar inconsistente. Os fãs, muitos deles presentes desde o início da noite, recebeu-os exactamente dessa forma: como uma viagem coerente por uma carreira que, apesar de longa, continua a somar-lhe capítulos relevantes.