A primeira noite dos METALLICA em Las Vegas recuperou clássicos há muito afastados dos alinhamentos e colocou o conceito ‘No Repeat Weekend’ no centro de uma residência pensada para explorar os limites da tecnologia da The Sphere.
Os METALLICA chegaram finalmente à The Sphere. Na noite de 1 de Outubro, a banda norte-americana deu o primeiro concerto da sua aguardada residência em Las Vegas e, logo à primeira amostra, deixou claro que a passagem pelo gigantesco recinto não vai ser apenas mais uma etapa da sua actual digressão. Ao longo de um total de 16 temas, o grupo formado por James Hetfield, Lars Ulrich, Kirk Hammett e Robert Trujillo mergulhou num espectáculo concebido à medida de um espaço onde a música é apenas uma parte da experiência.
Com a enorme superfície visual interior da The Sphere a envolver literalmente o público, os METALLICA aproveitaram todas as possibilidades tecnológicas do recinto para construirem um oncerto diferente daquilo que têm vindo a fazer em grandes estádios e festivais. Entre as imagens projectadas estiveram bandeiras de vários países, numa referência à dimensão global da comunidade de fãs que acompanha a banda há mais de quatro décadas.
Antes da banda subir ao palco, ouviu-se «It’s A Long Way To The Top (If You Wanna Rock ’N’ Roll)», dos AC/DC, através do sistema composto por 1600 colunas da The Sphere. A escolha antecedeu a entrada em cena ao som de «The Ecstasy Of Gold», de Ennio Morricone, tema que acompanha os concertos dos METALLICA há mais de quatro décadas e que voltou a funcionar como a habitual porta de entrada para o espectáculo. Depois, veio uma surpresa logo nos primeiros segundos.
«Battery» abriu o alinhamento, algo que não acontecia desde 11 de Julho de 2014. A escolha não só recuperou um dos temas mais explosivos de «Master Of Puppets» para o primeiro lugar do alinhamento como estabeleceu desde logo o carácter bastante menos previsível desta residência. E essa imprevisibilidade prolongou-se ao longo da noite. «Now That We’re Dead», de «Hardwired… To Self-Destruct», regressou aos concertos pela primeira vez desde 2021, enquanto «…And Justice For All» voltou a ser tocada ao vivo pela primeira vez desde 2014. Pelo meio, os METALLICA recuperaram ainda «The Shortest Straw» e «The Day That Never Comes», duas escolhas que ajudaram a afastar o espectáculo de um alinhamento mais previsível.
A viagem pelo fundo de catálogo passou também por clássicos como «Creeping Death», «Sad But True», «Wherever I May Roam», «Ride The Lightning», «Seek & Destroy» e «Master Of Puppets», mas houve espaço para momentos especialmente pensados para a ocasião. «Nothing Else Matters» surgiu com uma introdução de guitarra de Kirk Hammett mais extensa do que o habitual, enquanto «The Memory Remains» ganhou um outro prolongado. «The Call Of Ktulu» foi dedicada a Cliff Burton, o baixista dos METALLICA que morreu em 1986 e cuja presença continua profundamente ligada à história da banda.
A escolha das músicas ganha uma dimensão adicional quando enquadrada no conceito ‘No Repeat Weekend’, que tem vindo a ser utilizado pelos METALLICA durante a digressão M72 World Tour. A lógica é simples: quando os fãs assistem aos dois concertos de um mesmo fim-de-semana, não recebem duas versões do mesmo espectáculo. Os alinhamentos são bem diferentes, permitindo à banda percorrer uma parte muito mais extensa do seu catálogo.
Na The Sphere, esse conceito pode tornar-se particularmente interessante. Com uma discografia que já atravessa mais de quatro décadas e dezenas de temas que raramente encontram espaço nos alinhamentos actuais, a residência oferece aos METALLICA uma oportunidade para recuperar material que não aparece regularmente nos seus concertos. A primeira noite já mostrou essa intenção através da inclusão de «Now That We’re Dead», «…And Justice For All» e «The Shortest Straw». A questão passa agora por perceber até onde poderá a banda levar essa lógica durante os próximos meses.
A residência Life Burns Faster prolonga-se até 13 de Março de 2027, o que significa que esta estreia representa apenas o primeiro capítulo de uma temporada particularmente longa, durante a qual os METALLICA terão sucessivas oportunidades de continuar a experimentar tanto com a dimensão visual da The Sphere como com um repertório suficientemente vasto para sustentar múltiplas combinações de alinhamentos. Se a primeira noite servir de indicação, Las Vegas não será só mais uma paragem na longa história dos METALLICA: será também um laboratório onde uma das maiores bandas de metal do planeta pode voltar a mexer nas regras do próprio espectáculo.





