É verdade que os SÓLSTAFIR não chegaram a Lisboa, mas o que aconteceu no LAV – Lisboa Ao Vivo, diz muito mais sobre a 10.ª edição do UNDER THE DOOM do que qualquer nome isolado no cartaz.
Há uma altura em que qualquer festival ainda é apenas uma promessa. É aquela em que o cartaz foi anunciado, os bilhetes foram vendidos e cada nome ganhou o seu lugar num alinhamento que existe, por enquanto, só no papel. A décima edição do Under The Doom tinha esse alinhamento pensado ao pormenor — a promotora NotreDame Productions assumiu-o mesmo como um dos mais fortes da sua história, pronto para assinalar dez anos de no LAV – Lisboa Ao Vivo.
Bastou, no entanto, uma greve para, em apenas alguns dias, esse plano ser posto à prova. Os islandeses Sólstafir, anunciados para fecharem a primeira noite do evento, não conseguiram chegar a Lisboa. Coube aos nacionais PROCESS OF GUILT ocupar esse lugar, à última hora. E sim, seria tentador relatar o que se passou nesta noite a partir desse cancelamento. Mas há um número que muda a perspectiva: segundo a organização, cerca de 80% do público manteve os bilhetes apesar da alteração.
É certo que também não foi esse o dado que definiu o primeiro dia de Under The Doom, mas foi um ponto de partida para tudo o resto. Porque a verdadeira história desta noite não começou com uma banda. Começou com uma ausência, e com o que as outras seis bandas em cartaz fizeram à volta dela sem que ninguém o tivesse planeado desta forma.
Como tem sido habitual, ano após ano, com uma equipa de produção já solificada, o Under The Doom arrancou com pontualidade quase cirúrgica. As portas do LAV abriram às 17:30 e, meia hora depois, os THROWNNESS estavam em palco. Nesse momento, o cartaz já não era exactamente o que tinha sido anunciado (a banda nacional substituiu os originalmente anunciados The Cross), mas os horários foram cumpridos escrupulosamente ao longo de toda a noite, permitindo que o alinhamento respirasse sem atrasos.
Ainda com a sala algo despida, os THROWNNESS mergulharam de cabeça no universo dos dois EPs que têm vindo a definir a sua identidade, «Marrow» e «Marrow Part II: A Fire Through The Ether», apostando num pós-metal de contrastes marcados, em que a monumentalidade é construída por acumulação. O concerto demorou, no entanto, a encontrar o ponto de ignição: durante sensivelmente metade da actuação, a banda nacional parecia ainda a ajustar-se a si própria, com alguma falta de homogeneidade a retirar impacto a momentos que, no papel, deveriam soar mais esmagadores.
Foi, no entanto, à medida que a setlist avançava que o concerto começou a ganhar interesse para além da colagem bem feitinha aos rudimentos estabalecidos pelos Cult Of Luna — e os THROWNNESS tornaram-se mais compactos, mais seguros, mais pesados. Convenhamos, o lugar de quem abre um festival nunca é um lugar fácil: toca-se para quem chegou cedo, com a sala ainda a meio gás e o som ainda a ser afinado. Ainda assim, os jovens músicos conseguiram dar a volta à situação com uma garra bem razoável.



Seguiram-se os THRAGEDIUM, com uma história bastante diferente para contar: o regresso aos palcos eventos de maiores dimensões após duas décadas de silêncio, finalmente com «Lisboa Depois de Morta» nas mãos. O álbum, editado pela Alma Mater Records de Fernando Ribeiro, dos Monspell, deu continuidade a uma linguagem muito própria, já construída em «The Isolationist» e «Theatrum XXIII». No sui generis cruzamento entre doom, folk, rock progressivo, post-punk e elementos da tradição musical portuguesa, será justo dizer que não há no mundo quem soe como esta gente.
No palco, os THRAGEDIUM concentraram-se essencialmente no novo álbum, mas, à semelhança do que se tinha passado com os seus predecessores, o início também não lhes foi propriamente favorável: a mistura demorou a encontrar o equilíbrio certo, e a quantidade de elementos que a música acumula — percussões, cordofones tradicionais, teclados, camadas electrónicas — tornou esse problema especialmente evidente. À medida que o som se foi tornando mais inteligível, a experiência dos músicos começou a então sobrepor-se às dificuldades técnicas.
«Lucefécit» foi um dos momentos em que a banda pareceu finalmente encontrar o seu lugar, com o coro a ressoar pela plateia, e a actuação fechou com «The Old Oak And The Mandrake Root», numa conclusão melódica e folclórica, quase inesperadamente luminosa. No Under The Doom, ficou assim a sensação de que uma banda com esta história merecia parecer mais confortável em palco, mas a verdade é que duas décadas de ausência não desaparecem apenas porque se voltam a ligar os amplificadores. Pese a inconstância, os THRAGEDIUM conseguiram deixar algo bem claro: são uma banda a reconquistar um lugar, e não a perder um que lhe tinha sido reservado.









Com a sala já um pouco mais composta, os ANZV foram os primeiros da noite a parecer completamente donos do palco, ainda que o som também tenha demorado a ganhar definição. São uma formação cada vez mais rodada, e isso notou-se na segurança da execução e na forma como conseguiram tornar coerentes elementos que, na sua música, poderiam soar dispersos — o black/death metal, as dissonâncias, os ambientes sombrios, as mudanças de andamento.
«Edimmu», de «KUR», foi um dos pontos altos, com uma construção de tensão que manteve a sala atenta do início ao fim. Mas foi com «Rituals», de «Gallas», que os ANZV provocaram o momento mais marcante da noite até então: o vocalista saltou do palco para o meio do público, prendendo de imediato a atenção de toda a sala e reduzindo, por instantes, a distância habitual entre banda e plateia. Era, àquela hora, a prova de que o Under The Doom continuava perfeitamente capaz de produzir os seus próprios momentos definidores — com ou sem o nome que faltava no final da noite.






Alvo de muita curiosidade entre os presentes, os EREB ALTOR trouxeram ao Under The Doom a dimensão épica e mitológica do metal sueco de inspiração viking, com temas como «Valkyrian Fate», «Queen Of All Seas» ou «Midsommarblot» a desenharem um imaginário de raízes nórdicas e folclóricas. A banda assume os Bathory como uma das suas grandes referências, em particular a fase viking de Quorthon, e encontrou em Lisboa a maior afluência de público do dia — um sinal de que, àquela hora, a ausência anunciada tinha afastado pouca gente.
Também envoltos em antecipação elevada, os SCHAMMASCH subiram a palco para assinalar dez anos de «Triangle», o colossal terceiro álbum que, em 2016, consolidou a linguagem dos suíços para lá das fronteiras do black metal. Concebido como uma obra de cerca de cem minutos dividida em três movimentos — «The Process Of Dying», «Metaflesh» e «The Supernal Clear Light Of The Void» —, «Triangle» não é um disco que se preste facilmente a leituras fragmentadas. Ainda assim, condicionados pelos sessenta minutos de palco, os SCHAMMASCH conseguiram apresentar aproximadamente dois terços do álbum.
E fizeram-no com uma violência sonora difícil de ignorar, recorrendo a backing tracks que funcionaram como extensão da própria formação em palco — coros, camadas electrónicas e um verdadeiro enxame de guitarras a criar uma massa sonora onde se tornava difícil separar cada elemento. A actuação encontrou a sua conclusão natural em «The Empyrean»: depois de quase 60 minutos a acumular camadas, peso e tensão, o tema surgiu como o ponto em que todas as peças finalmente se encaixaram.
Perante uma sala bastante mais cheia do que no início da tarde, os SCHAMMASCH ofereceram uma das actuações mais sólidas do dia — e, sem ninguém o saber ao certo, uma das últimas antes de a noite confrontar finalmente o público com o lugar vazio no alinhamento.







Foi só depois dos SCHAMMASCH, com a noite já na sua fase final, que a ausência dos Sólstafir deixou de ser um percalço para se transformar num facto concreto. Não porque se falasse constantemente da banda islandesa — antes pelo contrário: a ausência só funcionou como um espaço vazio no alinhamento, perceptível sem ser nomeado, um nome que devia estar ali e não estava. Coube aos “nossos” PROCESS OF GUILT, banda portuguesa chamada à última hora para substituir o cabeça de cartaz internacional, essa tarefa ingrata.
A situação podia ler-se apenas como uma solução de emergência. Mas há outra leitura possível: o Under The Doom fechou esta primeiro noite da sua edição mais importante dos últimos dez anos com um dos expoentes máximos da cena que tão bem tem cultivado.
Talvez devido ao adiantado da hora, a verdade é que a plateia recebeu os PROCESS OF GUILT bastante mais vazia que durante as duas actuações anteriores. Em palco, o quarteto, que interrompera o trabalho de composição e ensaios do próximo álbum para preparar este regresso ao palco sem aviso prévio, não se fez rogada. Habitualmente uma máquina de precisão quase industrial, os PROCESS OF GUILT entraram em palco com pouco tempo de preparação, e isso introduziu uma urgência pouco habitual na sua música. Os temas estavam lá, a arquitectura continuava rígida e monolítica, mas havia algo de mais selvagem na forma como eram manifestados.





«Feral Ground» e «Victims» estabeleceram de imediato esse território de blocos de guitarra maciços e ritmo quase marcial que a banda tem desenvolvido desde o «Erosion», e que encontrou em «Slaves Beneath The Sun» uma expressão ainda mais agressiva. «Harvest» e «Fæmin» trouxeram depois a ligação mais directa a um dos grandes centros de gravidade da sua carreira, mantendo viva a sensação de construção sem fissuras que marca o álbum.
Em «Breathe», a dimensão rítmica tornou-se ainda mais evidente, sustentada por um compasso composto que lhe dá um andamento sinuoso, interrompido por breakdowns pesados. «Host» fechou uma actuação que nunca procurou qualquer espécie de elegância — peso, tensão e movimento físico, e a prova de que uma banda habituada a um controlo quase espartano pode ganhar outra vida quando esse controlo é ligeiramente perturbado.
No final, ficou no ar a sensação de que, em 2026, o primeiro dia de Under The Doom não foi apenas uma simples sucessão de seis concertos. Foi uma sucessão de ajustes ao que tinha sido originalmente planeado, com uma ausência a atravessar a noite mesmo se ninguém a mencionasse.
Uma banda abriu o festival e precisou de tempo para encontrar o seu espaço. Outra regressou após duas décadas e transformou as dificuldades técnicas em intimidade. Uma terceira conquistou a sala com um único gesto. Uma quarta trouxe a maior afluência do dia sem que o nome em falta ainda pesasse. Uma quinta construiu, a partir de um álbum com dez anos, uma das actuações mais sólidas da noite — sem saber que seria a última antes do verdadeiro momento de viragem. E uma sexta tocou como quem ainda tinha alguma coisa por resolver, porque tinha.
Nada disto estava no cartaz original. Mas tudo isto foi um festival. Porque os cartazes são planos; os festivais são acontecimentos, e os acontecimentos têm imprevistos. E sim, o cancelamento dos Sólstafir podia perfeitamente ter dominado a narrativa. Mas não dominou: os PROCESS OF GUILT ocuparam o lugar, os restantes concertos aconteceram, e a grande maioria do público ficou até perceber que a noite, afinal, tinha a sua própria forma de se completar. Um festival não é o cartaz que anuncia. É aquilo que consegue fazer quando o cartaz deixa de ser suficiente — e foi precisamente aí, no primeiro dia do Under The Doom 2026, que começou a verdadeira história.





