Depois de Estocolomo ter mostrado ao mundo como ressuscitar uma banda através de hologramas, é a vez do heavy metal britânico dos IRON MAIDEN testar as águas do mundo virtual — e a decisão promete redesenhar o que significa ser uma lenda viva.
Convenhamos, há uma ironia deliciosa em tudo isto. Os IRON MAIDEN, banda que construiu a sua mitologia sobre viagens no tempo, monstros mortos-vivos e um mascote que recusa envelhecer, acabam de dar um passo que os coloca, paradoxalmente, no centro absoluto do presente. A confirmação chegou dias depois do Eddfest, o primeiro festival com a assinatura da banda, realizado em Knebworth: os IRON MAIDEN venderam uma participação nos seus direitos de edição musical, nos masters e nos direitos de imagem, nome e semelhança da marca à Pophouse Entertainment, a empresa sueca que por detrás do fenómeno ABBA Voyage.
Esta não é uma notícia menor. É, isso sim, um dos movimentos mais significativos na indústria musical britânica dos últimos anos, e o tipo de operação que obriga a repensar categorias que até há pouco pareciam estáveis: o que é uma banda, o que é um catálogo, e até onde pode ir a vida útil de uma mitologia rock construída ao longo de meio século.
Para quem acompanha o mercado dos grandes espetáculos, o nome Pophouse Entertainment já não é propriamente uma novidade. A empresa, fundada por Björn Ulvaeus (dos próprios ABBA) em parceria com vários investidores da indústria do entretenimento, tornou-se célebre por transformar o ABBA Voyage — o espectáculo digital com sede em Londres, com avatares fotorrealistas dos quatro membros da banda sueca em versões rejuvenescidas — numa das experiências ao vivo mais lucrativas desta última década, com bilhetes esgotados ano após ano e uma receita que ultrapassou largamente qualquer tour convencional dos próprios ABBA.
O sucesso do ABBA Voyage não passou despercebido, claro. Desde então, a Pophouse tem vindo a expandir-se, investindo numa série de outros catálogos e explorando fórmulas semelhantes com outros artistas, sempre com o mesmo argumento comercial: são bandas com décadas de história e que têm um património de marca, música e imaginário que pode ser reactivado, reinventado e, o mais importante, monetizado através de tecnologia de ponta, sem depender exclusivamente da presença física — nem da idade — dos seus criadores originais.
É este o território onde os IRON MAIDEN decidiram agora entrar, e esta escolha não parece ser acidental. Poucas são as bandas de heavy metal que construíram um universo visual tão rico e tão comercialmente explorável como o de Eddie, esqueleto-mascote que ilustra as capas dos álbuns desde «Iron Maiden». O Eddie já foi zombie, já foi soldado, já foi cyborg, já foi faraó egípcio. Se há uma banda de rock pesado preparada estruturalmente para uma vida além-palco,os MAIDEN são seguramente essa banda.
De acordo com o comunicado divulgado agora pelos IRON MAIDEN, o acordo abrange a venda de uma participação nos direitos de publishing e nos masters das gravações, bem como nos direitos de nome, imagem e semelhança — o agora apelidado de “name, image and likeness“, terminologia jurídica que tem vindo a ganhar protagonismo à medida que catálogos históricos como estes se tornam activos financeiros disputados por fundos de investimento e empresas de entretenimento.
Mas o comunicado é claro num ponto essencial: isto não é uma venda total, nem uma retirada da banda do controlo criativo sobre o seu próprio legado. Trata-se antes de uma injecção de capital e de know-how que permite aos IRON MAIDEN avançarem mais depressa com projectos que já estavam em gestação. Rod Smallwood, o manager da banda, sublinhou precisamente essa dimensão de aceleração: “Estou muitíssimo entusiasmado com esta nossa relação com a Pophouse Entertainment e com a capacidade que, a partir de agora, vamos ter para perseguir, viabilizar e financiar os nossos planos e sonhos mais rapidamente do que alguma vez esperámos.”
Rod Smallwood revelou ainda que esta parceria já vinha a ser construída em silêncio há mais de um ano, e que já produziu alguns resultados concretos, nomeadamente nos progressos do chamado Infinite Dreams Museum e nas filmagens da Run For Your Lives Tour, que passou recentemente por Lisboa. O nome do projecto museológico — que remete directamente para «Infinite Dreams», do álbum «Seventh Son Of A Seventh Son» — sugere que a Pophouse não está interessada em replicar a fórmula do Voyage, mas em construir um espaço físico e narrativo dedicado à mitologia de Eddie e dos IRON MAIDEN.
Por seu lado, Dave Shack, o co-manager dos IRON MAIDEN e também director executivo da Phantom Music, foi mais longe na explicação da filosofia por detrás do acordo. Segundo ele, Smallwood e Andy Taylor, que é o co-CEO da Phantom Music, sempre incentivaram a banda a arriscar no desenvolvimento do Eddie e dos universos que o rodeiam — do terror aos videojogos, passando pelos comics: “A banda fornece a pedra angular daquilo que são os Maiden — a música superlativa e os espectáculos incríveis, e a equipa da Phantom tem-se concentrado em desenvolver partes do imaginário dos Maiden que acreditamos que os nossos fãs vão abraçar e apreciar.”
Shack recordou ainda que esta não é a primeira incursão da banda em território além da música gravada e dos concertos: existe já um jogo para telemóvel premiado, um clube de fãs global, um negócio de bebidas em franca expansão, livros, banda desenhada e, claro, merchandising sob todas as formas possíveis. Na sua descrição, tudo isto faz da marca IRON MAIDEN “um dos maiores parques de diversões para um criativo trabalhar” — e assinala que a Pophouse já demonstrou pertencer a esse espaço.
Importa notar que o timing deste anúncio não é despiciendo. O acordo com a surge dias após a realização do Eddfest, o primeiro festival organizado pela própria banda, em Knebworth — um palco histórico que, na memória colectiva do rock britânico, evoca de imediato o concerto icónico dos IRON MAIDEN em 1988, na altura o maior espectáculo de sempre da banda em Inglaterra. Ao criar um festival com o seu próprio nome e mitologia como eixo central, os MAIDEN já tinham sinalizado uma vontade clara de expandir o modelo de negócio para além da fórmula tradicional de álbum-digressão-álbum.
E se o Eddfest funciona, nesse sentido, como demonstração de força: a prova de que a marca tem capacidade de atrair um público e gerar valor mesmo fora do formato de concerto convencional, o acordo com a Pophouse surge como o passo lógico seguinte — e mais ambicioso — dessa mesma estratégia.
Há quem veja nestas movimentações uma inevitabilidade económica, e não propriamente uma traição artística. Bandas como os IRON MAIDEN, cujos membros rondam ou já ultrapassaram os 70 anos de idade, enfrentam uma equação incontornável: como preservar e expandir um legado quando a presença física dos seus criadores tem, forçosamente, um horizonte temporal limitado? Na verdade, o modelo Voyage já ofereceu uma resposta radical a essa pergunta no caso dos ABBA, um grupo que já não realizava concertos há décadas e que encontrou, na tecnologia de avatares, uma forma de regressar ao palco sem as limitações da idade ou da logística de uma digressão convencional.
Para os IRON MAIDEN, banda que continua activamente em tour e que acabou de mostrar que ainda consegue encher recintos e gerar entusiasmo genuíno, a questão coloca-se de uma forma bastante distinta: não se trata de substituir o concerto ao vivo, mas de multiplicar as formas através das quais o imaginário pode chegar a públicos que talvez ainda nunca tenham assistido a um concerto autêntico dos Maiden — ou que já não possam vir a fazê-lo no futuro.
É este o verdadeiro significado da frase do comunicado que fala em “trazer o vasto catálogo da banda a novas audiências“. Não se trata apenas de vender mais bilhetes ou mais álbuns; trata-se de garantir que a mitologia sobrevive, de forma activa e rentável, ao desaparecimento inevitável dos seus criadores originais.
Para os fãs dos IRON MAIDEN, a pergunta que fica agora no ar é se existirá, num futuro próximo, um Eddie digital a partilhar o palco holográfico com uma versão rejuvenescida de Bruce Dickinson. O comunicado da banda não confirma nem desmente essa possibilidade — mas, depois do precedente sueco, já não soa a ficção científica. Soa, isso sim, a próximo capítulo lógico de uma mitologia que sempre soube reinventar-se sem nunca deixar de ser, essencialmente, ela própria.


