IRON MAIDEN

IRON MAIDEN @ Estádio Da Luz, Lisboa | 07.07.2026 [reportagem]

Cinquenta anos depois, os IRON MAIDEN continuam a fazer história em Lisboa.

Há um instante, muito pouco antes das luzes se apagarem completamente, em que um estádio cheio de estranhos deixa de ser “um estádio cheio de estranhos”. Nesse momento, na Luz, dezenas de milhares de pessoas — em grande parte desconhecidas entre si, mas unidas por um mesmo fervor — respiraram fundo em uníssono. Sabiam o que aí vinha. Muitas já o tinham vivido antes, alguns em 1984, em Cascais e no Porto, no Pavilhão Atlântico, na MEO Arena, no Estádio Nacional.

Pois, porque em Portugal, os IRON MAIDEN não se limitam a dar concertos. Instalam-se. Ficam. Tornam-se parte da memória colectiva de gerações de fãs que cresceram a ouvir falar deles como quem fala de uma religião — e esta noite, integrada na segunda etapa europeia da Run For Your Lives World Tour, que passou por Lisboa no ano passado, voltou para assinalar mais uma vez os 50 anos de carreira da banda, não foi excepção.

Desde o início da tarde que os arredores do Estádio da Luz se transformaram num mundo diferente. T-shirts desbotadas de digressões antigas, bandeiras erguidas ao vento, casacos de ganga cobertos de patches — e, claro, o “sacana” do Eddie, a espreitar de todos os lados, em bordados, em impressões, em tatuagens. Por breves horas, o tempo pareceu recuar aos anos 80, e não apenas em espírito: para muitos, era como se regressassem fisicamente a uma época que os formou.

Convenhmos, essa sensação não nasce do acaso. A relação entre os IRON MAIDEN e Portugal tem raízes profundas, quase três décadas e meia de história. A banda britânica estreou-se por cá em 1984, com uma dupla data no Porto e em Lisboa, numa altura em que ver ao vivo um nome desta dimensão era, para o público português, um privilégio raro. O impacto foi imediato: pela primeira vez, o país sentiu-se parte do mapa global do heavy metal.

Desde então, a fidelidade cresceu nos dois sentidos. Cascais, o Pavilhão Atlântico, múltiplos festivais, o Estádio Nacional — cada regresso ficou gravado na memória de quem esteve presente, e a própria banda parece corresponder sempre a esse carinho. Aliás, Steve Harris nunca escondeu a afeição pelo público luso, referindo-se por diversas vezes aos concertos em Portugal como alguns dos mais emocionantes de toda a carreira do grupo.

É contra este pano de fundo que se compreende a dimensão desta noite: um regresso que assinalava não só meio século de existência dos MAIDEN, mas também um reencontro com o material “clássico” do catálogo — um gesto, também ele, que acaba por ser de gratidão para com um país que sempre tratou a donzela de ferro tão bem.

Há uma magia singular nos concertos de estádio que nenhum recinto coberto consegue replicar. É ver a banda de abertura actuar ainda com o sol a bater na cara do público, o calor do fim de tarde a misturar-se com a primeira cerveja, enquanto a noite se instala devagarinho, quase imperceptivelmente, até que a escuridão acaba por tornar-se cúmplice do espectáculo.

Há hora marcada, os ANTHRAX abriram a noite, com um set de thrash que durou cerca de 45 minutos que rapidamente incendiou a plateia. «Among The Living», Madhouse», «Caught In A Mosh», «Indians», o novo single «For The Kids» e, a quase fechar, a «Antisocial», dos franceses Trust. sucederam-se sem trégua. Joey Belladonna e Scott Ian pareciam genuinamente entregues a cada segundo, e actuaram com uma energia e uma paixão contagiantes.

Foi esse fervor inicial que preparou o terreno para os IRON MAIDEN: o dia a esvair-se lentamente, como se o próprio Estádio da Luz soubesse que precisava de escuridão para o que se seguia e, no momento em que os primeiros acordes da «Doctor Doctor», dos UFO, começaram a soar pelas colunas, o estádio reagiu em uníssono. Braços no ar, vozes em coro, alegria dos mais devotos. Não é um momento que se explique facilmente — é um chamamento, que a repetição de anos não desgastou.

O ecrã gigante no fundo do palco despertou de seguida, com uma viagem digital pelas ruelas sombrias da East London dos 80s: névoa, candeeiros a tremeluzir, fachadas decrépitas. E foi nesse instante, num crescendo de arrepiar, que as luzes explodiram em tons de vermelho e os IRON MAIDEN tomaram o palco, arrancando com a «Murders In The Rue Morgue».

O que se seguiu foi um murro colectivo e muitos arrepios: três temas da era mais nua e crua dos MAIDEN — «Murders In The Rue Morgue», «Wrathchild» e «Killers» — a abrir a noite com a agressão de um grupo que, outrora, tentava, pela primeira vez, conquistar o mundo à força de atitude. Mesmo com um pequeno deslize durante a «Killers», rapidamente corrigido, o efeito foi o mesmo: a plateia inteira presa num abraço de força, entre violência e devoção.

O curioso é que nada nestas canções soa datado. Pelo contrário — ainda parecem urgentes, sendo que esse é, talvez, o verdadeiro feito desta digressão: transformar o arquivo em presente, sem precisar de disfarçar as arestas, deixando-nos a sonhar com uma tour em que só tocam temas dos dois primeiros álbuns. Pena que, numa oonda em crescendo, se tenha seguido em dos momentos mais discutidos da noite: o regresso da «Infinite Dreams» ao alinhamento — uma canção que os IRON MAIDEN não tocavam ao vivo há 38 anos.

Bruce Dickinson e Steve Harris já disseram publicamente que a ideia de recuperar o tema, em vez da «The Clairvoyant» (tocada na primeira etapa desta digressão), tinha sido travada por dúvidas quanto à dificuldade vocal da peça. Vocalmente, as dúvidas revelaram-se infundadas — Dickinson esteve à altura do desafio. Mas, no conjunto do espectáculo, o tema quebrou ligeiramente o andamento, introduzindo uma pausa de intensidade num bloco que, até então, avançava sem hesitações.

Não chega a ser um erro de programação, mas é um risco perceptível: a prova de que, mesmo aos 50 anos de carreira, a banda continua disposta a sacrificar um pouco de fluidez em nome da surpresa.

Não demorou muito a que resgatassem a energia. A ajudar, e muito, a produção cénica é, sem dúvida, um elemento definidor e o ecrã gigante que preenche todo o fundo do palco devolveu a «Powerslave» uma escala verdadeiramente monumental, com a iconografia da pirâmide e os corredores de catacumbas a emprestarem à canção um peso quase arqueológico.

Eddie, nas suas múltiplas representações digitais, deixou de ser mera mascote animada para se tornar uma presença quase constante: ora projectado no ecrã em escala monumental, ora encarnado por um performer em palco, ora resultado de ilusões visuais engenhosas. A sua primeira aparição — inspirada no Eddie de «Killers», a ameaçar o guitarrista Janick Gers com um machado — arrancou os habituais risos e aplausos, mas também deixou claro que o espectáculo, esta noite, seria mais teatral que nunca.

Havia, no entanto, uma incógnita a pairar sobre a noite: como se comportaria Simon Dawson, o baterista que substitui Nicko McBrain após o afastamento motivado por problemas de saúde que preocuparam fãs em todo o mundo? A resposta, desta vez, foi mais matizada do que na passagem anterior pela MEO Arena, onde Dawson se tinha revelado exímio. No Estádio da Luz, o baterista não esteve tão em forma: ocasionalmente atrasou o tempo, um deslize notado inclusive na «2 Minutes To Midnight».

Nada que comprometesse gravemente o conjunto, +e certo, mas o suficiente para lembrar que, mesmo dentro de uma máquina tão bem oleada como os IRON MAIDEN, há noites e noites. Ainda assim, em «Rime Of The Ancient Mariner» — o colosso narrativo que a banda transforma, com o ecrã gigante, numa autêntica animação da história marítima da canção —, Dawson recuperou terreno.

Mais destacado do que é habitual, Dave Murray deu provas ( e mais provas) da sua relevância e dizer que Dickinson é um dos maiores frontmen da história do heavy metal já não é novidade, mas vê-lo assim, ao vivo, com 65 anos, continua a ser uma lição sobre o que significa comandar um palco. Mais do que voz, é maestro, contador de histórias, actor e acrobata, tudo simultaneamente. Além disso, a cada nova canção corresponde um figurino distinto: o colete da «The Trooper», o casaco cerimonial da «Seventh Son Of A Seventh Son», o uniforme vitoriano da «Fear Of The Dark», o capacete de aviador da «Aces High».

O momento visualmente mais marcante da noite, ainda assim, terá sido a «Hallowed Be Thy Name», com o cantor dos IRON MAIDEN encerrado numa jaula cenográfica enquanto o ecrã projectava uma série de imagens tão macabras quanto absurdas, cruzando o horror expressionista com o humor britânico mais afiado. Puro IRON MAIDEN: teatral, autoirónico, sombrio.

Na boca do palco, Steve Harris, aos setenta anos, parece decidido a tomar conta do estádio sozinho. É como sempre foi. Corre de um lado ao outro do palco, o baixo empunhado como arma, sem qualquer sinal de acomodação. E é isso, no fundo, que continua a distinguir os IRON MAIDEN de tantos veteranos do género: mesmo tendo já ganho a partida antes de pisarem qualquer palco do mundo, há neles uma recusa sistemática em facilitar, uma mordacidade visceral que se recusa a abrandar. É como se soubessem que valem apenas o que estão a fazer naquele preciso instante — e por isso dão sempre tudo, sem uma excepção, todas as noites.

Se a primeira metade do concerto se dedicou a escavar o catálogo mais antigo, a recta final trouxe os hinos que dispensam apresentações e o Estádio da Luz explodiu em euforia genuína. «Run To The Hills» e «Iron Maiden» encerraram o corpo principal do espectáculo, mas foi o encore que elevou tudo a outro patamar. «Aces High» abriu com projecções de Spitfires no ecrã, numa coreografia de guerra aérea que fez tremer o estádio. «Fear Of The Dark» transformou o recinto num enorme mar de ecrãs de telemóvel e a «Wasted Years» encerrou os trabalhos com uma reflexão inevitável: são precisamente esses “anos desperdiçados” que os IRON MAIDEN têm vindo a recuperar, digressão após digressão, disco após disco, reinvenção após reinvenção.

É por isso que, meio século depois da sua formação e décadas depois da estreia em solo português, continuam a merecer a credibilidade, o respeito e a devoção que os acompanham. E é por isso, também, que continuam a ser não apenas uma das maiores bandas do mundo, mas uma das que mais fundo marcou a história do heavy metal em Portugal.

Aos 50 anos de existência, os IRON MAIDEN continuam, simplesmente, sem rival.