Numa noite de reviravoltas, o EVILLIVƎ FESTIVAL subiu com os IMMINENCE, THE GATHERING, CONVERGE e MASTODON, caiu com o ancelamento dos MEGADETH e ressuscitou com MARILYN MANSON.
Se a noite de aquecimento na Sala Tejo tinha servido para elevar as expectativas, a edição de 2026 do EVILLIVƎ FESTIVAL, já na MEO Arena propriamente dita, encarregou-se de testar essas expectativas de todas as formas possíveis. As duas noites acabaram por funcionar quase como um díptico: o warm-up provou que um dia de aquecimento pode ter o peso de um festival por inteiro, o dia principal lembrou que mesmo os cartazes mais bem construídos estão à mercê do imprevisto.
Entre estreias há muito aguardadas, regressos há muito desejados e uma reviravolta de última hora que ninguém antecipava, o último Domingo, 5 de Julho, ficará certamente na memória do público português como uma das edições mais imprevisíveis do EVILLIVƎ.
Pois bem, coube aos suecos IMMINENCE abrirem a tarde com a sua tão aguardada estreia em solo luso. E, em apenas trinta minutos de actuação, o grupo serviu uma boa amostra do seu metalcore progressivo, pontuado por apontamentos ocasionais de violino, assinando uma actuação imaculada — um exemplo claro daquilo que hoje em dia se entende por metal moderno: ultra produzido, tecnicamente rigoroso e sem qualquer margem para erros.
O espectáculo abriu com «Temptation», uma entrada em bom tom, e que serviu como cartão de visita ao som da banda, antes de «Heaven Shall Burn» elevar de imediato a intensidade. Seguiram-se «The Sword That Never Bends» e «Death By A Thousand Cuts», dois temas que deixaram entrever a componente um pouco mais melódica do grupo sem nunca abdicar do peso instrumental, e o alinhamento fechou com as colossais «God Fearing Man» e «The Black», num remate eficaz para uma actuação curta, sobretudo para os fãs, mas tecnicamente irrepreensível.
Para uma banda que se tem vindo a afirmar como uma das mais relevantes da nova geração do metal de teor mais contemporâneo made in Europe, esta breve incursão pelo EVILLIVƎ FESTIVAL serviu sobretudo para despertar curiosidade — e para deixar um sinal claro de que o regresso, num formato mais alargado, será certamente muito bem-vindo.
Se a estreia dos IMMINENCE tinha mostrado o lado mais polido e produzido do metal contemporâneo, os primeiros minutos da actuação dos THE GATHERING tornaram essa diferença ainda mais notória. O concerto assinalou o fim de um hiato de 17 anos desde a última vez que o colectivo neerlandês pisou território nacional, e trouxe consigo um regresso simbolicamente carregado: Anneke van Giersbergen, a voz que definiu para todo o sempre a identidade sonora do grupo, de volta ao leme para celebrar as três décadas de «Mandylion».
Vale a pena recordar o percurso que separa estes dois momentos. Anneke deixou os THE GATHERING em 2007, após treze anos como frontwoman da banda, para explorar outros caminhos — primeiro através do projecto Agua de Annique, depois em nome próprio, e mais tarde também à frente de formações como THE GENTLE STORM e VUUR, além de uma parceria duradoura com o canadiano Devin Townsend.
Foi apenas a partir de 2025, e por circunstâncias pessoais que a vocalista descreveu como um reencontro motivado por luto e amizade, que a formação que gravou o seminal «Mandylion» voltou a juntar-se em palco. O que começou como um punhado de concertos de celebração transformou-se, graças à resposta esmagadora do público, numa digressão internacional que trouxe o grupo, finalmente, de volta a Lisboa – e ao EVILLIVƎ.
Logo aos primeiros acordes, percebeu-se que os THE GATHERING continuam a funcionar como uma banda à moda antiga: são músicos num palco, a tocar ao vivo tudo aquilo que se ouve, sem recurso a truques ou pistas pré-gravadas. Apesar de alguns problemas técnicos, o som quente, orgânico até ao osso, soou como uma proverbial lufada de ar fresco perante uma plateia rendida às atmosferas destes temas como três décadas. O concerto abriu com «Eleanor», seguida de «Fear The Sea», duas escolhas que estabeleceram desde logo o tom contemplativo que tão bem os caracteriza.
«In Motion #1» trouxe uma dimensão mais hipnótica, antes de «On Most Surfaces (Inuit)» aprofundar ainda mais a atmosfera envolvente. O alinhamento prosseguiu com «Leaves» e «Strange Machines», culminando em «Saturnin», que encerrou o concerto num crescendo emocional muito bem construído.
Foi particularmente gratificante ver Anneke genuinamente divertida em palco, a cantar estes temas mais pesados depois de tantos anos afastada deste tipo de sonoridade no seu percurso a solo — um contraste notório com a precisão quase clínica que tinha marcado a actuação anterior, e um bom lembrete de que algumas vozes, por mais tempo que passe, nunca perdem a capacidade de tocar quem as ouviu crescer.
O contraste com o que se seguiu não podia ser maior. Como boa banda de raízes hardcore punk que são, os CONVERGE fizeram o seu line check com as luzes de palco acesas e a silhueta icónica de «Jane Doe» — capa do álbum que os tornou incontornáveis — a espreitar por trás do equipamento.
Não é exagero dizer que esse é um dos álbuns-charneira de um género: foi com ele que os CONVERGE ajudaram a definir aquilo que hoje se chama mathcore, cruzando a agressividade crua do hardcore com estruturas rítmicas de complexidade quase matemática — uma influência que se estende, tanto directa como ou indirectamente, a boa parte do metalcore e do post-hardcore produzidos nas duas décadas seguintes. Ter essa imagem como pano de fundo não foi, por isso, um mero acaso estético, mas antes uma declaração implícita de identidade no EVILLIVƎ.
Descontraidamente, Ben Koller deixou escapar um cheirinho de «Run To The Hills» na bateria, antes de Kurt Ballou se lhe juntar com o riff inconfundível de «Twist Of Cain». Após um breve impasse técnico, resolvido o equilíbrio de monitores e microfones, as luzes apagaram-se, a introdução soou pelo PA, e o quarteto atirou-se a «It Used To Matter» com uma força avassaladora. Com a bateria a soar como uma metralhadora e os gritos de Jacob Bannon a ecoarem pela MEO Arena, abriu-se de imediato uma roda de mosh no centro da plateia.
O que se seguiu foi, como e costume, uma descarga que não fez prisioneiros: «Love Is Not Enough» e «Bad Faith» mantiveram o ritmo alucinante, «Eagles Become Vultures» e «Dark Horse» intensificaram ainda mais a fúria. «Under Duress» e «Amon Amok» não deram tréguas, e «Distract And Divide» trouxe consigo uma das descargas mais caóticas de toda a tarde.
O alinhamento prosseguiu com «To Feel Something» e «Doom in Bloom», antes de «We Were Never the Same» e «I Can Tell You About Loss» conduzirem o concerto até ao momento final, com a clássica «Concubine» a fechar uma actuação que pareceu deixar muitos dos presentes — provavelmente menos familiarizados com este tipo de sonoridade — divididos entre a estupefação e a observação atenta de uma demonstração de brutalidade sem paralelo em todo o cartaz.
Colmata mais uma mudança de palco, foi com «Crazy Train» a servir de catalisador que os MASTODON subiram ao palco um a um para o que representava um momento inevitavelmente carregado: o primeiro espectáculo em Portugal desde a saída, e a posterior e trágica morte, do guitarrista e co-fundador Brent Hinds.
A história desta ausência é dolorosa e ainda recente. Em Março de 2025, a banda anunciou a separação de Hinds em termos que descreveu como uma “decisão mútua“, após uns colossais 25 anos de carreira partilhada desde a fundação do grupo, em 2000. Nos meses seguintes, porém, o guitarrista contestaria publicamente essa versão, afirmando ter sido afastado da banda. Escassos meses depois, Hinds morreu aos 51 anos, vítima de um acidente de mota em Atlanta — uma tragédia que apanhou toda a gente de surpresa e que transformou, inevitavelmente, este regresso ao EVILLIVƎ num momento de luto por resolver.
Com um dos sons mais equilibrados de toda a tarde, o quinteto — com Nick Johnnston na guitarra e o brasileiro João Nogueira os teclados — deu início à actuação com a mestria que lhes conhecemos já tão bem . O alinhamento abriu com «Tread Lightly» e «Motherload», dois temas que serviram para aquecer rapidamente a plateia, antes do novo single «Your Ghost Again», dedicado por Troy Sanders a Hinds, ter introduzido uma dimensão mais introspectiva no meio da energia inicial.
«Crystal Skull» e «Black Tongue» devolveram o concerto a um registo mais pesado e festivo, enquanto «Megalodon» se destacou como um dos momentos mais coesos do espectáculo. Seguiram-se «More Than I Could Chew» e «Motherpuncher», intercalados por um breve interlúdio instrumental, antes da banda regressar à energia plena com «Steambreather» e encerrar em cheio com «Blood & Thunder».
A ausência daquela atitude imprevisível que caracterizava Brent Hinds provavelmente vai fazer-se sentir para sempre. Ainda assim, a banda revelou estar num excelente momento de forma, e o momento mais emotivo da tarde aconteceu quando os MASTODON dedicaram o seu single mais recente à memória do antigo companheiro — um gesto que gerou uma sentida salva de palmas por parte do público, e que pareceu funcionar quase como um pequeno funeral colectivo, celebrado por quem mais o conheceu através da música.
Foi, no cômputo geral, uma das performances mais consistentes da edição deste ano do EVILLIVƎ — e um sinal encorajador de que a banda oriunda de Atlanta continua a manter fôlego criativo, mesmo depois de uma perda tão significativa.
E foi precisamente quando o início da noite parecia caminhar sem sobressaltos que o EVILLIVƎ FESTIVAL sofreu a sua maior reviravolta. Após um atraso no arranque do espectáculo seguinte, surgiu o inesperado: através do sistema de som, a organização anunciou ao público que, afinal, os MEGADETH não iam actuar. O comunicado chegou numa altura em que todo o equipamento já estava montado e o palco preparado para receber a banda, gerando uma onda de desilusão generalizada entre os milhares de fãs presentes.
A reacção dividiu-se: uma parte do público respondeu com assobios e protestos audíveis, enquanto outra optou por abandonar o recinto à medida que a desmontagem do palco decorria diante dos nossos olhos. Como consequência directa desta alteração de última hora, o concerto seguinte, de MARILYN MANSON, viu o seu início adiantado para as 22:30. Até ao momento da publicação desta reportagem, a organização não tinha divulgado informações adicionais sobre as razões do cancelamento, prometendo fazê-lo assim que possível. A banda, por seu lado, divulgou um curto comunicado, em que cita “problemas técnicos”.
Como é lógico, o peso desta ausência ganha uma dimensão particular porque os MEGADETH andam em périplo pelo mundo na sua tour de despedida, o que tornava esta paragem em Lisboa um dos concertos mais aguardadas de todo o cartaz. Para muitos dos presentes, esta seria uma das últimas oportunidades de ver ao vivo uma das bandas fundadoras do thrash — uma oportunidade que, por razões ainda não esclarecidas, acabou por se perder.
Episódios como este colocam sempre a organização de grandes festivais perante um dilema conhecido, mas raramente fácil de gerir: como comunicar uma má notícia a milhares de pessoas já reunidas para a receber, sem transformar a frustração legítima do público em caos. O EVILLIVƎ optou pela reorganização rápida do horário seguinte — uma decisão que, como se veria a seguir, se revelaria acertada.
Coube então ao shock rocker MARILYN MANSON a tarefa quase impossível de resgatar uma noite que, momentos antes, parecia condenada à desilusão. E, à semelhança do que já tinha feito recentemente no Sagres Campo Pequeno, o artista assinou um concerto irrepreensível que, mesmo sem conseguir apagar por completo a ausência de Dave Mustaine e companhia, foi mais do que suficiente para reconquistar o público.
A entrada em palco foi construída com o sentido teatral que sempre definiu a carreira de Manson: «Bela Lugosi’s Dead», a tocar no PA, estabeleceu o ambiente, seguida de uma intro de tom quase apocalíptico. Caído o pano, com o palco envolto em fumo e sete cruzes de Lorena a iluminar o cenário, a silhueta do artista surgiu a meio do palco, dando o mote para os 75 minutos que se seguiram.
O concerto abriu oficialmente com «Nod If You Understand», entrada directa que rapidamente cedeu lugar a «Disposable Teens», um dos hinos mais reconhecíveis de Manson, recebido de imediato com euforia generalizada. «Angel With The Scabbed Wings» manteve a fasquia elevada, antes de «Great Big White World» trazer uma dimensão mais sombria e atmosférica ao alinhamento. «This Is The New Shit» devolveu o concerto a um registo mais directo e agressivo, enquanto «Dried Up, Tied And Dead To The World» e o novo single «Exit Wound» aprofundaram o lado mais visceral do reportório.
O meio do alinhamento trouxe «The Nobodies», seguida de «The Dope Show», dois daqueles temas que reforçaram a capacidade de Manson para equilibrar melodia e provocação sem nunca soar datado. Ainda assim, foi a escolha de incluir «Sweet Dreams (Are Made Of This)», a célebre versão dos Eurythmics que se tornou praticamente um tema próprio, que funcionou como um dos pontos mais altos da noite, com o recinto inteiro a cantar em uníssono.
Seguiram-se «mOBSCENE» e «The Beautiful People», este última recebida com uma intensidade quase ensurdecedora — talvez o momento de maior comunhão entre artista e público. Já em encore, a noite encaminhou-se para o fim com «Tourniquet», antes de encerrar definitivamente com outra versão que já pertence de pleno direito ao imaginário do artista: «Personal Jesus», originalmente dos Depeche Mode, escolhida para fechar o espectáculo com a mesma teatralidade sombria que o tinha aberto.
Já com uma nova formação a acompanhá-lo, Manson apresentou-se em grande forma — talvez a melhor que lhe vimos desde os tempos áureos de «Antichrist Superstar» e de «Mechanical Animals». Contribuiu para isso um alinhamento claramente muito bem pensado, construído de forma inteligente para incluir só o melhor do seu vastíssimo catálogo, sem margem para quaisquer tempos mortos, e reforçado por duas versões que, mais que meros exercícios de nostalgia alheia, se tornaram parte inseparável da sua própria identidade artística.
Ficou, assim, comprovado — caso ainda houvesse dúvidas — que MARILYN MANSON continua a ter hits mais que suficientes para sustentar sozinho uma noite inteira de festival, mesmo quando essa noite lhe é entregue de forma tão inesperada.

A foto do cabeçalho é cortesia da Medios y Media [via Getty Images]




