No dia em que o clássico «Wolverine Blues» celebra mais um aniversário, recordamos o momento em que a ligação dos CONVERGE ao clássico dos ENTOMBED ganhou um capítulo definitivo na edição de 2018 do festival Roadburn.
Há versões que são apenas versões e depois há aquelas que parecem ter sido feitas para acontecer. No Roadburn Festival 2018, em Tilburg, nos Países Baixos, os CONVERGE recuperaram «Wolverine Blues», um dos temas mais emblemáticos dos suecos ENTOMBED, e transformaram-no numa descarga de violência sonora com uma formação particularmente improvável: Jacob Bannon, Tomas “Tompa” Lindberg e Kevin Baker juntos atrás do microfone.
A ocasião tinha uma importância especial para Bannon. O vocalista e figura central dos CONVERGE, para além de fundador da editora Deathwish, foi um dos responsáveis pela curadoria da edição de 2018 do Roadburn, ajudando a construir um cartaz que, como é habitual no festival de Tilburg, atravessava diferentes territórios da música pesada. A presença dos próprios CONVERGE acabou por dar ainda mais peso à programação, com a banda a protagonizar dois concertos distintos ao longo do fim-de-semana.
Num deles, o quarteto dedicou-se integralmente a «The Dusk In Us», álbum lançado no ano anterior, apresentando-o de uma ponta à outra. Na noite seguinte, inverteram o foco temporal e regressaram a 2004 para tocar «You Fail Me» na íntegra. Entre esses dois exercícios de memória discográfica, houve ainda espaço para recuperar uma música que já fazia parte da história dos CONVERGE muito antes de chegar ao palco do Roadburn.
A escolha de «Wolverine Blues» não surgiu, portanto, do nada. O emblemático tema dos ENTOMBED já tinha sido objecto de uma homenagem particularmente curiosa por parte dos norte-americanos em 2013, quando os CONVERGE lançaram um EP com o título «Pound For Puund», exclusivamente dedicado a diferentes interpretações do clássico sueco. O resultado foi uma espécie de experiência vocal colectiva: cinco versões do mesmo tema, cada uma conduzida por uma voz diferente.
Naturalmente, o vocalista dos CONVERGE assumiu uma das interpretaçõe, mas não foi o único elemento da banda a entrar nesta brincadeira. Nate Newton também emprestou a voz a uma das versões, enquanto Kevin Baker, dos All Pigs Must Die, participou noutra. A lista completou-se com Aaron Turner, figura associada aos SUMAC, Old Man Gloom e aos extintos ISIS, e Tomas “Tompa” Lindberg, malogrado vocalista dos AT THE GATES.
Ou seja, a reunião no festival Roadburn tinha um antecedente bastante concreto. Jacob Bannon e Lindberg já tinham partilhado a responsabilidade de levar «Wolverine Blues» a diferentes terrenos em estúdio; Baker também tinha a sua própria leitura registada no mesmo projecto. Desta vez, em vez de cinco versões separadas, as diferentes interpretações convergiram no mesmo palco.
O resultado juntou, assim, três vozes com percursos muito diferentes mas perfeitamente compatíveis com o peso primitivo do tema original dos ENTOMBED. Bannon trouxe a ferocidade hardcore dos CONVERGE, Tomas Lindberg a assinatura inconfundível que ajudou a definir o death metal sueco dos AT THE GATES e Baker a brutalidade associada aos All Pigs Must Die. A equação ganha ainda outra dimensão quando se recorda que «Wolverine Blues» pertence precisamente à geração de temas que ajudaram a aproximar o death metal de uma abordagem mais directa e acessível sem lhe retirar o carácter ameaçador.
A versão original, lançada pelos ENTOMBED em 93 no LP homónimo, tornou-se uma das peças fundamentais da transformação do som da banda depois de «Left Hand Path». O peso das guitarras, o balanço quase rockeiro e a voz cavernosa de Lars-Göran “LG” Petrov fizeram de «Wolverine Blues» um dos exemplos mais reconhecíveis daquilo que viria a ser associado ao chamado death ‘n’ roll. Para uma banda como os CONVERGE, cuja própria carreira se construiu em torno da colisão entre agressividade, experimentação e caos controlado, havia muito mais do que uma simples afinidade estética nesta escolha.





