O guitarrista fundador dos VENOM deixou uma homenagem profundamente pessoal a Conrad “Cronos” Lant, e recordou a amizade, a irreverência e a química dos três homens que ajudaram a mudar para sempre o rumo do heavy metal.
A trágica morte de Conrad “Cronos” Lant, baixista, vocalista e figura central dos VENOM, continua a provocar reacções entre aqueles que fizeram parte da história da banda. Jeff “Mantas” Dunn, guitarrista da formação original, fez uma das homenagens mais pessoais desde a confirmação da morte do músico, aos 63 anos, recuperando não apenas o legado construído pelos VENOM, mas também as memórias de uma amizade que existia antes das discussões, das rupturas e das décadas de turbulência.
Numa publicação nas redes sociais, Mantas começou por agradecer as inúmeras mensagens de pesar recebidas desde a notícia da morte de Cronos. Mas rapidamente deixou claro que, para ele, a dimensão da perda não pode ser separada da história partilhada pelos três membros fundadores dos VENOM. O guitarrista revelou ainda ter falado com Antony “Abaddon” Bray, o baterista original da banda, e afirmou falar em nome dos dois ao reconhecer a importância daquele núcleo inicial.
“Apesar da história turbulenta desta banda, no final do dia fomos nós os três que começámos algo tão especial e mudámos a direcção, o movimento e a história do metal tal como o conhecemos“, escreveu Mantas.A frase que resume uma transformação que ultrapassou largamente os limites dos próprios VENOM. Quando o trio começou a construir aquela identidade nos finais dos anos 70 e início dos anos 80, não estavam simplesmente a acrescentar mais uma banda pesada ao panorama britânico.
A atitude, a velocidade, a estética deliberadamente provocadora e uma sonoridade cada vez mais extrema ajudaram muito a abrir caminho para várias gerações de música extrema que viriam depois. No entanto, é precisamente para lá dessa dimensão histórica que Mantas conduz a sua homenagem. O guitarrista recorda os primeiros anos como um período marcado por uma espécie de código próprio, pela sensação de que os três estavam juntos contra o mundo e por uma vontade quase obstinada de fazer algo que não se parecesse com o que já existia.
“Naqueles tempos, o que me lembro é a amizade que tínhamos nos primeiros dias, aquela mentalidade de um por todos e todos por um, aquela qualidade rebelde e o desejo absoluto de sermos algo tão diferente, fosse ou não aceite“, escreveu. O músico revelou também guardar ainda várias gravações de vídeo daqueles primeiros tempos, documentos pessoais de uma época em que a importância futura dos VENOM estava longe de ser evidente. São imagens que, segundo ex-VENOM, mostram os três a divertir-se, muitas vezes a rir sem qualquer razão especial.
“Ainda tenho muitas gravações de vídeo dos primeiros tempos dos três, em que simplesmente nos ríamos, por vezes sem outra razão que não fosse estarmos a ser parvos“, contou. “O nosso sentido de humor era um gosto adquirido.“
A memória ganha peso precisamente por surgir depois de décadas de conflitos, discussões e mudanças de formação. A história dos VENOM ficou marcada por separações e divergências, com diferentes encarnações da banda a coexistirem e com os seus membros a seguirem caminhos distintos. Ainda assim, não tenta apagar essa realidade na sua homenagem. Pelo contrário, reconhece-a frontalmente, antes de admitir que a morte de Cronos torna tudo isso secundário. “Apesar da história, das discussões, dos insultos, dos altos e baixos e da forma disfuncional desta banda, isto bate forte“, escreveu.
A morte do vocalista e baixista deixa assim um vazio particularmente complexo no universo criado pelos VENOM. Cronos não era apenas o último representante activo da formação clássica dentro da versão da banda que liderava. Era também o elemento que, durante décadas, permaneceu associado ao nome VENOM enquanto Mantas e Abaddon construíam páginas distintas da sua relação com esse legado.
A própria situação em torno do nome VENOM tornou-se, nos últimos anos, particularmente fragmentada. Antes da morte de Cronos, existiam três formações distintas associadas ao nome ou a variações da designação. De um lado estava a versão liderada pelo baixista/vocalista, na qual permanecia como único elemento sobrevivente da formação clássica. Paralelamente, Mantas e Abaddon tinham anunciado uma nova colaboração, recuperando a ligação entre os dois fundadores originais. E existiem ainda os VENOM INC., liderado por Tony “Demolition Man” Dolan, que integrou os VENOM entre 1989 e 1992.
Agora, mais do que uma simples despedida entre antigos companheiros de banda, as palavras de Mantas recuperam aquilo que existia antes de o mito se tornar maior do que os próprios homens. Antes das disputas, dos nomes trocados, das várias formações e das batalhas em torno do legado dos VENOM, existiam três jovens músicos unidos pela vontade de criar algo que soasse perigoso, estranho e completamente diferente. Foi dessa amizade e dessa inquietação que nasceu uma das forças mais influentes da história do metal extremo. E é essa memória — mais do que as divergências que vieram depois — que Mantas escolheu levar consigo ao despedir-se de Cronos.





