CRONOS

[R.I.P.] CONRAD “CRONOS” LANT | 1963-2026: A voz que deu nome ao black metal cala-se para sempre

Conrad “Cronos” Lant, fundador, voz e baixista dos VENOM, morreu aos 63 anos. Durante mais de quatro décadas, transformou o heavy metal numa coisa mais rápida, mais suja e muito mais perigosa — e emprestou o nome do seu segundo álbum a um dos géneros mais extremos da música contemporânea.

Faleceu Conrad “Cronos” Lant. A notícia da sua morte foi confirmada pelos próprios VENOM através das redes sociais, numa mensagem que descreve a perda com profunda tristeza e sem revelar a causa da morte do músico britânica. Ainda ssim, fica claro que no dia 1 de Outubro de 2026 o metal perdeu uma das suas vozes mais reconhecíveis e um dos seus arquitectos mais decisivos — alguém que não se limitou a atravessar uma época, mas que ajudou a desenhá-la.

Para perceber a dimensão desta perda, é preciso recuar a uma altura em que o heavy metal ainda estava a descobrir o que podia vir a ser. Nascido Conrad Thomas Lant, em Newcastle Upon Tyne, a 15 de Janeiro de 1963, “Cronos” começou a tocar ainda muito jovem e passou por diversos projectosantes de se juntar ao grupo que acabaria por adoptar o nome VENOM, onde encontrou dois músicos que se tornariam fundamentais na construção da identidade da banda: Jeff “Mantas” Dunn e Anthony “Abaddon” Bray.

Inicialmente guitarrista, Cronos assumiria depois o baixo e, mais tarde, também as vozes, após a saída do vocalista Clive Archer. Nascia ali a formação clássica dos VENOM, e com ela uma das maiores perturbações que o heavy metal alguma vez conheceu — ainda que ninguém, àquela data, pudesse adivinhar o alcance do que se preparava.

Em 1981, os VENOM lançaram a estreia «Welcome To Hell», um disco cujo título funcionava como aviso e cuja música tratou de confirmar esse aviso ao pormenor. Nada ali parecia interessado em respeitar fronteiras: a produção era crua, os riffs violentos, a bateria avançava como uma máquina descontrolada e a voz de Cronos soava como se tivesse sido arrancada de um lugar onde as boas maneiras não tinham entrada. Mas o impacto do LP não se esgotava no som — havia também uma imagem cuidadosamente construída, com o satanismo transformado em espectáculo, os nomes demoníacos, o couro, o fogo, os pentagramas, as capas e as letras provocadoras, tudo isso sustentado por uma vontade quase infantil, mas extraordinariamente eficaz, de levar tudo ao limite.

Os VENOM perceberam algo que muitas bandas da época ainda não tinham percebido, que o metal podia ser não apenas música, mas também um universo estético completo, e Cronos tornou-se a sua figura central, o rosto e a voz que davam coerência a esse universo.

Um ano depois, a banda fez algo ainda mais determinante ao baptizar o segundo álbum como «Black Metal», duas palavras que acabariam por designar uma das correntes mais extremas e controversas de toda a música pesada. É verdade que o estilo, enquanto tal, não nasceu inteiro dentro dos VENOM — a história é mais complexa, com influências anteriores e posteriores, e cenas que se desenvolveram de forma independente em diferentes países —, mas o impacto da banda britânica sobre o que viria a ser conhecido sob esse nome é impossível de ignorar.

Cronos e os seus companheiros não estavam a escrever o manual de um género que ainda não existia; estavam simplesmente a fazer barulho à sua maneira, com a convicção de quem não tinha absolutamente nada a perder. Coube então ao resto do mundo, nos anos seguintes, dar um nome à revolução que ali se tinha iniciado quase por acidente.

O que tornou os VENOM verdadeiramente importantes não foi apenas a música em si, mas a possibilidade que essa música abriu a todos os que vieram depois. Após «Welcome To Hell» e «Black Metal», tornou-se bem mais fácil imaginar uma banda que não precisasse de soar limpa, técnica ou elegante, que pudesse ser rápida, feia, ameaçadora, exagerada, interessada apenas em destruir tudo à sua passagem sem pedir desculpa por isso.

Essa atitude acabaria por ser absorvida por gerações inteiras de músicos e aspirantes a tal: o thrash encontrou ali combustível, o death metal uma referência incontornável, o black metal uma das suas pedras fundadoras, e o movimento underground como um todo descobriu que não precisava de pedir licença a ninguém para existir. Cronos não criou sozinho nenhuma dessas cenas, mas ajudou a mostrar-lhes o caminho, muitas vezes sem sequer ter plena consciência da dimensão do que estava a desencadear.

Os VENOM, por seu lado, não se contentaram em repetir a fórmula que os tinha tornado conhecidos. Em 1984, o álbum «At War With Satan» revelou um trio interessado em algo mais ambicioso, com a faixa-título a ocupar praticamente todo o lado A do LP e a apresentar uma dimensão épica que contrastava com a brutalidade directa dos trabalhos anteriores. No ano seguinte, «Possessed» encerrou uma primeira fase que se tornaria lendária, e que em apenas quatro anos tinha deixado uma marca que, hoje em dia, mais de quatro décadas depois, continua ainda intacta. Cronos esteve no centro de todos esses discos, moldando-os tanto quanto eles o moldaram a ele.

Durante décadas, a imagem de Cronos foi indissociável daquilo que os VENOM representavam, a voz rouca, o baixo, as letras, o fogo, a provocação, o próprio nome. Mas reduzir Conrad Lant à personagem “Cronos” seria perder uma parte essencial da sua história, porque por trás da figura demoníaca estava um músico curioso, trabalhador e muito mais diversificado do que a persona de palco deixava adivinhar.

Numa entrevista à Classic Rock, publicada em Agosto de 2026, Cronos falou de aspectos pouco associados à imagem tradicional dos VENOM, como a observação de aves, o exercício físico, a engenharia multimédia, a gastronomia extremamente picante e até o seu gosto por Kate Bush. Era uma contradição fascinante: o homem que ajudou a construir uma das imagens mais infernais da história do rock tinha uma vida que simplesmente não cabia dentro dela, e é talvez por isso que Cronos conseguiu sobreviver tanto tempo à própria personagem que criou, sem nunca se deixar engolir inteiramente por ela.

As décadas seguintes trouxeram mudanças, separações, regressos e conflitos. Mantas e Abaddon acabariam por seguir caminhos diferentes, deixando Cronos como a figura constante da encarnação moderna dos VENOM, aquele que garantia a continuidade do nome mesmo quando tudo o resto mudava à sua volta. A relação entre os antigos elementos da formação clássica nem sempre foi pacífica, com divergências ao longo dos anos relacionadas com a utilização do nome, direitos e legado da banda, mas, enquanto a história era discutida fora do palco, Cronos continuava simplesmente a levar os VENOM para a frente.

Não se limitou a viver dos anos 80, e esse é um dos aspectos mais importantes da sua carreira. Poderia ter passado décadas a tocar apenas «Black Metal» e «Welcome To Hell» para plateias nostálgicas, confortavelmente instalado na gestão do próprio passado. Em vez disso, continuou a escrever, a gravar, a tocar, e continuou, até ao fim, a ser VENOM no presente, não apenas na memória de quem o tinha descoberto décadas antes.

Em Maio deste ano, os VENOM lançaram «Into Oblivion», o 16.º álbum de estúdio da banda e o primeiro trabalho de originais em oito anos. Cronos tinha 63 anos e não estava reformado, nem se limitava a olhar para trás: estava a trabalhar, a reunir Cronos na voz e baixo, Rage na guitarra e Danté na bateria, prolongando uma história iniciada quase meio século antes. A música, essa, continuava a carregar aquela identidade que nunca se dissipou por completo, feita de riffs pesados, velocidade, agressividade e a sensação permanente de que os VENOM nunca tiveram grande interesse em comportar-se como uma banda normal.

Pouco depois, a banda levou «Into Oblivion» aos palcos, e a 5 de Junho os músicos actuaram no Sweden Rock Festival, numa daquelas que viriam a ser as últimas vezes que Cronos esteve perante uma grande multidão. Ninguém naquele público sabia que estava a assistir a uma das derradeiras actuações da sua vida.

Existe uma crueldade particular na morte de alguém que ainda estava a trabalhar. Cronos não desapareceu depois de uma longa despedida, não houve uma reforma anunciada nem um capítulo final preparado para o público se habituar à ideia. Havia, pelo contrário, um novo álbum, concertos, planos, havia uma banda que continuava genuinamente a existir. E agora existe o silêncio, que é precisamente aquilo que torna esta perda tão difícil de encaixar.

Cronos pertencia a uma geração que ajudou a construir o metal extremo numa altura em que ainda não havia indústria preparada para o que estavam a fazer, e viu o underground transformar-se, crescer, fragmentar-se e conquistar públicos por todo o mundo, e permaneceu lá desde o início dos VENOM até 2026, sem nunca se afastar verdadeiramente.

Cronos nunca teve uma voz convencionalmente bonita, e ainda bem, porque essa voz não precisava de ser bonita, precisava apenas de ser Cronos. Aquele timbre áspero, rasgado, quase animalesco, tornou-se uma das assinaturas mais reconhecíveis dos VENOM, sem grande preocupação com perfeição técnica ou com a procura de um som limpo. Era uma voz feita para atravessar o ruído, para gritar por cima dos amplificadores, para transformar uma letra numa ameaça, como se estivesse constantemente a poucos segundos de incendiar alguma coisa. É impossível imaginar os VENOM sem ela, tal como é impossível imaginar a história do extremismo sonoro sem a presença dessa voz muito particular.

Conrad “Cronos” Lant morreu aos 63 anos, deixando uma discografia, uma personagem, uma banda e, acima de tudo o resto, uma influência que nenhum tempo apagará. Antes dos VENOM, havia coisas que o heavy metal ainda não tinha ousado ser; depois dos VENOM, já não havia como voltar atrás. Cronos ajudou a abrir essa porta, e milhões de músicos passaram por ela.