AMON AMARTH

AMON AMARTH: Novo álbum, «THE ALLFATHER AWAKENS», para ouvir na íntegra [review + streaming]

«The Allfather Awakens» confirma que os AMON AMARTH preferem aperfeiçoar o mapa em vez de desenhar outro.

Há bandas que se reinventam a cada disco e há bandas que escolhem um território e o colonizam até à exaustão, ano após ano, até esse território se tornar indistinguível do próprio nome. Isto não é novidade, há muitos casos assim; uns bons, outros nem por isso.. Os AMON AMARTH não deixam grandes dúvidas em relação ao caminho que querem seguir e já lá vão quase três décadas a provar que essa escolha pode ser, simultaneamente, limitação e identidade. «The Allfather Awakens», o mais recente álbum do quinteto sueco, não vem contrariar essa lógica — confirma-a, introduzindo apenas algumas pequenas fissuras que servem, mais que tudo, para tornar essa regra ainda mais evidente.

A cansada comparação com os AC/DC ou os MOTÖRHEAD, tantas vezes aplicada aos suecos como exemplo de uma banda que encontrou uma fórmula e decidiu aperfeiçoá-la em vez de a abandonar, encontra aqui um ponto de tensão. E esse momento tem nome: «Upphaf», uma canção inteiramente acústica que obriga até o público mais fiel — aquele que ergue a caneca em nome de Odin nos festivais de metal de toda a Europa — a parar por um instante e prestar atenção.

Ainda assim, convém não exagerar a ruptura. «Upphaf» aproxima-se mais de uma canção folk que de uma balada convencional e, apesar da natureza pouco habitual, encaixa perfeitamente no imaginário que os AMON AMARTH vêm a explorar há décadas. E, verdade seja dita, o mais estranho nisto tudo é que não o tenham feito antes. A porta para uma mudança radical fica entreaberta, mas ninguém parece particularmente interessado em atravessá-la.

Por esta altura, parece consensual que há um momento em que os AMON AMARTH atingiram o auge criativo, e esse momento já passou — e o «Twilight Of The Thunder God», de 2008, continua a ser o ponto de referência incontornável. Desde então, andam a fazer aquilo que sabemfazer melhor: consolidar o domínio sobre a temática viking dentro do metal, elevando-a a uma escala cada vez mais grandiosa, quase operática, sem nunca perder de vista os ingredientes que lhe deram identidade.

O tema de abertura, «Gjallarhorn», é o exemplo perfeito desse método. A melodia foi construída para desembocar num refrão de punhos no ar e vozes em uníssono, daqueles que parecem já estar destinados aos palcos de festival antes mesmo da primeira nota ser tocada ao vivo. «Eight Legs Of Thunder» chegou acompanhada por um vídeo cujo valor estético é, no mínimo, discutível — os cinco elementos da banda parecem figurantes saídos de Yellowstone —, mas a canção cumpre a missão com um cruzamento eficaz de melodias heroicas e galopes instrumentais.

Depois surge «Kvasir’s Blood», porventura a melhor faixa do alinhamento. É um ataque arrasador, onde Johan Hegg se mantém fiel à sua fórmula vocal, mas encontra espaço suficiente para transformar cada frase num novo brado de guerra. O problema — se é que se pode chamar problema — é que quase tudo o que vem depois já foi ouvido antes noutro formato, às vezes, e no mesmo formato, noutras. «We Rule The Waves», «Raven God» e o tema-título descendem de praticamente qualquer período da carreira dos AMON AMARTH posterior a «With Oden On Our Side».

E qual é o problema? Ouvem-se linhas de guitarra melódicas, generosas doses de double-bass e refrões daqueles concebidos para serem multiplicados por milhares de vozes num qualquer festival. São elementos que continuam a formar a espinha dorsal do som dos AMON AMARTH. Hegg, com um dos registos mais imediatamente reconhecíveis e acessíveis do death metal melódico da sua geração, continua a ser o centro de gravidade de uma máquina que sabe exactamente como quer soar. Não há aqui quaisquer pedidos de desculpa pela repetição. Há, pelo contrário, um domínio quase absoluto de uma linguagem que estes músicos ajudaram a transformar num género dentro de um género.

E é precisamente por isso que «Upphaf» merece uma atenção especial. Construída sobre guitarras acústicas de tonalidade nórdica e melancólica, a canção mantém Johan Hegg dentro da personagem, mas obriga-o a baixar a intensidade. A inspiração vem de um poema da tradição eddaica nórdica e a composição acompanha essa dimensão narrativa. E não soa uma tentativa desesperada de provar que os AMON AMARTH conseguem fazer outra coisa. Soa, simplesmente, como uma extensão lógica de um universo que sempre teve mais elementos do que apenas guitarras distorcidas e refrões gigantes. É uma diferença pequena, mas significativa; e talvez seja justamente aí que esteja a pista para aquilo que a banda ainda poderia explorar sem deixar de ser ela própria.

O momento épico por excelência chega com «Ascending Like An Eagle», estrategicamente colocada como última faixa do disco. É um turbilhão de melodias de guitarra triunfantes e arrebatadoras que, embora constituam mais uma variação sobre temas que os suecos dominam há muito, deixam poucas dúvidas quanto à mestria de Olavi Mikkonen e Johan Söderberg na construção de harmonias a duas guitarras. Os dois parecem terr um poço inesgotável de ideias para esse formato e, mais importante, sabem bem como reciclá-las sem que percam completamente a eficácia. É uma qualidade que pode ser vista como uma virtude ou limitação, dependendo daquilo que se procura num novo álbum dos AMON AMARTH.

Porque é precisamente essa a questão que «The Allfather Awakens» coloca. Os AMON AMARTH não estão interessados em descobrir um novo território. Estão interessados em continuar a reinar naquele que já conquistaram. «Upphaf» prova que ainda existem pequenas zonas por explorar dentro dessas fronteiras, mas o resto do álbum deixa claro que não há qualquer intenção de redesenhar o mapa. E talvez não seja necessário.

Os suecos continuam a ocupar um lugar cimeiro no death metal melódico porque transformaram repetição em linguagem própria. Este disco não altera essa equação — aperfeiçoa-a, reforça-a e, ocasionalmente, permite-lhe respirar fora dos limites habituais. E sim, os AMON AMARTH continuam na mesma direcção. Sempre na mesma direcção. Como quem encontrou o rio, o mar ou o oceano certo há muitos anos e não vê qualquer razão para procurar outro.

 No próximo dia 15 de Novembro, a digressão The Allfather Awakens vai juntar os AMON AMARTH aos ORBIT CULTURE e SOILWORK para uma noite de peso nórdico na Sala Tejo da MEO Arena, em Lisboa Os bilhetes para o espectáculo custam entre 50 e 55 euros, em amonamarth.com/tour, primeartists.eu e nos locais habituais..