Confissões de uma noite em que a novidade «The Allfather Awakens», dos AMON AMARTH, quase me convenceu a comprar um machado.
São três da manhã e eu devia estar a dormir, mas em vez disso estou sentado no chão da sala, de pernas cruzadas como um monge budista que trocou a iluminação espiritual por uma garrafa de vinho a meio, a ouvir cinco suecos barbudos gritarem sobre corvos. Não é a primeira vez que isto acontece. Provavelmente não será a última. Há qualquer coisa de patológico na forma como volto, ano após ano, a este tipo de disco — como um cão que já sabe que a trela vai apertar e mesmo assim corre direito a ela, feliz da vida.
«Gjallarhorn» abre o espectáculo e, lá está, a minha vizinha do terceiro direito bate na parede. Não a censuro. Se eu vivesse ao lado de alguém que às três da manhã decide que precisa de ouvir um chifre vikingue a convocar guerreiros mortos, também batia. Mas a canção tem aquele refrão desenhado para ser gritado por uma multidão de homens com t-shirts pretas e barrigas de cerveja, e eu, sozinho, na sala, sou essa multidão. Grito baixinho para não acordar ninguém. É ridículo. É também exactamente aquilo de que estava a precisar.
Por volta da quarta faixa, já convencido de que tenho uma relação pessoal e espiritual com os deuses nórdicos — uma relação que nasceu há minutos e provavelmente não sobrevive ao pequeno-almoço —, chega «Upphaf». E aqui a noite muda de tom, como se alguém tivesse apagado as luzes vermelhas e acendido uma vela.
É uma canção acústica. E são os AMON AMARTH, a fazerem uma canção acústica. Fico siderado durante uns segundos, copo parado a meio caminho da boca, como se tivesse visto o meu pai chorar pela primeira vez. A voz do Johan Hegg continua ali, a dar para o rosnado, mas contida, quase sussurrada — ele está a contar uma história, não a liderar um assalto. Mais tarde descubro, com aquele tipo de orgulho totalmente injustificado que só o álcool proporciona, que a letra bebe do poema Völuspá. Sinto-me subitamente um académico. Um académico bêbado, de boxers, mas académico.
A canção cresce devagar, como a maré a subir, até uns acordes dedilhados entrarem em cena e eu, sem perceber muito bem porquê, ter de pousar o copo. Há coisas que não se bebem a meio.
Confesso: a dada altura da noite, cheguei a pesquisar “onde comprar machado vikingue réplica” no telemóvel. Não cheguei a finalizar a compra — a vergonha matinal já se anunciava no horizonte, como quem vê o sol nascer sabendo que vai ter de explicar tudo isto a alguém. Mas o impulso esteve lá, genuíno, ridículo, nascido algures entre «Kvasir’s Blood» e a minha terceira — ou quarta, perdi a conta — bebida.
É essa a estranha genialidade do que os AMON AMARTH fazem: não é inteligência musical no sentido convencional, também não é inovação, não é nada acerca do qual um crítico sóbrio escreveria num tom sério. É outra coisa. É a capacidade de pegar num homem comum, sentado no chão de uma sala às três da manhã, e convencê-lo, mesmo que por quarenta e cinco minutos, de que podia perfeitamente remar um drakkar até à Islândia.
Acabou o disco. Acabou a garrafa, mais ou menos ao mesmo tempo, o que não augura nada de bom para a manhã seguinte. Lá fora, Lisboa continua Lisboa — nenhum corvo, nenhum chifre, nenhuma promessa de Valhalla. Só eu, a garrafa vazia e a vaga sensação de que amanhã vou ter de explicar ao meu corpo porque é que ele acha que é um guerreiro nórdico.
Vale a pena? Completamente. Recomendo? Só se tiveres a decência de esconder o cartão de crédito antes de carregar em play.
Nota: este texto é um exercício estilístico de jornalismo gonzo, não uma crítica factual ao novo álbum dos AMON AMARTH.





