Mais de duas décadas depois de ter sido editado, um dos singles mais atípicos dos lendários TYPE O NEGATIVE ultrapassou as 500 mil unidades certificadas pela RIAA — e acaba por consolidar uma ressurgência cultural que transcende gerações.
A canção que Peter Steele não queria ter escrito acaba de atingir o estatuto de disco de ouro nos Estados Unidos. A 15 de Junho, a RIAA — Recording Industry Association of America — certificou a «I Don’t Wanna Be Me», dos TYPE O NEGATIVE, com disco de ouro. Sim, esta é uma daquelas conquistas que chega com a força particular das vitórias póstumas: a banda nova-iorquina não mais voltou a actuar depois da morte do seu fundador, e a canção em questão era, ironicamente, um grito de ódio a si próprio.
«I Don’t Wanna Be Me» é a segunda faixa de «Life Is Killing Me», o sexto álbum de estúdio dos TYPE O NEGATIVE, editado em 2003, foi lançada como single promocional nesse mesmo ano e sempre ocupou um lugar peculiar na discografia da banda: onde o resto do catálogo se movia em câmara lenta, entre as neblinas góticas e os arranjos densos como chumbo, este tema disparava a alta velocidade — agressiva, irónica, quase punk.
Descrito como sendo “um hino sarcástico e altamente energético ao ódio a si próprio, com um dedo do meio apontado tanto a si mesmos como a qualquer outro“, o tema denota uma influência clara do punk rock clássico e cativante que, em determinados momentos, ameaça aproximar-se mesmo do ataque de thrash do anterior grupo de Steele, os controversos CARNIVORE.
Ainda assim, o humor negro que atravessa a «I Don’t Wanna Be Me» não era apenas postura artística. Já após a morte de Peter Steele, o guitarrista Kenny Hickey revelou que as letras escritas pelo timoneiro dos TYPE O NEGATIVE eram autobiográficas: “Na altura, o Peter não estava muito bem de saúde. Estava farto das dependências e farto da vida, daí o título. Ele não queria ser o Pete.“
Hoje, é impossível ouvir a canção — ou ler estas palavras — sem que o contexto posterior lhes empreste um peso acrescido. Peter Steele, cujo nome de nascimento era Petrus T. Ratajczyk, nasceu a 4 de Janeiro de 1962 em Brooklyn, Nova Iorque. Media 2,01 metros de altura e possuía uma voz grave e profunda que se tornou uma das marcas mais reconhecíveis da música dos TYPE O NEGATIVE. Morreu tragicamente em Abril de 2010, de insuficiência cardíaca, quando tinha apenas 48 anos.
Formados em Nova Iorque em 1990, os TYPE O NEGATIVE construíram um dos catálogos mais singulares do metal dos 90s. Steele fundou a banda com o teclista Josh Silver, Hickey e o baterista Sal Abruscato — mais tarde substituído por Johnny Kelly. O álbum de estreia, «Slow, Deep And Hard», apresentou o seu estilo sombrio; o «The Origin Of The Feces» alimentou a controvérsia; e o «Bloody Kisses», de 1993, foi o salto definitivo para o reconhecimento alargado, com o single «Black No. 1» a tornar-se um dos hinos da subcultura gótica da época.
A banda continuou a evoluir com «October Rust», «World Coming Down», «Life Is Killing Me» e «Dead Again», antes de se dissolver definitivamente com a morte de Steele. Importa aqui referir que esta é a primeira certificação de um single da banda pela RIAA. Anteriormente, os TYPE O NEGATIVE só tinham recebido disco de platina pelo «Bloody Kisses», de 1993, e disco de ouro pelo «October Rust», de 1996.
A ressurgência que os números agora confirmam não surpreende quem acompanha a cena. Há anos que os TYPE O NEGATIVE atravessam as fronteiras das suas gerações originais, alimentados por plataformas de streaming, por uma estética visual que o tempo tratou de tornar intemporal e por uma nova vaga de ouvintes para quem o gótico e o metal voltaram a ser território fértil. As 200 mil unidades certificadas em 2026, por um tema de 2003 de uma banda que deixou de existir em 2010, dizem tudo (ou quase) sobre a natureza desta herança.




