De San Diego para o Parque da Bela Vista: no próximo Domingo, os P.O.D. chegam ao ROCK IN RIO LISBOA com material inédito e uma clareza rara sobre o que é durar três décadas sem se perderem a si próprios.
Há uma tarde de terça-feira de Setembro de 2001 que Sonny Sandoval nunca vai esquecer. O vídeo-clip de «Alive» estava nesse momento no topo do TRL da MTV e entre os cinco mais tocados nas rádios rock norte-americanas. Era o dia do lançamento do álbum que a banda esperava há mais de uma década — o disco que ia mudar a tudo. Os P.O.D. tinham chegado do nada, mais concretamente de Southtown, bairro periférico San Diego, na Califórnia, que fica encravado entre a cidade e a fronteira com o México, e agora estavam prestes a explodir.
Esse dia foi o 11 de Setembro de 2001.
O «Satellite» saiu para as lojas enquanto os ataques ainda ocorriam. O mundo parou. A imprensa parou. A indústria parou. E a banda — que tinha posto toda a sua esperança naquele disco, naquele dia — viu o momento transformado em algo que nenhum plano de marketing poderia antecipar. O que aconteceu a seguir, porém, foi improvável: «Alive», com a sua mensagem de gratidão e afirmação de vida, tornou-se exactamente o que um país em choque precisava de ouvir naquele momento. O disco acabou por vender mais de sete milhões de cópias em todo o mundo.
Vinte e cinco anos depois, os P.O.D. sobem ao palco do Rock In Rio Lisboa no próximo Domingo, dia 21 de Junho, com um novo álbum na manga — gravado com o produtor que este ano ganhou o Grammy de melhor álbum rock —, com a convicção de quem continua a ter algo importante a dizer e uma ligação a Portugal que vai muito além de mais uma data de digressão.
Para perceber os P.O.D., é preciso perceber San Ysidro. Não San Diego — cidade cosmopolita, as praias, a vida do Pacífico —, mas o bolso mais a sul onde Sonny Sandoval nasceu em 1974, filho de mãe havaiana e pai mexicano-italiano, a poucos quilómetros da fronteira com Tijuana. É o lugar que a banda baptizou carinhosamente de Southtown e que atravessa toda a sua música como uma linha de baixo constante: o bairro como identidade, como pertença, como resistência silenciosa.
Foi ali que, em 1992, o baterista Noah “Wuv” Bernardo — primo de Sandoval — e o guitarrista Marcos Curiel montaram uma banda. Eram amigos de escola, literalmente: os três tinham acabado de terminar o ensino secundário juntos. Sandoval estava na altura num grupo de rap, mas o convite do primo era difícil de recusar. Uns meses mais tarde juntou-se-lhes o baixista Mark «Traa» Daniels, vindo de Cleveland, e a formação ficou completa.
O nome do grupo veio de uma sugestão inesperada. A namorada de “Wuv”, que trabalhava num banco, disse-lhe que havia um termo bancário apelidado payable on death — um documento que transfere os bens de alguém para um herdeiro após a morte, uma espécie de testamento simplificado. Para os jovens músicos, a equivalência teológica era imediata: os pecados pagos com a morte de Cristo, e a vida como herança. Ficou PAYABLE ON DEATH. Ficou P.O.D.
Antes da Atlantic Records, antes dos Grammy, antes dos sete milhões de discos vendidos, houve anos de garagens e clubes minúsculos — igrejas, grupos de jovens, parques de estacionamento, como Sandoval recorda com uma espécie de saudade orgulhosa. A banda lançou os seus primeiros discos de forma 100% independente: «Snuff The Punk» em 1994 e «Brown» em 1996, através da Rescue Records, editora ligada à cena cristã californiana. Eram discos duros, sujos, que misturavam hardcore punk com reggae e hip-hop de uma forma que não existia em mais lado nenhum.
Em 1997, um representante da Atlantic Records viu-os num showcase em West Hollywood e percebeu de imediato que havia algo ali diferente. Em 1998, assinou-os.
A fé que não se explica — e não se esconde
Há uma distinção que os P.O.D. fazem há trinta anos e que continua a ser necessária repetir: não são uma banda cristã. São uma banda composta por cristãos. A diferença é mais que semântica porque, no circuito da chamada música cristã, há uma gramática definida — a forma de falar de Deus, a audiência esperada, o conjunto de expectativas comerciais e temáticas que funcionam como uma gaiola dourada.
Dentro da gaiola, a banda fica protegida, mas também fica limitada. Os P.O.D. sempre recusaram entrar lá dentro. Partilharam palcos com os KORN, GODSMACK, PRIMUS e KID ROCK — bandas que muitos fãs na cena cristã consideravam território interdito. Não porque fossem provocadores ou quisessem chocar, mas porque nunca viram contradição entre a fé que vivem e a música que fazem para toda a gente.
O nome da banda é, ele próprio, uma declaração de princípios codificada. Pagável na morte. Resgatado pelo sacrifício. No entanto, se não souberes a origem, é apenas um nome misterioso que pode significar qualquer coisa — ou nada. Essa ambivalência é intencional. A fé dos P.O.D. não é um cartaz à entrada, é uma estrutura interior.
Está nas letras de «Youth Of The Nation», que conta histórias de jovens perdidos sem nunca pregar; está também em «Alive», que é sobre gratidão e pode ser ouvida por alguém que nunca tenha entrado numa igreja; está na forma como Sonny Sandoval fala desta banda como uma família, como uma missão, como uma responsabilidade.
Há, de resto, algo de paradoxal na forma Sonny Sandoval descreve o processo de criação do próximo álbum da banda. Por um lado, reconhece que foi este projecto mais rápido que alguma vez assinaram — provavelmente a transição mais rápida entre discos de toda a carreira dos P.O.D.; por outro, o resultado é descrito como provavelmente a melhor música que alguma vez escreveram. A contradição é só aparente.
O disco, ainda sem título ou data de edição anunciados, nasceu nos intervalos de uma tour implacável que acompanhou «Veritas», o décimo primeiro álbum de estúdio da banda, lançado em Maio de 2024. Um registo que, apesar da recepção crítica dividida — alguns elogiaram a urgência e a agressividade renovadas, outros consideraram-no demasiado convencional —, cimentou a ideia de que os P.O.D. não estão dispostos a funcionar como uma atracção nostálgica.
A banda começou a escrever nas horas mortas das viagens, antes dos soundchecks, nos momentos que qualquer outra formação teria aproveitado para descansar. “Já sabíamos que íamos estar ocupados, mas. tínhamos de encaixar um disco em algum lado”, explica o vocalista, com a naturalidade de quem fala de um hábito e não de um feito.
A grande novidade do novo disco acabou por vir do guitarrista Marcos Curiel, que pela primeira vez deu o passo de experimentar uma guitarra de sete cordas — território que os P.O.D. sempre evitaram, não por limitação, mas por escolha consciente. “Toda a gente nos perguntava há anos por que razão não usávamos sete cordas. Queríamos crescer”, recorda Sandoval. “A ideia era ter um groove mais profundo, mais pesado, aquele tipo de sonoridade densa e arrastada.”
O que poderia ter resultado num disco de riffs monocórdicos revelou-se algo bastante mais inesperado. Curiel não é um guitarrista repetitivo — é um compositor de camadas, de texturas, de melodias que se instalam antes que se perceba como chegaram. “Ele baseia-se nos riffs, mas também é muito ambiental. Sempre foi assim. Tem um estilo que é só dele. E agora fez isso em sete cordas.”
A imagem que Sandoval usa para descrever o resultado é, ao mesmo tempo, reveladora e deliciosamente improvável: “soa como o Carlos Santana a tocar numa guitarra de sete cordas. Não é só brutalidade pela brutalidade — é peso com melodia. Densidade com beleza.” É precisamente a tensão que sempre definiu os P.O.D. ao seu melhor.
William Yip: O produtor do momento
O produtor do novo álbum chama-se William Yip — e a história de como chegou ao projecto diz muito sobre o estado actual da indústria discográfica, e também sobre como os P.O.D. navegam nela há 35 anos sem perderem o norte.
Yip é um homem de Filadélfia, filho de imigrantes, que começou a gravar bandas na cave da mãe em quando ainda era adolescente. Ao longo de duas décadas, construiu uma reputação muito sólida dentro da cena indie rock e hardcore — colaborou, entre outros, com os Circa Survive, The Menzingers, Title Fight e Code Orange —, trabalho esse feito maioritariamente nas profundezas do Studio 4, localizado em Conshohocken, na Pensilvânia, onde passava treze horas por dia.
Em 2025, produziu «Never Enough», o álbum dos TURNSTILE que ganhou o Grammy de “Melhor Álbum Rock” — a sua primeira estatueta dourada. Segundo Sandoval, a banda tinha outro produtor em mente para o novo disco. No entanto, esse produtor estava sobrecarregado com outros projectos. O álbum dos P.O.D. teria de esperar.
Entretanto, Marcos Curiel tinha estabelecido uma relação informal com Yip através das redes sociais — o tipo de ligação que começa com um comentário sincero e que vai crescendo em paralelo com o trabalho de ambos. Quando as datas do produtor original falharam, o guitarrista entrou em contacto. Nessa altura, a candidatura ao Grammy ainda não tinha sido anunciada.
O que os P.O.D. encontraram em Yip não foi apenas competência técnica — foi uma coisa mais rara, mais difícil de simular: entusiasmo genuíno. “Ele disse-nos que cresceu connosco, que nos adorava, que sabia que podia fazer o melhor disco dos P.O.D. de sempre. E nós dissemos: este tipo ama-nos.” Sonny Sandoval faz uma pausa antes de continuar. “Há muitos produtores tão saciados que já não sentem nada. É só mais uma gravação. Mais um depósito bancário.”
Com Yip, a relação foi diferente desde o primeiro dia. Em vez de chegarem ao estúdio com as músicas embaladas e prontas para entrega, os P.O.D. entraram no processo como um quinto membro — uma formulação que Sandoval usa com intenção, sem clichés. “Normalmente chegamos, despejamos o material e dizemos: ‘aqui está, vamos a isso.’ Desta vez foi diferente. Falámos sobre tudo. Pensámos as coisas.”
É impossível falar dos P.O.D. sem falar do momento em que surgiram e de tudo o que aconteceu depois. O final dos anos 90 e o início do novo século produziram uma constelação de bandas que a imprensa agrupou sob o rótulo de nu-metal, metal alternativo ou rock de fusão — conforme o dia e a publicação. Korn, Deftones, System of a Down, Limp Bizkit. E os P.O.D., que chegaram com uma identidade tão própria que resistia a qualquer etiqueta: a mistura de hardcore, reggae, hip-hop e metal do bairro latino de San Diego, filtrada por uma espiritualidade cristã que nunca se tornou paroquial.
Houve quem, na época, dissesse que aquelas bandas não durariam mais de dez anos. A profecia falhou de forma espectacular. “É incrível ver tantas dessas bandas ainda a encher arenas e estádios e a encabeçar festivais”, reconhece Sonny Sandoval, com algo que não é exactamente orgulho mas que também não é imodéstia — é simplesmente observação.
O que mudou, para ele, não foram as bandas. Foi o mundo à volta. E há nessa percepção uma melancolia específica, sem drama, mas presente. “Sinto falta daquela era. Do final dos anos 90, início dos anos 2000. Porque cada banda era a sua própria coisa.” A distinção que faz é simples e demolidora: nessa altura, reconhecia-se uma banda pelos primeiros compassos. Havia identidade imediata.
Hoje, a pressão para ser relevante nas redes nivelou parte desse ecossistema. “As pessoas preocupam-se mais com o seu estatuto nas redes sociais do que com a sua arte ou o seu ofício”, diz Sandoval. E acrescenta algo que revela uma observação atenta do presente: o problema não é apenas de atitude, é de percurso. Muitas das bandas que se estabeleceram na última década não passaram pelos clubes degradados, nem pelas noites em carrinhas avariadas, muito menos pelos anos de invisibilidade formativa.
“Há bandas cuja primeira actuação foi num festival ou num estádio. Não pagaram as suas dívidas. Hoje em dia é tudo rápido demais. E quando é rápido demais, perdes-te.” Esta é uma observação que nunca se torna condescendente porque vem de quem genuinamente passou pelo processo inverso: alguém que esteve nos parques de estacionamento e nos grupos de jovens antes de estar nos festivais. A autenticidade aqui não é postura. É biografia.
Mas Sonny Sandoval também não está preso no passado. Quando fala das bandas que estão a fazer algo interessante no presente, menciona os Turnstile — exactamente a banda do produtor do seu novo disco — e os Knocked Loose, que subiram de pequenos clubes e quintais de para os cartazes dos festivais de metal sem nunca perderem a ferocidade original. “Adoro isso. Porque fizeram concertos a sério. Tocaram em pequenos clubes e nos quintais dos amigos. Foi exactamente o que nós fizemos também.”
O legado como norte — e a recusa do TikTok
Há uma sequência na conversa com Sandoval que resume, de forma quase acidental, a filosofia inteira dos P.O.D. Ele está a falar sobre o que os move, sobre o que os faz continuar a gravar depois de mais de uma dúzia de álbuns. “Daqui a vinte anos, algum miúdo vai encontrar um disco nosso no fundo de uma loja de usados e vai dizer: ‘isto é incrível’.” É essa a imagem que o sustenta. Não as estatísticas das plataformas de streaming. Não os seguidores. Não as métricas de engagement.
A frase seguinte é ainda mais directa: “Não quero ser um influenciador de rock’n’roll. Não quero ser o tipo das redes sociais. Estou numa banda com os meus irmãos. E é isso que mais importa.”
A palavra “irmãos” não é metáfora. Os P.O.D. são, literalmente, uma família do mesmo bairro, do mesmo código postal, da mesma adolescência partilhada em clubes improváveis e garagens barulhentas. Wuv é primo de Sonny. Marcos é o melhor amigo de ambos. Essa origem não é um mero detalhe biográfico — é a fundação de tudo isto. É o que explica por que razão, quando as majors começaram a sussurrar-lhes ao ouvido durante o período de maior exposição comercial, conseguiram resistir. Era difícil abandonar quem eram porque sabiam muito bem quem eram.
“Não nos sentimos superiores a nada. Sentimo-nos sortudos por continuar a fazer isto”, diz ele. E a verdade é que não há postura aqui. Há algo muito, mas muito, mais invulgar na indústria do entretenimento: uma valente dose de gratidão descomplicada.
Doze — talvez treze, Sonny Sandoval perde a conta com a naturalidade de quem prefere olhar para a frente — álbuns de estúdio. Mais de doze milhões de discos vendidos. Três nomeações para o Grammy. Tours por todos os continentes. E a mesma formação a caminhar pelo bairro de sempre em San Diego, reconhecida pelos vizinhos, sem guarda-costas, sem aura pré-fabricada. “Continuamos a ser as mesmas pessoas com quem os vizinhos se cruzam na rua.”
Portugal como segundo lar
E depois há Lisboa. Há Portugal. Que o cantor dos P.O.D. menciona não como destino de concerto, mas como lugar pessoal — quase íntimo. “A minha mulher é portuguesa.” A frase sai com a simplicidade das coisas importantes. Depois da passagem pelos Vagos Metal Fest no ano passado, a família Sandoval ficou duas semanas a percorrer o país. “É como a Califórnia. A comida, as pessoas, a música. Apaixonámo-nos.”
E vai ainda mais longe. “Se algum dia me reformar, gostava de o fazer em Portugal.” Não é retórica para agradar ao entrevistador. É dito com a mesma seriedade com que fala sobre os discos, sobre a família, sobre os trinta e cinco anos de recusa em capitular. Há uma coerência nesta declaração — o homem de Southtown que encontrou num país do sul da Europa qualquer coisa que reconhece.
De resto, esta ligação a Portugal diz algo sobre como os P.O.D. se relacionam com o mundo fora de San Diego. Não como turistas. Não como exportadores culturais. Mas como pessoas que chegam a um sítio e ficam — mesmo que temporariamente, mesmo que só por duas semanas — porque encontraram uma coisa real.
Nem um ano depois, Sonny e os P.O.D. sobem ao enorme palco do Rock In Rio Lisboa já no próximo Domingo, dia 21, com um catálogo que cobre mais de três décadas e com música nova que ainda não tem data de lançamento confirmada mas que o vocalista descreve como uma surpresa — mesmo para a banda.
O alinhamento provável vai equilibrar o passado e o presente. «Alive» vai estar lá — não poderia não estar, mesmo vinte e cinco anos depois, mesmo depois de tudo. «Youth Of The Nation» também. E, a avaliar pela conversa, provavelmente algumas das músicas novas, que chegarão ao público de festival antes de chegarem a qualquer plataforma de streaming, na ordem de prioridades que os P.O.D. sempre mantiveram: o ao vivo primeiro, o registo depois.
“Vamos colocar os nossos corações naquele palco”, garante ele. É uma frase simples. Mas é também uma espécie de manifesto comprimido. Depois de 35 anos, doze álbuns, sete milhões de discos vendidos de «Satellite», três nomeações para os Grammy, altos e baixos, saídas e regressos de membros, e uma tarde de terça-feira de Setembro que ninguém vai esquecer, os P.O.D. continuam a fazer exactamente a mesma coisa: aparecer, tocar, e confiar que é suficiente.
Domingo, no Parque da Bela Vista, esse algo vai acontecer ao vivo. Para os que lá estiverem, será mais do que um concerto. Será um argumento, em tempo real, contra a ideia de que as bandas, de nu-metal ou de outro género qualquer, têm prazo de validade.




