TONS OF ROCK

TONS OF ROCK | Dia 3: Quando os planos mudam e um festival acaba por ganhar com isso [reportagem]

TOM MORELLO e YUNGBLUD cancelaram. THE HELLACOPTERS e JOAN JETT entraram em cena. O terceiro dia do TONS OF ROCK provou que, por vezes, os imprevistos são a melhor programação possível.

Há festivais que desmoronam quando o cartaz muda de última hora. E, depois, também há festivais que absorvem o choque dos imprevistos, reorganizam-se e continuam em frente como se nada fosse com eles. O Tons of Rock pertence claramente à segunda categoria — e o terceiro dia foi a demonstração mais eloquente disso. Meia hora depois da abertura de portas do recinto, Eivør já tinha reunido bastante público frente ao palco.

A cantora das Ilhas Faroé trouxe ao festival norueguês um registo que contrasta, de forma quase violenta, com o que rodearia o resto do dia: voz, atmosfera, silêncios que pesam. «Jarðartrá» e «Salt» abriram uma actuação que incluiu ainda a estreia ao vivo do novo single «Healer». E quem ficou, ficou bem.

No Moonlight Stage, os norte-americanos THE FUNERAL PORTRAIT não deram sequer tempo ao público para se distrair. Lee Jennings é daqueles cantores cuja presença em palco resolve metade do trabalho antes de uma nota ser tocada. A versão de «Mad World», dos TEARS FOR FEARS, serviu de abertura, seguida de «Generation Psycho». «Dark Thoughts» e «Suffocate City» fecharam uma atuação que deixou uma sensação muito clara: há que apanhar esta banda num concerto em nome próprio, e o mais brevemente possível.

Neste tipo de festival, os choques de horários são inevitáveis — e por vezes cruéis. Neste dia, os QUEENSRŸCHE enfrentavam os KUBLAI KHAN TX a tocar em simultâneo. A nossa escolha recaiu sobre os veteranos norte-americanos, e, verdade seja dita, não houve arrependimentos.

«Queen Of The Reich» logo a abrir foi suficiente para perceber o que estava em jogo: Todd La Torre faz mais do que justiça ao catálogo da banda, com uma voz que não pede desculpa a ninguém. «Operation: Mindcrime» e «The Warning» continuaram a construir uma actuação em crescendo constante.

E, mesmo que da formação original restem apenas o guitarrista Michael Wilton e o baixista Eddie Jackson, Casey Grillo e Mike Stone preenchem os lugares dos antecessores sem deixar lacunas. «Revolution Calling» foi um momento excelente. «Empire» foi obrigatória. E «Eyes Of A Stranger» fechou o que fica na memória como uma das melhores actuações da edição de 2026 do Tons Of Rock.

Com Tom Morello a cancelar a sua participação, entraram em cena os suecos THE HELLACOPTERS — e o festival só teve a ganhar. A banda liderada por Nicke Andersson, ex-baterista dos ENTOMBED, subiu ao palco principal e, desde a primeira nota, revelou a energia de quem não veio fazer favores a ninguém. «Token Apologies» deu o arranque com garra e «(Gotta Get Some Action) Now!!!», do álbum de estreia dos suecos, colocou um ponto final apoteótico na actuação. Pelo meio, tudo o que se ouviu foi rock’n’roll sueco destilado na sua forma mais honesta: sem artifícios e produção excessiva, só uma banda que sabe exactamente o que é e o que quer fazer.

No lugar de Yungblud, o jovem norueguês Storm mostrou um som que transita entre o rock e o metalcore com uma atitude punk que recorda, vagamente, aquilo que Yungblud representa noutras latitudes — mas com sotaque nórdico e sem o aparato mediático. Revelou-se uma excelente prestação, que justificou a substituição. Os AVATAR, por sua vez, já não surpreendem ninguém — e é precisamente aí que reside a sua força. A quantidade de público reunida no Vampire Stage e o número de fãs com a cara pintada à imagem de Johannes Eckerström disseram tudo sobre o lugar que a banda ocupa hoje na cena.

A maior enchente do Moonlight Stage foi para os DOGSTAR. A verdade, dita sem rodeios, é que dificilmente alguém no público saberia identificar um tema da banda ou os nomes dos restantes músicos — mas todos os olhos estavam postos em Keanu Reeves. A imagem que ficou foi de uma actuação sólida, competente, sem nada de Matrix nem de John Wick. A curiosidade foi satisfeita. O rock continuou a fazer-se ouvir.

De regresso ao palco principal, os suecos THE HIVES fizeram exactamente aquilo que fazem em todos os seus concertos desde há duas décadas: convencer toda a gente de que estão a assistir ao melhor espectáculo do ano. De «Enough Is Enough» a «Paint A Picture», passando por aquela pausa em palco que já é marca registada da banda, o concerto fechou com «The Hives Forever Forever The Hives». Dificilmente se sai de um concerto dos THE HIVES desapontado. Esta actuação no Tons Of Rock não foi uma excepção a essa regra.

Em contraste, os polacos BEHEMOTH trouxeram ao Tons Of Rock a sua liturgia habitual: dois cristos invertidos nos extremos do palco, pirotecnia, e Nergal como sumo sacerdote de uma missa negra que o público absorveu com entusiasmo genuíno. «Ora Pro Nobis Lucifer» abriu as hostilidades, os corpos começaram a voar sobre a barreira logo nos primeiros acordes, e as explosões de pirotecnia acompanharam «Thy Becoming Eternal».

Sem grandes pausas, «The Shit Ov God», «Blow Your Trumpets Gabriel» e «Bartzabel» seguiram-se num alinhamento que incluiu também uma versão de «The Return Of Darkness And Evil», original dos BATHORY — escolha que, no contexto deste festival e após o concerto dos BLOOD FIRE DEATH no primeiro dia, soou a homenagem consciente. «Chant For Eschaton 2000» e «O Father O Satan O Sun!» fecharam com a solenidade que o momento exigia.

No palco principal, a roqueira norte-americana Joan Jett preencheu o espaço antes do “prato principal” da noite — a transmissão do jogo entre Noruega e França no ecrã gigante do recinto. «I Love Rock ‘n’ Roll», «Bad Reputation» e «Cherry Bomb», esta última dos tempos das RUNAWAYS, compuseram um alinhamento que funcionou exactamente como o que era: uma celebração de clássicos que toda a gente conhece, apresentada por quem lhes deu forma. Sem surpresas, mas com a dignidade de uma carreira que não precisa de se justificar.

Mais uma vez em contraste, a blasfémia continuou em altas, agora com os MAYHEM — e, se os BEHEMOTH trouxeram um ritual, os noruegueses trouxeram a história. Jogar em casa tem o seu peso, claro, e a tenda estava cheia para o confirmar. «Realm Of Endless Misery» e «Buried By Time And Dust» abriram a homilia; as clássicas «Freezing Moon» e «From The Dark Past» não faltaram, e a «Pure Fucking Armageddon» fechou o concerto com a brutalidade franciscana que o título promete.

O jogo de futebol ainda estava a ser transmitido no ecrã quando os RIVAL SONS subiram finalmente ao palco. Jay Buchanan entrou descalço, guitarra acústica na mão — como é hábito —, e «Horses Breath» deu início a um alinhamento que percorreu «Open My Eyes», «Pressure And Time» e, para fechar o dia, uma versão de «Electric Funeral», dos BLACK SABBATH, que soou a ponto final bem colocado.

Terceiro dia do Tons of Rock: duas alterações de última hora, um jogo de futebol transmitido em ecrã gigante, blasfémia polaca, blasfémia norueguesa, e rock’n’roll sueco em dose dupla. Podia ter corrido muito pior. Afinal, correu na perfeição.