Com formação quase totalmente renovada e uma narrativa inspirada no cinema de Andrei Tarkovsky, os THE OCEAN lançaram o segundo tema de avanço para um disco que promete cruzar a exploração cósmica com uma reflexão amarga sobre o poder, a liderança e o custo ambiental do engenho humano.
Há bandas que mudam de pele com naturalidade, e outras que se reinventam por necessidade. Os THE OCEAN parecem ter o pé nestas duas categorias em simultâneo. O colectivo alemão, uma referência incontornável do post-metal europeu desde o início dos anos 2000, lançou «Belligerence», o segundo single retirado do seu novo álbum, intitulado «Solaris», com edição marcada para o dia 25 de Setembro através da Pelagic Records, a editora fundada pelo próprio grupo.
O título do disco não é coincidência. A obra bebe directamente da adaptação cinematográfica que o cineasta Andrei Tarkovsky fez, em 1972, do romance homónimo de Stanislaw Lem, e essa referência funcionou como ponto de partida para uma narrativa muito mais ambiciosa do que uma simples homenagem. Sobre o novo single, a banda foi bastante clara quanto às intenções que o motivaram. Segundo os THE OCEAN, “«Belligerence» é uma canção sobre a cultura da discussão e sobre a força destrutiva da raiva contida e da beligerância como traços de carácter, que é muitas vezes transfigurada num atributo da razão e de um espírito crítico”.
A declaração que resume bem o tom do álbum: um disco que não se limita a especular sobre o cosmos, mas que usa esse cenário para dissecar comportamentos humanos bem terrenos. Já podes conferir o tema em baixo.
De acordo com o comunicado de imprensa que acompanha o lançamento do novo single, «Solaris» conta a história de uma fuga cósmica. A narrativa segue uma nave que funciona como um barco de resgate celestial, afastando-se de uma Terra que se afunda metaforicamente. Essa embarcação é descrita como um navio histórico, e as letras do álbum estabelecem paralelos directos com exploradores reais do passado, entre eles Vasco da Gama, Fernão de Magalhães e Sir Francis Drake, assim como exploradores polares como Amundsen e Rasmussen.
O comunicado sublinha que estas viagens históricas partilham elementos comuns: tempestades, doença, naufrágio, jogos de poder, rivalidades, egos, beligerância, motins e, por fim, a busca pela verdade e pela justiça. Apesar de muitos destes exploradores terem partido movidos por um espírito nobre de descoberta, o seu legado ficou frequentemente manchado por episódios de imperialismo cultural, genocídio e liderança ditatorial.
É aqui que «Solaris» ganha o seu contorno mais afiado. Longe de glorificar exploradores brancos e masculinos ou de romantizar estruturas patriarcais, o novo álbum dos THE OCEAN estabelece uma linha entre esses homens movidos por uma determinação extrema e os líderes políticos da actualidade. O disco interroga a face sombria do que significa ser um líder “grandioso”, questiona a própria ideia de um chamamento divino e pondera o custo de seguir esse impulso instintivo.
A reflexão não fica pelo terreno político, no entanto. Segundo a banda, os mesmos padrões psicológicos são transpostos para o universo criativo, questionando se a exploração pode ser redefinida como um processo de observação silenciosa, documentação e aprendizagem, em vez de uma imposição de ideias e valores alheios sobre outros. No fundo, «Solaris» funciona como uma crítica às motivações subjacentes e às disposições psicológicas de uma mentalidade explorativa e da sede de poder. É uma interrogação existencial sobre o propósito do avanço tecnológico, olhando especificamente para a destruição do nosso habitat.
O resultado é uma visão distópica de um futuro em que a Terra se torna inabitável não apesar da inteligência humana, mas sim como sua consequência directa. No entanto, para além do peso conceptual, o que destaca «Solaris» é a reformulação drástica deste colectivo. Em 2026, THE OCEAN apresentam Enrico Tiberi (ex-EyeHate, entre outros) e Lane Shi (Elizabeth Colour Wheel, Otay:onii) nas vozes, bem como os guitarristas Emmanuel Jessua (dos Hypno5e) e Marco Gennaro, todos eles novos elementos do grupo.
Esta renovação de formação surge num momento em que os THE OCEAN se preparam para regressar aos palcos europeus. Está já confirmada uma tour pelo continente no Outono, com os PSYCHONAUT e HYPNO5E a integrarem alguns troços do trajecto. A abertura dos espetáculos ficará dividida entre os THE DEVIL’S TRADE e os POTHAMUS.
Portanto, com «Belligerence», que chegou já na sequência de «Light Pollution», os THE OCEAN confirmam que «Solaris» promete ser um dos discos mais ambiciosos, tanto musical como conceptualmente, da carreira do colectivo — e um dos lançamentos mais aguardados da cena post-metal para o segundo semestre deste ano. Os formatos físicos do novo LP já estão disponíveis em pré-encomenda na loja virtual da Pelagic Records.



