SHAUN GLASS

[R.I.P.] Faleceu SHAUN GLASS, co-fundador dos SOiL e BROKEN HOPE

SHAUN GLASS, um dos guitarristas mais influentes do metal de Chicago, deixa um vazio que vai além dos palcos e dos discos. O músico, que ajudou a construir a sonoridade dos SOiL e marcou gerações com os BROKEN HOPE e REPENTANCE, faleceu a 1 de Julho. Tinha 57 anos.

A notícia chegou sem aviso, como chega sempre o que mais dói. No dia 1 de Julho, a comunidade do metal pesado norte-americano — e bem para além das suas fronteiras — acordou com a confirmação da morte de Shaun Glass, guitarrista, compositor e figura central da cena de Chicago durante mais de quatro décadas, na sequência de complicações provocadas por um AVC.

A informação foi confirmada publicamente por Robb Flynn, vocalista dos MACHINE HEAD, que revelou que o músico, que tinha apenas 57 anos, sofrera o episódio vascular no primeiro dia da digressão norte-americana da sua banda, em Pittsburgh, há cerca de quatro semanas.

A história de Shaun Glass começa onde começam as lendas do underground: nos palcos encardidos e nas salas de ensaios de Chicago, no início da década de 1980. Depois de um começo com os TERMINAL DEATH, banda de death metal fundadora da cena local, Glass juntou-se aos SINDROME, contribuindo para um dos capítulos mais densos do thrash e proto-death metal americano da época. Seguiu-se uma passagem pelos BROKEN HOPE, onde tocou baixo e participou nas gravações dos álbuns «Repulsive Conception» e «Loathing» — dois marcos que os fãs do género ainda hoje citam com reverência.

Foi, contudo, com os SOiL que Shaun Glass alcançou maior projecção. Como co-fundador do colectivo, ajudou a moldar a sonoridade que viria a resultar no álbum «Scars» e no êxito «Halo», o single que projectou os SOiL para estações de rádio e audiências muito além do circuito alternativo. A sua saída da formação, em 2007, não terá sido isenta de tensões — algo que os próprios ex-colegas reconheceram no comunicado de condolências publicado nas redes sociais.

Apesar de termos estado afastados e da nossa relação não ter terminado bem desde a sua saída em 2007, ele foi uma parte integrante dos SOiL nos primeiros anos“, escreveram, acrescentando que guardariam os bons tempos partilhados “com memórias carinhosas e sorrisos“.

A carreira de Glass não parou aí. Fundou os DIRGE WITHIN, regressou aos BROKEN HOPE para o álbum «Omen Of Disease» e, nos últimos anos, dedicou toda a sua energia criativa aos REPENTANCE, projecto que liderava desde 2018 e que representava, segundo os que o conheciam, a expressão mais madura e determinada do seu percurso.

Poucas horas após a confirmação da morte, as redes sociais transformaram-se numa espécie de velório colectivo. Robb Rivera, baterista dos NONPOINT e amigo próximo de Glass há mais de uma década, foi um dos primeiros a partilhar uma homenagem que, pela sua extensão e intimidade, vai muito além do protocolo habitual de condolências do mundo do rock.

Perdemos hoje um dos maiores apaixonados pelo metal que alguma vez conheci… o meu irmão de metal, Shaun Glass“, escreveu Rivera. “Nos últimos 12 a 15 anos, falámos quase todos os dias. A maioria das manhãs começava com uma mensagem por volta das 06:30, e antes de eu sequer ter tomado um café já estávamos mergulhados em conversas sobre metal, thrash, hardcore, rock, a indústria da música, as nossas famílias, os nossos filhos.

Para Rivera, Shaun Glass era uma espécie de boletim informativo humano, sempre a par de tudo o que se passava no universo do metal pesado. “Foi ele que me enviou uma mensagem a dizer que os Metallica iam tocar no Metro, e graças a ele consegui bilhetes. Era assim que ele era. Vivia esta música todos os dias.

O retracto que Robb Flynn traçou, no mesmo dia, é igualmente revelador. O vocalista e guitarrista dos MACHINE HEAD conta ter conhecido Shaun Glass quando tinha 19 anos, à porta de uma sala em São Francisco, à espera para entrar num concerto. “Lembro-me que tinha voado até São Francisco apenas para estar presente“, recordou Flynn. “A partir desse dia, tornou-se uma presença constante na minha vida.

Uma amizade de quase 40 anos, com a naturalidade e rugosidade que o tempo deposita nas relações verdadeiras. “Como qualquer amizade que dura perto de 40 anos, houve um momento de tensão no meio“, admitiu Flynn. “Foi o Shaun quem estendeu a mão para o resolver. Foi ele o maior. Fico grato por o ter feito, porque na última década tornámo-nos mais próximos do que alguma vez tínhamos sido.

Há ainda uma frase na homenagem de Robb Flynn que ressoa com uma clareza dolorosa: “Quando somos novos, pensamos que temos todo o tempo do mundo para reparar relações. Mas, à medida que envelhecemos, percebemos que o tempo nos pode tirar essa oportunidade num piscar de olhos.” É uma reflexão que transcende o metal e fala de algo mais universal — sobre o que deixamos para amanhã, sobre as chamadas que adiamos, sobre as palavras que ficam por dizer.

Shaun Glass sofreu o AVC no primeiro dia de digressão dos MACHINE HEAD nos Estados Unidos, em Pittsburgh. Quatro semanas depois, Flynn estava a escrever uma homenagem ao amigo. “O facto de, quatro semanas depois, estar aqui a escrever esta homenagem ao Shaun deixa-me fisicamente destroçado de dor“, confessou.

Os REPENTANCE, banda que Glass fundou e que liderava, ainda não se pronunciaram sobre o futuro do projecto. Várias personalidades da cena continuam a partilhar mensagens de pesar, numa onda de luto que confirma, caso houvesse alguma dúvida, a dimensão do legado que este músico deixa. Shaun Glass sobrevive na música que gravou, nas bandas que ajudou a construir e nas muitas memórias das pessoas que tiveram o privilégio de o conhecer. Deixa a mulher, Michelle, e o filho Maddux, de quem falava com orgulho sempre que tinha oportunidade.