No próximo Sábado, dia 4 de Julho, os irmãos Cavalera trazem ao EVILLIVƎ WARM-UP a recriação integral de «Chaos A.D.», o álbum que, em 1993, redefiniu o metal pesado.
O LP existe há mais de três décadas. A capa — uma saca mortuária atravessada por circuitos electrónicos e notas de dólar invertidas, encomendada pelo próprio Max Cavalera a Michael Whelan — ainda irradia uma inquietação que não envelhece. E o «Chaos A.D.», quinto álbum dos SEPULTURA, regressa agora à conversa em forma de concerto, interpretado na íntegra pelos seus criadores originais: Max Cavalera e o seu irmão Igor “Iggor” Cavalera. Por cá, o embate acontece no Evil Live Warm Up, que acontece já no dia 4 de Julho.
Lançado originalmente em 1993, o «Chaos A.D.» apanhou de surpresa toda uma geração habituada ao frenesim thrash/death dos SEPULTURA. Depois da trilogia quase perfeita compota por «Schizophrenia», de 1987, «Beneath The Remains», de 1989, e «Arise», de 1991, a banda brasileira optou por um caminho radicalmente diferente: abrandar os tempos, despojar os arranjos, e explorar territórios onde o groove se cruzava com o hardcore punk, ambientes industriais e uma carga política de rara densidade.
“Era difícil superar essa trilogia“, admite Max Cavalera. “Por isso fomos por outro caminho — abrimos mão das regras.” O resultado foi um disco que, trinta anos depois, soa simultaneamente como um documento histórico e um manifesto sem prazo de validade. A «Refuse/Resist» continua a incendiar salas. A «Biotech Is Godzilla», com letra de Jello Biafra, mantém o sarcasmo cortante. E as semi-instrumentais «Kaiowas» e «We Who Are Not As Others» revelam um lado contemplativo e cinematográfico que os músicos nunca voltaria a explorar com esta profundidade.
Até a inclusão de «The Hunt», versão de um original dos britânicos NEW MODEL ARMY, fazia sentido naquele contexto: “Gostámos deles e achámos que ficava bem no disco. Foi essa a lógica. Sem regras.” A verdade é que o «Chaos A.D.» seria, a par do «Roots», de 1996, o trabalho mais comercialmente bem-sucedido da banda então liderada pelos irmãos Cavalera, certificado ouro nos Estados Unidos com mais de quinhentas mil cópias vendidas. Mais que números, representou a abertura definitiva dos SEPULTURA ao mercado mundial — e o ponto em que o metal pesado brasileiro passou a ser levado realmente mais a sério no mainstream global.
A versão ao vivo que chegará ao Evil Live Warm Up é tudo menos uma reunião saudosista. Max e Igor Cavalera flanqueiam dois músicos de gerações distintas: Travis Stone na guitarra solo e Igor Amadeus Cavalera — um dos filhos de Max — no baixo. A dinâmica intergeracional é, segundo o próprio, um dos grandes motores da energia em palco: “Temos eu e o Igor, que somos os mais velhos, e depois o Travis e o meu filho, os mais jovens. Eles trazem a juventude, trazem a energia. Quando estou em palco e olho para o lado, estão completamente entregues, porque adoram este disco.“
Há, também, uma consciência clara do que está em jogo: muitos dos fãs que hoje em dia lotam recintos para ver este espectáculo nunca assistiram à formação original a interpretar o «Chaos A.D.» ao vivo. “Há toda uma nova geração que nunca teve a oportunidade de ver isto“, reconheceu o Cavalera mais velho numa entrevista conduzida durante a edição deste ano do Mystic Festival, na Polónia. “Portanto, esta digressão faz todo o sentido.“
O EVILLIVƎ WARM-UP é um dos eventos que a cena portuguesa de música pesada mais aguarda neste início de Verão. E a escolha de trazer os CAVALERA para interpretar o «Chaos A.D.» na íntegra não é acidental: o álbum tem uma relação particular com o sul da Europa, um mercado onde os SEPULTURA construiram parte substancial da sua lenda ao vivo nos anos 90. Em Portugal, como em Espanha e Itália, este foi um daqueles discos recebidos com uma intensidade que excedeu a média europeia — e esse vínculo emocional permanece intacto.
Para quem nunca viu estes temas serem tocados pelos seus autores, o espectáculo do próximo Sábado é uma ocasião rara. Para quem já os conhece de cor, é uma oportunidade de revisitar as canções com olhos diferentes — e de perceber, em tempo real, porque é que um LP nascido do caos continua a fazer tanto sentido nos dias que correm. O EVILLIVƎ WARM-UP tem bilhetes a partir dos 45 euros.






