Um ancião da nação Blackfeet e os noruegueses ENSLAVED assinam juntos um tema fruto de anos de encontros, cerimónias partilhadas e uma confiança que a música acabou por tornar audível.
Parecem ser cada vez mais raras, mas ainda há temas que não nascem de uma sessão de estúdio. Nascem de viagens, de conversas junto a uma fogueira, de cerimónias a que se assiste com humildade antes de se abrir qualquer caderno de notas. «Spirit Helper», o novo single dos ENSLAVED, é precisamente esse tipo de canção — rara, deliberada, carregada de um peso simbólico que resiste à ligeireza do consumo digital.
A faixa, acabada de revelar, conta com a participação especial de Kevin Kicking Woman, ancião da nação Blackfeet, no Montana, e marca um ponto de chegada singular na longa trajectória de um dos colectivos mais consistentes do metal europeu. E não, não se trata de apropriação cultural disfarçada de abertura de espírito. Trata-se, segundo todos os envolvidos, de um processo construído com transparência, respeito e tempo — muito tempo.
O ponto de partida remonta a 2019, no Colorado, onde os noruegueses ENSLAVED estabeleceram os primeiros contactos com a órbita do festival Fire In The Mountains, evento anual realizado em território Blackfeet, no Montana. Foi através de uma rede de relações partilhadas — que inclui os compatriotas WARDRUNA e a plataforma artística By Norse Music, fundada em conjunto por membros de ambas as bandas — que o guitarrista e compositor Ivar Bjørnson conheceu Shane McCarthy, um dos mentores e organizadores do festival, e começou a perceber a dimensão do projecto cultural que este encarna.
“O que começou apenas como conversas sobre concertos e colaboração artística foi-se transformando em algo muito mais profundo: uma troca de perspectivas, histórias e tradições espirituais moldada por muitas pessoas ao longo do caminho”, recorda o timoneiro dos ENSLAVED. Esses laços foram-se estreitando ao longo dos anos seguintes, até que o regresso do Fire In The Mountains em 2025 — desta vez em East Glacier, no coração do território Blackfeet — criou as condições definitivas para o que viria a acontecer.
Foi aí que Ivar Bjørnson conheceu Nick Rink, membro da nação Blackfeet, que por sua vez o apresentou a Kevin Kicking Woman. O que se seguiu não foi uma sessão de gravação, mas uma série de encontros, cerimónias e diálogos que foram sedimentando uma confiança mútua. “Ao longo do processo, houve uma compreensão partilhada de que a colaboração precisava de ser abordada com honestidade, transparência e respeito”, sublinha o músico norueguês.
O momento decisivo chegou depois durante um encontro em Nova Iorque, reunindo representantes da comunidade Blackfeet, do Fire In The Mountains, da Firekeeper Alliance e dos ENSLAVED. Foi então que Kevin Kicking Woman partilhou com Bjørnson uma canção de oração matinal tradicional — um gesto de confiança que o compositor norueguês reconheceu de imediato como algo que transcendia a simples colaboração musical.
“Reconheci imediatamente a responsabilidade contida naquele gesto. Em vez de simplesmente construir um tema à volta da contribuição do Kevin, tornou-se importante deixar que a própria música se adaptasse ao pulso, ao ritmo e ao espírito já presentes na sua canção”, descreve Bjørnson. O resultado é um tema em que o ADN dos ENSLAVED — o black metal progressivo, com as suas texturas rúnicas e a sua densidade emocional — coexiste com a cadência e a energia espiritual de uma tradição oral milenar.
Do ponto de vista de Kicking Woman, a canção é também um acto de responsabilidade comunitária. “As canções são a forma Blackfoot de conhecer. Expressam relação e responsabilidade, pertença e prestação de contas. O propósito desta canção é ter a expressão performativa a dar sentido à vida. Ligar ao universo via o cosmos, os seres da terra, os seres da água e os seres espirituais”, afirma o ancião, num testemunho que vem situar «Spirit Helper» muito além da esfera do entretenimento.
Os ENSLAVED regressam ao Fire In The Mountains ainda este mês para uma actuação que, à luz de tudo o que «Spirit Helper» representa, assume contornos de algo mais próximo de uma cerimónia do que de um simples concerto.





