SEPULTURA

SEPULTURA juntam a EVAN SEINFELD, dos BIOHAZARD, em «Slave New World» [vídeo]

O baixista/vocalista dos BIOHAZARD juntou-se aos SEPULTURA para revisitar uma das canções mais politicamente carregadas dos 90s — e a despedida da banda brasileira ganhou ainda um pouco mais de peso.

A sala Reverb, em Reading, Pensilvânia, não é o maior recinto do mundo. Mas na noite de 13 de Maio, foi palco de um daqueles momentos que os presentes não esquecerão tão cedo. No meio do alinhamento da que poderá ser a última digressão norte-americana dos SEPULTURA, Evan Seinfeld — o vocalista e baixista dos BIOHAZARD — subiu ao palco para interpretar ao lado da banda brasileira «Slave New World», um dos temas mais contundentes e politicamente carregados do metal alternativo dos anos 90.

O momento não foi improvisado. Seinfeld é co-autor da letra de «Slave New World», originalmente lançada no álbum «Chaos A.D.», em 1994 — disco que marcou uma viragem decisiva no percurso dos SEPULTURA, aproximando-os de sonoridades mais próximas do groove que, à época, representava uma ruptura clara com a ortodoxia thrash. A colaboração entre as duas bandas tem raízes profundas, e vê-la revitalizada em palco, neste contexto de despedida, confere à cena uma dimensão quase simbólica.

Não estranhamente, os BIOHAZARD integram o alinhamento de suporte desta digressão, denominada Celebrating Life Through Death, que arrancou a 29 de Abril em Montclair, Nova Jérsia. O cartaz conta ainda com os thrashers californianos EXODUS e os nova-iorquinos TRIBAL GAZE — uma selecção que não deixa margem para dúvidas quanto à intenção dos SEPULTURA: encerrar a carreira com dignidade, rodeados de pares que partilharam trincheiras sonoras ao longo de décadas.

A digressão de despedida dos SEPULTURA teve o seu início oficial a 1 de Março de 2024, com um concerto esgotado na Arena Hall de Belo Horizonte, no Brasil — cidade que os viu nascer e que os recebeu com a intensidade de quem sabe estar a assistir ao fim de uma era. Nessa noite estreou-se também Greyson Nekrutman na bateria, músico que antes integrou os SUICIDAL TENDENCIES e que assumiu o lugar com uma solidez que rapidamente silenciou eventuais cepticismos.

Mas os SEPULTURA não se limitam a percorrer palcos em modo de nostalgia gerida. Em Abril, lançaram um novo EP, intitulado «The Cloud Of Unknowing», editado pela Nuclear Blast Records — um disco que demonstra que a banda não abdicou da criação até ao fim. Do trabalho já tinham avançado dois singles: «The Place» e «Beyond The Dream», sendo que este último conta com a participação de Sérgio Britto e Tony Bellotto, dos brasileiros TITÃS, numa colaboração que evidencia o diálogo permanente entre os SEPULTURA e a cena rock do seu país de origem.

Há ainda outro projecto em curso que merece atenção. A banda gravou material ao vivo em 40 cidades distintas, com o objectivo de reunir esses registos num álbum que, segundo os próprios SEPULTURA, vai ser uma “uma compilação monumental dos nossos melhores e mais enérgicos momentos em palco“. Claro que o resultado promete ser um documento histórico de uma das carreiras mais influentes da história do metal internacional.

Para uma banda que atravessou décadas de turbulência interna — incluindo a saída controversa de Max Cavalera em 1996, seguida décadas depois pela do seu irmão Igor — chegar a este ponto com coesão artística e um arquivo vivo em construção é, em si mesmo, uma declaração. Esta noite em Reading foi mais um capítulo da narrativa: intensa, carregada de história, e com Evan Seinfeld a lembrar ao público que algumas alianças resistem ao tempo.