PHIL CAMPBELL

PHIL CAMPBELL: “Penso no Lemmy todos os dias, sinto a falta dele em palco” [entrevista]

Liderados pelo incontornável guitarrista dos MOTÖRHEAD, PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS retornam a Portugal já na próxima semana para apresentarem a novidade «Kings Of The Asylum» numa data-dupla.

Por esta altura, ninguém precisa de mais um lembrete de que vivemos tempos difíceis – e, com o agravamento das questões sociopolíticas a passar para primeiro plano, a necessidade de libertação é cada vez mais urgente. Pois bem, com a sua abordagem genuína ao rock’n’roll, PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS afirmam-se como a banda-sonora perfeita para uma noite de folia.

Com o mais recente álbum «Kings Of The Asylum» na bagagem, o grupo liderado pelo icónico guitarrista dos MOTÖRHEAD vai fazer-se à estrada durante o Verão de 2024 numa rota europeia que inclui duas muitíssimo aguardadas atuações em nome próprio em Portugal, agendadas para os dias 18 e 19 de Julho, no LAV – Lisboa ao Vivo e no Hard Club, em Lisboa e no Porto, respectivamente. Os bilhetes para os concertos custam 26€, já à venda no site da Prime Artists e nos locais habituais.

Na altura em que deram os primeiros passos, os britânicos PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS podem ter sido simplesmente uma curiosidade para os fãs dos icónicos MOTÖRHEAD após a morte da lenda Lemmy (Phil Campbell foi o guitarrista da banda durante mais de três décadas), mas em 2024 já não há como negar que construíram o seu próprio nicho do espectro do rock’n’roll mais pesado.

Formados em 2016 após a dissolução dos MOTÖRHEAD, PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS atraíram sempre multidões por onde quer que passassem. Liderada por um dos guitarristas mais respeitados no rock, e com a formação a ficar completa com os seus filhos Todd (na guitarra), Tyla (no baixo) e Dane (na bateria), a banda fez-se à estrada logo em 2017 e, apoiada num punhado de versões do trio do Sr. Kilmister e numa série de temas originais, mostrou desde cedo não fazer prisioneiros. Fosse a promessa de ouvir os clássicos ou simplesmente o facto de que eram bons demais para ser ignorados, a resposta a esses primeiros espetáculos foi gloriosa.

Quando lançaram a estreia «The Age Of Absurdity», em 2018, essa demonstração muito honesta e visceral do rock’n’roll já tinha florescido de uma forma orgânica e o álbum recebeu elogios. Depois, mesmo com a pandemia a cancelar muitos planos cuidadosamente elaborados, o grupo nunca baixou os braços e tratou de afirmar a sua dedicação absoluta ao rock com a edição de «We’re The Bastards». Já em 2022, após anunciarem ao mundo o recrutamento do novo vocalista Joel Peters, voltaram a estúdio e no Outono de 2023, na sequência da sua temporada festivaleira mais movimentada até ao momento, editaram a novidade «Kings Of The Asylum» pela Nuclear Blast.

Vão ter um Verão bastante ocupado e têm feito alguns espetáculos bem grandes ultimamente…
Sim, sem dúvida. Fizemos alguns concertos a “abrir” para os Guns N’ Roses e para os Judas Priest, que correram mesmo muito bem. Este ano, vamos fazer algumas digressões com os Scorpions, uns concertos com os Accept e outras banda assim… Vamos fazer muitos festivais, por isso acredito que vão se avizinham uns meses muito bons para para a banda.

Se vais tocar com os Scorpions, o mais certo é que te cruzes com o teu amigo Mikkey Dee.
Vamos ter oportunidade de matar saudades, sim! [risos] De qualquer forma, nós fazemos questão de manter sempre o contacto. Eu e o Mikkey falamos com regularidade, mais não fosse porque há sempre assuntos relacionados com os Motörhead com os quais temos de lidar.

Ia perguntar-te sobre isso… Desde que o Lemmy faleceu têm sido editadas várias reedições, álbuns ao vivo e colectâneas. Estás a par de tudo o que vai acontecendo?
Claro, tanto eu como o Mikkey estamos envolvidos em todos esses lançamentos. Ouvimos todo o material antes de ser lançado, aprovamos as edições, tomamos as decisões e tudo o mais. Estamos no comando do que tem sido feito.

Incluíndo todas as homenagens que têm sido feitas ao Lemmy, suponho.
Sim. Estivemos no Wacken Open Air, no Hellfest… Fazemos sempre questão de estar presentes, e acho que não faria sentido levar a cabo essas homenagens sem o nosso aval ou da família dele.

Fala-me um pouco do início dos PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS. Qual era a tua ideia? Era especificamente fazeres uma banda com os teus filhos?
Bem, começámos enquanto eu ainda estava nos Motörhead, cerca de dois anos antes do Lemmy morrer. O meu filho mais velho, o Todd, oeganizou uma festa de aniversário quando fez 30 anos. E contratámos uma banda. Às tantas, perguntámos-lhes se eu e os irmãos do Todd podíamos tocar algumas músicas com o nosso amigo Neil, que também estava lá.

Subimos ao palco, tocámos uns temas e foi muito divertido. Depois eu e os rapazes fizemos mais alguns espectáculos em que só tocámos versões dos nossos temas favoritos e, eventualmente, acabámos por ser convidados para actuar no Bloodstock Festival. Esse foi o nosso primeiro concerto grande e, pouco tempo depois, mudámos o nome para PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS. Começámos a escrever o nosso próprio material, e as coisas começaram a acontecer, e a tornar-se mais sérias, a partir daí.

Porquê PHIL CAMPBELL AND THE BASTARD SONS?
Confesso que a ideia não foi minha ideia. Não sei, acho que foi um dos rapazes que sugeriu o nome e todos concordámos que era apropriado. [risos]

É verdade que, no início, o Lemmy ponderou chamar Bastard aos Motörhead?
Acredito que sim, mas o empresário dele na altura aconselhou-o a não o fazer, disse-lhe que não era uma boa ideia. A verdade é que, de qualquer forma, ele acabou por encontrar um bom nome. Motörhead! É um dos melhores nomes de sempre.

Quando gravaram o vosso álbum de estreia, quais eram as tuas expectativas para a banda?
Só tentamos escrever as melhores músicas que conseguimos. Sabes, felizmente temos o Todd a produzir, e ele tem o seu próprio estúdio, por isso todos nos sentimos muito confortáveis quando chega a hora de gravar. O Todd é um óptimo produtor, produz muita música a partir dali. E penso que neste álbum, o último que fizemos, o «Kings Of The Asylum», conseguimos encontrar o som que sempre tentámos alcançar.

Acho que conseguimos definir mais o som que eu procurava, que todos procurávamos. É duro, é melódico, às vezes é brutal e, sabes, tem algumas melodias ali pelo meio que me agradam muito, por isso fiquei muito satisfeito com o que fizemos. Acho que é o nosso álbum mais forte até à data. Já começámos a trabalhar em músicas para o disco seguinte, que esperamos que saia durante o próximo ano. De momento estamos apenas a fazer alguma pré-produção… Ainda não há títulos ou nada desse género, mas já começámos o processo de demos para um novo álbum.

O vosso primeiro EP auto-intitulado foi lançado em 2016 e, desde então, já lançaram três álbuns, alguns EPs, gravações ao vivo e já estás a escrever um álbum novo. Portanto, parece-me óbvio que algo que não te falta é inspiração.
Sim, consigo fazer as coisas por minha conta e isso ajuda bastante. Não há prazos a cumprir, nem nada desse género. Estou a ficar um pouco mais velho, por isso posso levar as coisas com mais calma, mas ainda consigo fazer o trabalho e sim, continuo a sentir-me muito inspirado.

Além disso, o melhor nesta banda é que nem tudo depende de mim, toda a gente contribui com ideias para a escrita. O Todd tem aparecido com muita da música, muitos dos riffs e arranjos, o que é óptimo, porque ele é de uma geração diferente da minha. Temos as influências deles, temos as minhas influências, e isos tudo junta-se nas canções e resulta em música muito interessante.

E ainda há um pouco do ADN dos Motörhead, certo?
Sim, vai haver sempre, porque escrevi muita coisa para os Motörhead. Muitos dos riffs… Bem, na maioria das vezes, tudo começava comigo. Portanto, não posso mudar assim de repente a forma como escrevo. Gosto de tocar aquele tipo de coisas, sempre gostei, por isso é óbvio que vai acabar por soar a Motörhead de vez em quando. O que não é mau.

De todo! As pessoas têm, obviamente, saudades dos Motörhead e é bom haver uma banda que, não sendo os Motörhead, preenche esse vazio para os fãs.
Sim, eu também penso assim. Além disso, eles têm também oportunidade de ouvir algumas das músicas antigas ao vivo. Incluímos sempre algumas canções dos Motörhead nos alinhamentos e eles adoram. É por isso que continuamos a fazê-lo. É uma homenagem à banda.

Ainda é estranho estares em palco, olhares para o lado e não veres o Lemmy lá, depois de tantos anos a tocar com ele?
De vez em quando, sim. Normalmente estou tão concentrado no que estou a tocar que nem tenho tempo para reflectir sobre isso, mas penso no Lemmy todos os dias e sinto a falta dele em palco. Às vezes também sinto falta do volume, sabes? Sinto falta de gritar com ele para baixar o volume do baixo… E ele nunca o baixava.

Vamos falar um pouco sobre o álbum novo… O que inspirou o título «Kings Of The Asylum»?
Acho que havia, e ainda há, muita porcaria política a acontecer no Reino Unido. Está tudo um caos completo caos, há muita corrupção e tinha muito disso em mente quando comecei a escrever. Acho que isso se reflectiu em «Kings Of The Asylum», que é um título bastante forte.

No entanto, foi o Joel que escreveu todas as letras, porque isso não é o meu forte. Basicamente, criei o título e, depois, deixámos o Joel escrever todas as letras e criar as melodias. E acho que resultou mesmo muito bem, porque fizemos o nosso melhor álbum até à data. Estou muito feliz com ele.

Este é o vosso primeiro disco com o Joel. O que levou a essa mudança?
O Joel é realmente muito bom. Quando o Neil saiu, tivemos muitas pessoas a enviar gravações e vídeos. Algumas eram mesmo más. Algumas eram razoáveis. O Joel destacou-se, por isso pedimos-lhe para cantar algumas das nossas músicas. Ele fez isso e soou muito bem. Depois pedimos-lhe para cantar mais algumas, ele enviou-nos mais umas gravações de volta e voltou a soar muito bem.

Às tantas dissemos-lhe para vir até Cardiff perto e alugámos uma sala grande, tocámos as músicas com ele ao vivo e foi aí que o conheci pela primeira vez. E sim, tudo correu bem. Ele mora apenas a cerca de uma hora de distância, o que ajuda também. Quando queremos ensaiar, é fácil para toda a gente e não implica grande logística. Mas sim, ele tem uma grande voz e é um grande intérprete também. Estou muito satisfeito.

Era alguém que um dos teus filhos já conhecia ou era um completo estranho?
Não, acho que era um estranho para toda a gente. Não acho que algum de nós o conhecesse, não.

Sentes que a química estava lá entre vocês esteve lá desde o início ou tem vindo a construir-se ao longo deste último ano?
As coisas começaram logo muito bem naquele primeiro ensaio que fizemos juntos, mas é claro que precisámos de alguns espectáculos e também de um pouco de tempo para realmente acertarmos tudo. Mas sim, percebi desde o início que ia funcionar, senti que existia a possibilidade de correr bem. Esta colaboração com o Joel tem sido óptima.

Sei que é sempre injusto comparar pessoas, mas quais achas que são as maiores diferenças entre o Joel e o Neil em termos de como vocês trabalham?
Ambos são óptimos cantores, mas têm estilos diferentes. Têm timbres diferentes nas suas vozes e tudo isso. O Neil também é um grande cantor, mas acho que o Joel encaixa melhor na banda, acho que está um pouco mais feliz por estar a tocar connosco. Acho que o maior problema do Neil, que também é um bom rapaz, era ter demasiadas outras coisas a acontecer ao mesmo tempo.

Estavas a falar sobre estares mais velho e levares as coisas com mais calma, mas estou a olhar para a vossa agenda para os próximos meses e têm muitos concertos marcados até Dezembro. Ainda te entusiasma saberes que vais estar na estrada durante cerca de meio ano?
Quando penso nisso, digo sempre para mim mesmo “porra, olha a quantidade de aeroportos pelos quais vou ter de passar”. [risos] Tirando isso, sim, continua a ser muito divertido. Quer dizer, não planeámos estar tão ocupados este ano, mas as propostas para concertos continuam a aparecer e é bom demais para recusarmos.

Na verdade, não é tão agitado como era com os Motörhead… No entanto, nessa altura, viajávamos de forma um pouco mais chique, por isso era mais fácil. Quando fazíamos digressões, tínhamos um tour bus porreiro, por isso raramente tínhamos de lidar com a merda dos aeroportos. Agora, se forem apenas concertos isolados, não vale a pena estarmos a alugar um autocarro. É tão caro que é melhor voar, mas depois temos de passar pela chatice do aeroporto. Isso é o pior.

O tempo que se passa sem fazer nada em aeroportos é uma loucura.
Edstivemos no Schiphol, em Amesterdão, há umas semanas, e foi horrível. Parecia que estava no Inferno.

É aquele jogo de espera, não é?
Sim, não estás a fazer nada, estás só à espera. E isso acaba por destruir-me os nervos. Só tocámos durante 40 minutos, mas passámos horas e horas em aeroportos. Foram dez horas no aeroporto para tocarmos 40 minutos. Mas no final valeu a pena.

Obviamente, estamos a ter esta conversa porque vão voltar a Portugal. Fizeram a vossa estreia aqui há um par de anos no festival, agora vão fazer os vossos próprios concertos em Lisboa e no Porto. O que é que as pessoas podem esperar destas actuações?
Uma coisa é certa: vamos dar o nosso melhor a tocar rock’n’roll clássico, bem alto e pesado, e esperar que todos gostem. E vai ser fantástico voltar a tocar em Portugal. Divertimo-nos imenso da última vez, por isso estamos mesmo ansiosos. Os fãs portugueses são incríveis, loucos. Sempre foram assim com os Motörhead, por isso mal posso esperar. Vai ser óptimo, acreditem.