A família Osbourne anunciou ter estabelecido uma parceria com uma empresa de avatares digitais para criar uma versão interactiva de OZZY — entretanto, a fronteira entre a memória e o entretenimento nunca pareceu tão ténue.
A morte, pelo menos no que diz respeito a Ozzy Osbourne, pode não ser bem o fim que se imaginava. Durante a edição de 2026 da Licensing Expo, em Las Vegas, Sharon e Jack Osbourne anunciaram uma parceria com a empresa norte-americana Hyperreal para criarem um avatar digital interactivo do cantor, que faleceu em 2025. A ideia é simples de explicar e incómoda de digerir: os fãs poderão fazer perguntas ao avatar, que responderá com uma voz recriada para soar como a do vocalista dos BLACK SABBATH.
Jack descreveu a tecnologia como “simultaneamente impressionante e assustadora” — e não é difícil perceber porquê. Segundo ele, Ozzy poderá “existir digitalmente como ele mesmo enquanto houver computadores“. No entanto, foi quando foi mais concreto que a dimensão comercial do projecto se tornou bastante mais clara: inserir a versão digital do pai numa campanha publicitária é, actualmente, uma questão de comandos relativamente simples.
Não se trata, portanto, apenas de uma homenagem sentimental. Estamos também perante um novo território de licenciamento e exploração da imagem de um artista falecido. Por seu lado, Sharon não deixou margem para ambiguidade quanto às intenções da família. Será possível perguntar qualquer coisa a Ozzy, garantiu, e ele responderá com a própria voz — ou aquilo que resta dela —, com respostas que corresponderiam ao que o cantor teria dito. O plano é levar a experiência pelo mundo, permitindo que as pessoas “conversem” com ele como se estivesse presente.
Importa referir que a Hyperreal não é propriamente estreante neste território. A empresa, especializada em entretenimento com avatares digitais, participou num projecto de rejuvenescimento digital em vídeo de Paul McCartney e esteve por trás do avatar interativo de Stan Lee, exibido na Los Angeles Comic Con de 2025, onde os visitantes podiam conversar com uma versão digital do famoso criador de personagens da Marvel.
No caso de Stan Lee, a Reuters noticiou que o projecto incluía “mecanismos de segurança” para impedir que o avatar dissesse algo fora do que era perfil público de Lee — e mesmo assim não escapou a críticas. Observadores e fãs descreveram a experiência como distópica, questionando onde termina a preservação de uma memória e onde começa a fabricação de uma presença que já não pode responder por si mesma.
É exactamente essa a pergunta que o projecto de Ozzy Osbourne vai voltar a colocar, com ainda mais intensidade. O cantor foi, em vida, uma figura de contradições magnéticas: humor negro, vulnerabilidade improvável, caos genuíno, uma falta de filtro que era, ao mesmo tempo, desconcertante e irresistível. A ideia de recriar digitalmente essa personalidade sem a transformar num boneco promocional afirma-se como um desafio de uma complexidade que a família parece reconhecer, mas que nenhuma tecnologia resolve completamente.
Ciente disso, Jack Osbourne tentou antecipar as críticas ao afirmar que não pretende transformar o pai em algo que ele nunca foi. “Eu não quero fingir que o Ozzy Osbourne era este poeta refinado… Todos nós sabemos quem ele era”, disse. A pergunta orientadora do projecto, segundo ele, deve ser precisamente: “O que é que o Ozzy faria?”. É uma preocupação legítima — e necessária. Mas não resolve o problema central. Um avatar demasiado polido não seria Ozzy. Um avatar programado para simular o seu caos poderia tornar-se rapidamente uma caricatura. O fio entre autenticidade e artifício é mais estreito do que qualquer comunicado de imprensa pode admitir.
Sharon preferiu invocar o legado de Elvis Presley como referência: o rei do rock’n’roll morreu há décadas e continua a ser descoberto por gerações que nasceram muito depois dele. A diferença, claro, é que Elvis continua vivo através de discos, imagens e documentários — não através de um interface que responde a perguntas em tempo real. Há uma distinção qualitativa entre preservar o legado e simular uma presença.
Para os fãs, a reacção será inevitavelmente dividida. Há quem queira ouvir aquela voz outra vez, mesmo sabendo que é uma construção digital. Há quem considere que Ozzy Osbourne deixou material suficiente para continuar a viver sem precisar de responder a perguntas post-mortem. E há, naturalmente, também há quem olhe para este projecto como mais um passo numa direcção que a indústria da música não vai parar de explorar.
Ozzy Osbourne já percorreu um trajecto improvável: de vocalista fundador dos BLACK SABBATH a anti-herói do heavy metal, de figura de culto a estrela de reality show, de ícone da cultura popular a tema de dissertações académicas sobre autenticidade e excesso. Agora, entra numa nova fase — a do fantasma interativo licenciado. A questão que fica, e que nenhuma declaração da família Osbourne vai silenciar, é esta: quando uma voz gerada por algoritmo responde em nome de alguém que já não existe, estamos a honrar um artista ou a vender a ilusão de que a morte é apenas mais um obstáculo técnico por resolver?
A resposta, suspeitamos, está algures no intervalo entre a saudade genuína e o comunicado de imprensa.




