Os noruegueses dos DIMMU BORGIR regressam às edições após oito anos de silêncio com o seu álbum mais ambicioso e genuinamente extremo desde os tempos que definiram o black metal sinfónico como linguagem global.
Oito anos são tempo mais que suficiente para uma banda ser esquecida. Para os DIMMU BORGIR, foi um período de tempo necessário, mas a expectativa tornou-se quase insuportável. Apesar disso, este «Grand Serpent Rising» chega sem cerimónias de justificação, sem o peso da desculpa — são “apenas” uns belos 70 minutos de black metal sinfónico que reposicionam a dupla formada por Silenoz e Shagrath onde, na verdade, sempre esteve: no centro de tudo o que o género tem de mais singular e inimitável.
O décimo álbum de material original dos noruegueses DIMMU BORGIR, editado uma vez mais pela Nuclear Blast Records, não é um regresso triunfal no sentido melodramático do termo. É algo mais interessante que isso: um LP que age como se esta ausência nunca tivesse acontecido.
Ao longo de já três décadas, o duo — que é o núcleo duro e inabalável do grupo — conseguiu construir uma das carreiras mais singulares do metal extremo. Da estreia «For All Tid» até o «Eonian», a trajectória dos noruegueses é a história de um colectivo que foi progressivamente abraçando, sem um único pingo que fosse de vergonha, o espectáculo, as orquestras, os coros, a grandiosidade operática. E, em ocasiões, isso fez com que perdessem de vista a crueldade primordial que os havia gerado. Com «Grand Serpent Rising», essa equação é sujeita a uma revisão cuidada.
O produtor sueco Fredrik Nordström — cuja presença atrás da mesa de mistura é, por si só, uma espécie de garantia de excelência no mundo do metal nórdico — já o descreveu como sendo o melhor disco que os DIMMU BORGIR alguma vez gravaram. Sim, é uma afirmação arrojada. Não completamente destituída de fundamento, no entanto.
A grande diferença, aqui, está na subtracção. Este «Grand Serpent Rising» não abandona o vocabulário sinfónico que tornou os DIMMU BORGIR uma força gravitacional dentro do género, mas despoja-o de boa parte do excesso que caracterizou o «Abrahadabra» e, em certa medida, o próprio «Eonian». As cordas estão mais contidas. A electrónica está menos omnipresente. E o que ganha com isso não é a austeridade — é a respiração. As canções ganham espaço para existir, para fermentar, para morder.
O tema de abertura, «Tridentium», funciona como um prólogo habitado de tensão dramatúrgica: uma abertura espectral, quase cinematográfica, que prepara o ouvinte para o que está prestes a acontecer. Quando «Ascent» irrompe finalmente das colunas, fá-lo com a energia de uma proclamação. Os riffs cortam, as camadas góticas instalam-se com precisão cirúrgica, e há uma ferocidade desimpedida que, em discos anteriores, tendia a ser sufocada pelo peso dos teclados. É, em suma, um arranque de álbum que reposiciona imediatamente os DIMMU BORGIR no mapa do metal extremo contemporâneo.
Depois, «As Seen In The Unseen» e «At The Precipice Of Convergence» são bons exemplos do que os DIMMU BORGIR fazem com uma contenção que não lhes é natural, mas que dominam com elegância: melodias afiadas, atmosferas densas, estruturas que equilibram o gancho com a inquietação. São dois temas que não se impõem à primeira — crescem, instalam-se, tornam-se indispensáveis.
Por outro lado, «The Qryptfarer» e «The Exonerated» representam o lado mais épico do álbum — são composições de grande envergadura que confirmam a sofisticação da escrita de Silenoz e Shagrath, e a sua capacidade de construir arquitecturas sonoras que, sendo complexas ao detalhe, nunca perdem a força visceral que as torna eficazes.
Ainda assim, se há duas faixas que merecem destaque especial, são «Ulvgjeld & Blodsodel» — escolhida para anteceder o lançamento, monstruosa na sua grandiosidade metal — e «Phantom Of The Nemesis», que emerge como o verdadeiro coração do disco. Esta última é uma das raras faixas onde os ornamentos orquestrais regressam ao centro da composição, mas sem nunca se tornarem decoração. Os arranjos são perturbantes, floreados e sombrios, e há neles uma espécie de beleza doentia que resume, talvez melhor que qualquer outra faixa, o que faz dos DIMMU BORGIR uma banda verdadeiramente inimitável.
No geral, o álbum orbita em torno de temas como a transformação, a dissolução do ego e o despertar — coordenadas conceptuais que não são novas no universo da banda, mas que aqui surgem ancoradas numa sonoridade que as serve com maior autenticidade. Há qualquer coisa de genuinamente extremo neste registo que os últimos álbuns, pela sua opulência, tendiam a diluir.
E sim, é verdade que existe um risco específico em regressar após oito anos de ausência (a colectânea de versões «Inspiratio Profanus», de 2023, foi um aperitivo, não uma declaração): o de parecer que se está só a confirmar a própria relevância. Os DIMMU BORGIR escapam à armadilha porque nunca parece que estão a ansiar por aprovação. Há uma autoridade tranquila neste LP, uma confiança na força intrínseca da música que é, por si mesma, um traço de carácter.
Nesse sentido, o «Grand Serpent Rising» não é necessariamente o álbum mais fácil da discografia destes músicos. 70 minutos de black metal orquestral — mesmo quando depurado de alguns dos seus excessos — exigem atenção, disponibilidade, alguma cumplicidade com a visão particular desta banda. Mas é, sem dúvida, o álbum o mais honesto que gravam em muito, muito tempo. E talvez o mais bem conseguido, a nível técnico, desde o «Death Cult Armageddon».
Haverá quem prefira a crueza dos primeiros álbuns, claro. Haverá quem tenha ficado fiel à opulência do «Puritanical Euphoric Misanthropia». Esses debates são todos legítimos e, francamente, são parte do que torna os DIMMU BORGIR tão fascinantes enquanto objecto de análise. O que este «Grand Serpent Rising» torna inegável é que Silenoz e Shagrath continuam a ser dois dos compositores mais singulares e coerentes do metal extremo europeu — e que, quando decidem regressar, fazem-no de forma a que a questão nunca seja “porquê?” mas sim “e agora, o que farão a seguir?”.





