A carreira de 45 anos dos pioneiros do industrial MINISTRY chega ao fim com «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», álbum que promete ser tão corrosivo quanto o mundo que o inspirou.
Há despedidas que se fazem com nostalgia e outras que chegam acompanhadas de uma última dose de veneno. No universo dos MINISTRY, dificilmente podia ser de outra forma. A banda liderada por Al Jourgensen acaba de revelar «We Hate», segundo avanço daquele que será o seu derradeiro álbum de estúdio, intitulado «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», e fá-lo mantendo intacta uma das características que melhor definiram a sua carreira ao ongo dos anos: a capacidade de transformar a turbulência política e social num ataque sonoro frontal, desconfortável e deliberadamente provocador.
Disponível no player em baixo, «We Hate» não deixa grande margem para interpretações sobre o alvo da sua fúria. Jourgensen e companhia voltam a apontar baterias à actual administração norte-americana e, em particular, ao Sr. Donald Trump, recorrendo ao sarcasmo e à agressividade bruta que há muito fazem parte do ADN dos MINISTRY. A banda descreve o tema como sendo uma resposta àquilo que considera ser a constante utilização de conteúdos gerados por inteligência artificial e de uma comunicação política marcada pelo auto-engrandecimento.
Portanto, mais do que uma simples canção de protesto, «We Hate» surge assim como uma espécie de declaração de intenções para a última etapa da história dos MINISTRY. O tema chega acompanhado por um vídeo-clip realizado por Joshua Bradford e sucede a «Burned Out», primeiro avanço de «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», lançado em Julho.
O novo álbum tem lançamento marcado para 30 de Outubro, via Cleopatra Records, e assume um significado particularmente importante dentro da já longa história do grupo. «Hate To Go (Take Out Or Delivery)» será o último álbum dos MINISTRY, encerrando uma trajectória que começou em 1981 e que se prolongou por quatro décadas e meia, atravessando transformações profundas na música pesada, na electrónica e na própria sociedade norte-americana.
Quando Al Jourgensen começou a construir os MINISTRY no início dos anos 80, dificilmente poderia prever a dimensão que o projecto viria a alcançar ou a influência que exerceria sobre toda uma geração de músicos. Ao longo de 17 álbuns de estúdio, oito lançamentos ao vivo e oito projectos paralelos, a banda ajudou a estabelecer os alicerces daquilo que viria a ser conhecido como metal industrial, sem nunca se deixar aprisionar por uma definição demasiado rígida.
A história dos MINISTRY é, na realidade, uma história de mutação constante. Da electrónica mais dançável e experimental dos primeiros tempos à violência industrial que marcou discos como «The Land Of Rape And Honey», «The Mind Is A Terrible Thing To Taste» e «Psalm 69: The Way To Succeed And The Way To Suck Eggs», Jourgensen foi construindo uma linguagem própria, feita de riffs esmagadores, samples, maquinaria electrónica, ruído e uma permanente sensação de confronto. A crítica ao poder, ao militarismo, à corrupção, à indústria política e às contradições da sociedade norte-americana tornou-se uma presença recorrente na obra da banda. Em vários momentos da carreira, os MINISTRY funcionaram quase como uma banda-sonora para a indignação de uma determinada geração.
Agora, no capítulo final, Jourgensen parece não ter qualquer intenção de suavizar o discurso.
Apesar de «Hate To Go (Take Out Or Delivery)» representar o fim da discografia de estúdio dos MINISTRY, o LP não parece ter sido concebido como um exercício de despedida contemplativa. Pelo contrário, as informações divulgadas apontam para um álbum profundamente preocupado com o presente e com o estado do mundo. Jourgensen aproveita este último trabalho para deixar uma série de considerações sobre a actual realidade política e social, sobre aqueles que ocupam posições de poder e sobre aquilo que acredita ser necessário para que a sociedade consiga avançar colectivamente.
É precisamente essa dimensão que torna «We Hate» particularmente representativo deste derradeiro capítulo. Se os MINISTRY passaram décadas a utilizar o industrial como ferramenta de confronto, parece lógico que o último disco continue a fazê-lo até ao fim. A própria escolha do título, «Hate To Go (Take Out Or Delivery)», carrega esse espírito de provocação. E, tendo em conta os dois singles já conhecidos, tudo indica que o álbum será menos um epitáfio e mais um último murro na mesa.
Para os mais desatentos, o disco contará ainda com uma colaboração particularmente significativa para quem acompanha a história dos MINISTRY. Paul Barker, antigo membro da formação e uma das figuras fundamentais da fase clássica da banda, participa no último tema do álbum, «We’re Still Here». A sua presença acrescenta, claro, uma dimensão simbólica à despedida. A parceria entre Jourgensen e Barker foi decisiva para a definição do som dos MINISTRY durante uma parte fundamental da sua carreira, ajudando a estabelecer a identidade que viria a influenciar inúmeras bandas nas décadas seguintes.
A edição de «Hate To Go (Take Out Or Delivery)» não será, contudo, o fim imediato da actividade dos MINISTRY. A banda já está a preparar para uma extensa digressão internacional de despedida, durante a qual apresentará temas do novo álbum juntamente com alguns dos clássicos que definiram a sua carreira. A rota europeia, com duas datas em Espanha, mas nenhuma por cá, vai ter lugar em Abril e Maio de 2027, sob a designação Goodbye Europe 2027, e conta com os alemães DIE KRUPPS como “suporte”. Ao todo, estão previstas 21 datas, atravessando vários dos principais mercados europeus.
A digressão arranca no dia 2 de Abril, em Utrecht, nos Países Baixos, e passa por cidades como Saarbrücken, Bruxelas, Dublin, Manchester, Londres, Paris, Madrid, Barcelona, Munique, Viena, Praga, Varsóvia, Berlim, Hamburgo, Copenhaga, Estocolmo, Oslo e Helsínquia, onde a etapa europeia termina a 1 de Maio. Para os fãs que quiserem tornar a despedida ainda mais pessoal, estão também disponíveis experiências de meet and greet com Al Jourgensen, que incluem oportunidade para fotografia com o músico, um passe comemorativo, um poster serigrafado e uma moeda exclusiva da última digressão europeia.
«Hate To Go (Take Out Or Delivery)» será lançado em formato digital e em diferentes edições físicas, incluindo o vinil, o CD e cassete. O álbum encontra-se já disponível para pré-encomenda nos formatos físicos através da Cleopatra Records.. Depois de 45 anos a transformar raiva, ruído e provocação em música, os MINISTRY preparam-se para desaparecer enquanto banda activa. Mas se «We Hate» serve de indicação, Al Jourgensen não pretende despedir-se em silêncio. O último capítulo será, ao que tudo indica, tão desconfortável, político e incendiário quanto aqueles que o antecederam.

01. Crickets | 02. Voices Of Hate | 03. Clown Car | 04. We Hate | 05. Delete | 06. Grifter | 07. The White Man Lied | 08. Singularity | 09. Burned Out | 10. We’re Still Here (ft. Paul Barker)


