CHELSEA WOLFE deixa a luz entrar sem apagar as sombras: «The Dark» revela a nova dimensão de uma das vozes mais singulares da música alternativa contemporânea.
Há qualquer coisa de inesperadamente luminosa em «The Dark». Não a ponto de fazer esquecer aquilo que associamos a Chelsea Wolfe, muito menos de transformar a norte-americana numa compositora solar. A escuridão continua entranhada nas canções deste novo álbum, nas texturas, nas palavras e naquela voz que parece carregar sempre consigo uma palpável sensação de inquietação. A diferença é que, desta vez, existe mais espaço entre as sombras.
O resultado é um disco que surpreende precisamente porque não tenta surpreender. «The Dark» não representa uma reinvenção radical nem uma ruptura com o percurso anterior de Wolfe. É, isso sim, um exercício de depuração, no qual diferentes facetas de uma carreira construída entre folk noir, rock gótico, doom, electrónica e metal encontram um ponto de equilíbrio particularmente natural. O que muda não é tanto a linguagem, mas a quantidade de luz que a artista permite atravessar.
Essa alteração de perspectiva acaba por ser significativa. Depois de uma discografia marcada por atmosferas opressivas, confissões dolorosas e experiências que a aproximaram tanto dos Converge como de territórios mais cinematográficos e experimentais, a Sra. Wolfe chega ao seu nono álbum de estúdio sem qualquer necessidade de tornar cada momento mais pesado ou sombrio do que o anterior. Pelo contrário: em «The Dark», a fragilidade pode ser tão poderosa como a distorção e uma melodia delicada pode bem deixar uma marca tão profunda como qualquer muro de guitarras.
E é precisamente essa aparente contradição que faz deste LP uma experiência tão interessante. «The Dark» pode muito bem ser o trabalho mais acessível de Chelsea Wolfe, mas isso não significa exactamente que seja o menos inquietante. Sim, porque há uma diferença enorme entre simplificar uma linguagem e torná-la mais transparente, e Wolfe opta claramente pela segunda hipótese. As canções aproximam-se mais do ouvinte, mas aquilo que encontramos quando chegamos perto continua a ser complexo, ambíguo e, por vezes, desconfortável.
«Cold» é uma óptima porta de entrada para esse universo. A canção assume a forma de uma balada de enorme beleza, construída com uma delicadeza quase enganadora. A melodia tem uma fluidez que poderia facilmente ser associada a conforto ou esperança, mas a dimensão emocional da composição conta uma história bastante diferente. Existe fragilidade, desgaste e a sensação de estar a perder o controlo precisamente nas mãos de alguém em quem se depositou confiança.
É essa dualidade que impede a «Cold» de se transformar simplesmente numa “balada bonita”. A voz de Wolfe acrescenta-lhe uma camada de vulnerabilidade que não precisa de dramatismos excessivos. A cantora não parece estar a representar a dor; parece estar a habitá-la. E, ao mesmo tempo, a música não se deixa afundar completamente nesse sentimento. Há uma espécie de elevação na melodia que torna tudo ainda mais poderoso.
O tema-título aprofunda essa mudança de perspectiva. «The Dark», o tema, parte de uma instrumentação acústica e aproxima-se de uma sensibilidade country que não seria necessariamente a primeira coisa que esperaríamos de Wolfe. Mas a compositora sabe exactamente como transportar essa linguagem para o seu território, e o resultado mantém uma tonalidade crepuscular, mas troca a parte do peso habitual por uma sensação de espaço e intimidade.
Mais do que combater a escuridão, Wolfe parece aceitá-la. E essa aceitação é fundamental para compreender este álbum.
«I’m Not There» segue uma direcção semelhante, explorando novamente as raízes mais orgânicas da composição. As guitarras acústicas deixam a voz respirar e permitem que a canção se desenvolva sem a necessidade de grandes explosões. É um daqueles momentos em que se percebe que a intensidade de Wolfe nunca dependeu exclusivamente do volume ou da distorção. E se essas duas faixas demonstram o lado mais contemplativo de «The Dark», «Seethe» chega de rompante para lembrar-nos rapidamente que a artista não abandonou a sua capacidade de criar ambientes carregados de tensão.
Pelo contrário. Com uma linha de baixo particularmente envolvente, uma dinâmica que oscila entre o rock e uma espécie de pop ritualística, e uma atmosfera sensual e inquietante, é provavelmente uma das canções mais imediatas do disco. A participação de Troy Van Leeuwen, dos QUEENS OF THE STONE AGE, acrescenta uma dimensão particularmente interessante ao tema. O seu contributo encaixa naturalmente na composição, introduzindo uma textura mais rock e um certo sentido de movimento sem transformar «Seethe» numa demonstração de virtuosismo. A guitarra serve a atmosfera, e não o contrário.
É também aí que «The Dark» mostra uma das suas maiores virtudes: a capacidade de incorporar novas cores sem deixar de soar a Chelsea Wolfe. Convenhamos, a artista passou boa parte da sua carreira a atravessar fronteiras. A folk encontrou o doom, o gothic rock cruzou-se com electrónica, o metal apareceu lado a lado com ambientes minimalistas e a colaboração com os CONVERGE demonstrou que a sua música podia suportar níveis de agressividade muito diferentes. A isso juntam-se as versões de nomes tão particulares como os RUDIMENTARY PENI e incursões no universo cinematográfico, incluindo a participação na banda-sonora de X.
Tudo isso poderia resultar numa discografia fragmentada. No caso de Wolfe, porém, essas experiências parecem ter funcionado como ferramentas para construir uma linguagem própria — e «The Dark» beneficia directamente desse percurso, porque já não existe uma necessidade evidente de escolher entre uma faceta e outra.
«Swallower» é um bom exemplo disso. A canção começa por convocar a criatura nocturna para a luz e, a partir daí, constrói uma atmosfera que recupera parte da dimensão ritualística e ameaçadora que há muito acompanha a música de Chelsea Wolfe. É uma composição mais pesada emocionalmente, mas também possui uma elegância que impede que a escuridão se torne previsível. E já que se fala disso, a relação entre luz e sombra é provavelmente o fio condutor mais importante deste álbum. Não existe aqui uma oposição simples entre o bem e o mal, entre a esperança e o desespero, a beleza e a fealdade. Wolfe parece muito mais interessada na zona cinzenta entre essas ideias.
Ainda assim, «Humours» reforça a sua vertente mais pesada. A composição recupera uma densidade que fará as delícias de quem acompanha a faceta mais doom de Wolfe, mas a produção mantém tudo suficientemente definido para que as diferentes camadas possam respirar. Há peso, mas não existe excesso. Há tensão, mas nunca a sensação de que a canção está a tentar provar alguma coisa. E essa contenção é uma das características que mais distinguem «The Dark». O álbum sabe quando deve crescer e, talvez mais importante, sabe quando deve recuar.
Quando se chega «Death Is Not The End», a atmosfera volta a tornar-se particularmente densa. O título, por si só, parece apontar para um encerramento definitivo, mas a canção prefere uma ambiguidade. Há uma sensação de inevitabilidade, uma gravidade que aproxima o tema dos momentos mais sombrios da discografia de Wolfe, mas também existe qualquer coisa de libertador na forma como a canção se desenvolve.
E então acaba por surgir «Dancer In The Sky». A escolha para encerrar o álbum é particularmente feliz porque evita a tentação de terminar no ponto mais escuro. Depois de atravessar uma sequência de emoções carregadas, Chelsea Wolfe opta por fechar «The Dark» com uma peça delicada, quase como se abrisse finalmente uma janela depois de ter passado demasiado tempo dentro de um quarto sem luz. Não se trata de um final feliz no sentido convencional, até porque não há uma resolução artificial para os conflitos espalhados pelo disco; existe, isso sim, uma mudança de perspectiva. A noite continua a existir, mas já não ocupa todo o horizonte.
É neste ponto que a ideia de acessibilidade ganha verdadeiro significado. «The Dark» não é mais acessível porque Chelsea Wolfe tenha abandonado aquilo que a tornou especial. É mais acessível porque as suas canções permitem agora uma entrada mais directa no universo que criou. As melodias são mais imediatas, algumas estruturas são mais abertas e há momentos que parecem ter sido deliberadamente desenhados para serem absorvidos à primeira audição. Mas a profundidade está lá.
E talvez seja essa a melhor maneira de descrever o nono álbum de estúdio de Chelsea Wolfe: um disco que aproxima sem revelar tudo. Quanto mais se ouve, mais detalhes começam a surgir nas margens das canções. Uma guitarra que parecia secundária ganha importância. Determinada frase assume outro significado. Uma melodia aparentemente luminosa começa a revelar-se uma sombra escondida. E sim, é uma questão de contraste, mas também de enorme maturidade artística.
Ao fim de décadas de carreira, Chelsea Wolfe já não precisa de recorrer constantemente ao choque para afirmar a sua verdadeira personalidade. A sua assinatura está suficientemente consolidada para que uma canção como «Cold» possa coexistir naturalmente com «Humours», ou para que «Seethe» possa aproximar-se de uma linguagem mais imediata sem deixar de pertencer ao mesmo universo de «Death Is Not The End». Exactamente por isso, o resultado é um dos trabalhos mais equilibrados da sua carreira.
Atente-se: «The Dark» não deve, nem pode, ser visto como uma versão “suave” de Chelsea Wolfe. Essa leitura seria redutora e só nos faria perder precisamente aquilo que torna o álbum especial. O que existe aqui é uma artista suficientemente segura da sua linguagem para explorar a beleza sem sentir que está a trair a escuridão que sempre a acompanhou. E essa é a grande revelação do disco. A luz não enfraquece Chelsea Wolfe. Pelo contrário, torna as sombras mais visíveis.
No final, o que fica não é a sensação de que Wolfe abandonou a escuridão. É a de que aprendeu finalmente a viver dentro dela sem precisar de fechar todas as janelas… E, quando a luz entra, percebemos que o seu universo continua tão fascinante como sempre — talvez até mais.



