“Foi um disco muito difícil de fazer”, diz BRANN DAILOR, o baterista e vocalista dos MASTODON.
O novo álbum dos MASTODON — o nono da carreira da banda de Atlanta, o primeiro sem Brent Hinds — parece claramente ter emergido do luto, da ruptura, da vida que insiste em complicar-se. Brann Dailor, baterista e vocalista do grupo, confirmou que o registo está concluído e que a sua gestação foi, nas suas próprias palavras, “um processo muito difícil”.
A notícia chegou numa nova entrevista ao Blabbermouth, durant a qual o músico não escondeu o peso emocional do processo criativo do novo disco. “Estamos muito entusiasmados com o resultado”, afirmou. “Foi um álbum difícil de fazer. Foi um período muito emotivo. Perdi a minha mãe, depois passámos por toda aquela turbulência com o Brent, e eventualmente ele acabou por falecer. Tem sido duro. E isso está tudo na música, está tudo nestas canções.”
O baterista dos MASTODON revelou ainda que os esqueletos compositivos deste álbum existem há cerca de dois anos, acumulando-se enquanto a banda atravessava um dos períodos mais conturbados da sua já longa história. O novo registo contará com a participação de Nick Johnston, o guitarrista que integrou os MASTODON como músico de digressão após a saída de Brent Hinds, em Março de 2025, e que, segundo as informações disponíveis, gravou o álbum como membro de pleno direito.
Em Março de 2025, os MASTODON anunciaram que a banda e o guitarrista Brent Hinds tinham “decidido mutuamente separar-se” após “25 anos monumentais juntos”. Essa formulação diplomática, porém, não se manteve muito tempo: Brent Hinds acabou por afirmar publicamente que tinha sido expulso e classificou os antigos companheiros de “seres humanos horríveis” numa publicação nas redes sociais.
Questionado sobre se o álbum inclui contribuições de Hinds, Dailor foi directo: “Não. Isto é tudo material novo.” E acrescentou, com uma candura que mistura tanto frustração como afecto póstumo: “Para o fim, infelizmente, era difícil conseguir que ele viesse à sala de ensaios. Ele estava interessado noutras coisas, o que é compreensível. Foi um período confuso para toda a gente. Era eu que insistia: ‘Vamos, meu. Vem cá. Vamos tocar.’ Ele era um espírito livre. Queria andar de mota e fazer isto e aquilo. Ia para onde o vento o levava.” A imagem é simultaneamente terna e melancólica — um músico em fuga de si mesmo, sem saber que o tempo estava a esgotar-se.
Na madrugada de 21 de Agosto de 2025, Brent Hinds morreu na sequência de um acidente de viação em Atlanta, quando a sua Harley-Davidson foi abalrroada por um SUV no cruzamento da Memorial Drive SE, a menos de três quilómetros do centro da cidade. Tinha 51 anos. As autoridades concluíram, com base em imagens de videovigilância, que Hinds circulava entre 101 e 109 quilómetros por hora numa via com limite de 50 — uma velocidade que os investigadores consideraram determinante para o desfecho fatal.
Poucos meses antes, em Março desse ano, Hinds tinha realizado o seu primeiro concerto após a saída dos MASTODON, com os seus FIEND WITHOUT A FACE, no 529 Club, em Atlanta. Tinha uma tour europeia marcada para Novembro e Dezembro, que nunca aconteceu.
A singularidade da história dos MASTODON reside, em parte, na estabilidade que os definiu durante um quarto de século. A formação com Hinds, Dailor, Troy Sanders e Bill Kelliher gravou oito álbuns — desde «Remission», de 2002, até ao colossal «Hushed And Grim», o duplo álbum de 2021 gravado no estúdio da banda, o West End Sound — sem uma única alteração de formação. Uma constância rara no universo do metal, e ainda mais rara num género que consome os seus próprios com alguma regularidade.
A banda acumula nove álbuns no top 200 da Billboard, seis nomeações para os Grammy e uma vitória efectiva na categoria de Melhor Interpretação de Metal, em 2018, com «Sultan’s Curse». Para além dos MASTODON, Brent Hinds também participou em vários projectos paralelos, incluindo GIRAFFE TONGUE ORCHESTRA — com ex-elementos dos THE DILLINGER ESCAPE PLAN e dos ALICE IN CHAINS — e os LEGEND OF THE SEAGULLMEN.
Com o álbum concluído e Dailor visivelmente ansioso por partilhá-lo com o mundo — “Estamos sentados em cima disto há demasiado tempo”, confessou ele —, resta-nos agora aguardar o anúncio oficial da data de lançamento e do título do disco. O que já se sabe é que este novo capítulo dos MASTODON, que têm regresso agendado a Lisboa em Julho, chegará inevitavelmente marcado por tudo o que aconteceu à sua volta: uma separação dolorosa, a morte de um membro cofundador, a reinvenção forçada de uma banda que sempre se definiu pela coesão das suas partes.





