Os MALEVOLENCE fizeram o seu primeiro concerto como ‘headliners’ em Portugal e provaram, mais uma vez, que não há rótulo que os contenha nem sala que os comporte com facilidade.
A história começa, como as melhores histórias do metal, em garagens e palcos esquecidos. Por volta de 2007, quem frequentasse a cena do South Yorkshire com regularidade, certamente que se cruzou com um grupo de miúdos de 15 anos a tocar versões dos LAMB OF GOD em salas minúsculas. Cabelo comprido, amplificadores emprestados, público às dezenas num dia bom. Ninguém, nessa altura, apostaria que 20 anos depois esses mesmos miúdos estariam a fazer tremer as paredes do LAV — Lisboa ao Vivo num primeiro concerto como cabeças de cartaz em Portugal.
A verdade é que os MALEVOLENCE nunca foram propriamente uma banda para apostas seguras. E, às vezes, as melhores histórias do metal são assim. Longas, teimosas, construídas tijolo a tijolo, sem atalhos e sem rede.
O aglomerado na zona ao ar livre da Sala 1 do LAV (o concerto estava originalmente agendado na Sala 2, mas a enorme procura por bilhetes justificou a mudança), dizia tudo o que era preciso saber sobre o estado de espírito da noite. Não havia aquela impaciência nervosa dos concertos de circunstância, havia abraços e gente a reencontrar-se. Mas, sobretudo, avia contenção. A de quem sabia exactamente o que vinha aí e preferia guardar-se para quando importasse. Là dentro, o ar estava bem mais pesado. Havia uma pressão, uma carga que não era metáfora — física, mensurável à entrada.
Sem aviso, os FEAR THE LORD abriram a noite e trataram de deixar claro, desde o primeiro momento, de onde vinham. “Margem Sul na puta da casa!”, disparou o vocalista entre o primeiro e o segundo tema, como se ainda restassem dúvidas. A sala respondeu em conformidade. O grupo encarna o espírito do MSHC de alma e coração, mas apresenta uma versão mais evoluída do que se entende habitualmente como tal.
O two step está lá, claro que está — orgulhosamente, sem complexos — mas há também breakdowns pesadíssimos, um piscadela de olho ao hip-hop nos interlúdios e guitarras afinadas bem lá em baixo, resultando em compassos tão lentos que roçam o sludge. Assinaram uma abertura potente, honesta e sem rodeios, que preparou muito bem o terreno para o que se seguiria.
Seguiram-se então os belgas NASTY. Banda com mais de uma década de estrada, não precisaram de se apresentar nem de conquistar ninguém — entraram em palco como quem entra em casa, ligaram os amplificadores e trataram do assunto com uma eficiência que só os veteranos têm. O hardcore que praticam é denso, construído camada sobre camada, sem ornamentos nem concessões ao conforto. É música que empurra, que ocupa o espaço todo e não deixa sair.
Já com o caos a começar a instalar-se e uma enorme roda aberta a meio da sala, os temas sucederam-se como blocos de cimento e o público respondeu à altura dos desígnios de, que comandou as hostes e até teve tempo para dialogar sobre união a meio do set. Ainda assim, destacaram-se pela urgência e pelo solidez do set. Quando os NASTY deram por terminada a contenda, o LAV já não era o mesmo espaço que tinha sido uma hora antes.
Ainda assim, para perceber o peso desta noite, é preciso recuar. Os MALEVOLENCE não são uma banda que chegou de repente. Não houve um vídeo viral, não houve um momento de exposição súbita que mudou tudo de um dia para o outro. O que houve foi trabalho, ano após ano, tour após tour, álbum após álbum — uma construção lenta e deliberada que transformou os adolescentes deo South Yorkshire numa das bandas de metal britânico mais respeitadas da sua geração.
O quarto LP, «Where Only the Truth Is Spoken», lançado no ano passado e mote desta digressão que chegou agora a Lisboa, foi o documento que consolidou essa reputação a uma escala mais ampla. As críticas foram excelentes, as digressões que se seguiram confirmaram que a banda tinha dado um salto qualitativo real. Pela primeira vez com um produtor externo — Josh Wilbur, conhecido pelo trabalho com os LAMB OF GOD — os MALEVOLENCE chegaram a um disco que soava maior, mais confiante, mais assumidamente diverso, sem perder nada do que os tornava reconhecíveis.
A recusa em caber numa caixa, que sempre foi uma das suas marcas, ficou mais evidente do que nunca: há metalcore, há hardcore, há metal clássico, há momentos de uma ternura inesperada que desarmam completamente. É uma banda que escreve a música que quer ouvir, e isso ouve-se. Por cá, a base de fãs cresceu de forma consistente, alimentada por actuações anteriores que ficaram na memória de quem as viveu.
A ideia de um primeiro concerto como headliners em Lisboa não era, por isso, uma aposta no escuro — era uma confirmação. Mas uma coisa é saber isso. Outra coisa é estar lá quando acontece. A «Trenches» abriu o concerto sem cerimónias. E o público reconheceu-a desde a primeira nota. Arrepios. O primeiro verso foi entoado em uníssono — não o tipo de sing-along ensaiado que algumas bandas fabricam, mas o espontâneo, o que acontece quando uma canção já pertence às pessoas que a ouvem. Mais arrepios.







E foi logo ali, nos primeiros segundos, que ficou claro o que esta noite ia ser. Alex Taylor nem precisou de pedir nada. Tomou o microfone e a sala veio ter com ele. O simpático Taylor, com quem falámos antes do concerto, é um daqueles vocalistas que não precisa de pedir nada ao público, mas que continua a fazê-lo com uma naturalidade desarmante. Há inúmeros apelos ao entusiasmo, há truques calculados para gerar reacção. Mas o que tmbém há, e muito, é presença — uma autoridade que se impõe de forma quase inevitável.
Ao lado do vocalista, os restantes quatro elementos dos MALEVOLENCE funcionam como um organismo calibrado por quase vinte anos de estrada. Sem gordura, sem hesitações. Cada riff e cada solo no sítio certo, cada transição executada com a naturalidade de quem já não pensa, apenas toca. A prová-lo, a «Life Sentence» chegou a seguir e transformou a plateia numa colisão organizada.
O pit abriu com uma violência controlada e os circle pits foram-se sucedendo sem pausas, alimentados por uma energia que parecia auto-sustentada — quanto mais a canção avançava, mais o público respondia, e quanto mais o público respondia, mais a banda empurrava. A «So Help Me God» trouxe volatilidade pura com uma fluidez que devia ser impossível, e o público sentiu tudo nas costelas.
A «Still Waters Run Deep» e a «Karma» aprofundaram o alinhamento — com esta última a arrancar uma das maiores reacções da noite, o tipo de resposta que confirma que certas canções crescem muito ao vivo. A «Self Supremacy» marcou presença com peso total também, e depois veio a «Higher Place».





Estrategicamente colocada a abrir a segunda metade do alinhamento, a canção funcionou como o que se esperava — um momento de calmaria deliberada, uma pausa que não era fraqueza mas inteligência. A sala respirou. O público acalmou. E nessa contenção repentina percebeu-se que os MALEVOLENCE sabem construir uma narrativa; pelo caminho, provaram que um momento de silêncio relativo pode ser tão poderoso como o riffs ou o breakdown mais pesado de sempre.
Sem pausas, a «Keep Your Distance» reacendeu tudo o que a «Higher Place» tinha deixado suspenso. E a partir daí o LAV entrou numa fase diferente — ainda mais intensa, mais física, mais colectiva. A «Serpent’s Chokehold» e a «On Broken Glass» sucederam-se como golpes sem pausas. E os sing-alongs desta última não foram uma participação educada — foram daqeles que só a música pesada consegue gerar nesta escala. E sim, também houve pancadaria, do tipo que acontece quando a energia não tem mais para onde ir e o corpo trata do assunto por conta própria.
Alheio a pormenores, o frontman dos MALEVOLENCE controlava o espaço com uma precisão que só se adquire com anos e anos de experiência — sabia quando apertar e quando soltar, quando deixar a plateia respirar e quando voltar a fechar o punho. Foi exactamente o que fez na «If It’s All the Same to You», que fechou a noite como devia ser fechada — com grandeza.




