MALEVOLENCE

MALEVOLENCE: “Temos muita vontade de voltar e ver o caos que conseguimos criar em Portugal” [entrevista]

Alex Taylor, vocalista dos MALEVOLENCE, fala de Lisboa, de produtores, de baladas e de porque é que Sheffield não cabe numa caixa. Já com quase duas décadas de estrada, os britânicos regressam a Portugal mais confiantes que nunca.

Há coisas que só se percebem ao vivo. A forma como uma cidade que nunca viu uma banda recebe essa banda pela primeira vez, por exemplo — sem precedentes, sem reservas, sem aquele peso sedimentado de uma cena que já viu de tudo. É assim que Alex Taylor, vocalista dos MALEVOLENCE, descreve a estreia da banda em Jacarta, poucos dias antes desta conversa: “A reacção foi absolutamente insana. Não sabia o que esperar, mas fiquei de boca aberta.”

As malezas provocadas jet lag ainda não passaram quando falamos via Zoom. Os músicos viajaram da Indonésia directamente para cumprirem os compromissos europeus, sem grande margem para respirar. Isso não é novidade, no entanto. Os MALEVOLENCE construíram o que são — uma das bandas de peso mais consistentes saídas do Reino Unido nos últimos anos — precisamente assim: sem parar.

Formados em Sheffield há 17 anos, cresceram com a ética do DIY gravada a fundo, fizeram da estrada a sua segunda natureza e, ao longo de cinco álbuns, recusaram sistematicamente deixar que alguém lhes pusesse um rótulo. Metal, hardcore, metalcore — Alex Taylor descarta tudo com a mesma indiferença de quem ouviu a pergunta demasiadas vezes. “Para mim é só música pesada, e sempre foi assim.”

O mais recente registo da banda, «Where Only the Truth Is Spoken», é o documento mais completo da sua evolução. Produzido pela primeira vez com um nome externo, Josh Wilbur (conhecido pelo trabalho com os LAMB OF GOD), o álbum mostrou-nos uns MALEVOLENCE mais confiantes, mais abertos, e ainda assim inconfundíveis. Em paralelo com o LP, lançaram «Silhouette», single autónomo que causou alguma surpresa — não pela polémica, mas pela ternura. Um milhão de visualizações depois, fica claro que os fãs foram mais rápidos a compreender do que até a própria banda esperava.

No próximo Sábado, 30 de Maio, o grupo actua no LAV — Lisboa ao Vivo, com o alinhamento renovado, novo material e a promessa de que a última visita a Portugal ainda não foi superada. “Temos uma base de fãs muito leal por aí”, diz Taylor. “Tenho muita vontade de voltar e ver o caos que conseguimos criar.” Os bilhetes para o concerto, que conta também com os belgas NASTY e os nacionais FEAR THE LORD como convidados especiais, custam 28€ e estão à venda em primeartists.eu e nos locais habituais.

Estiveram recentemente em Jacarta, não foi?
Sim, e os concertos foram muito bons… A Indonésia foi uma loucura!

Foi a primeira vez que tocaram lá?
Sim, foi primeira vez em Jacarta, e a primeira vez na Indonésia. A resposta do público foi absolutamente insana. Não sabia o que esperar e fiquei de boca aberta. É sempre algo especial tocar em lugares novos, principalmente naqueles onde não chegam muitos concertos de metal — as pessoas não estão saciadas, não há aquela indiferença que, às vezes, se sente noutros mercados.

Estão a explorar muitos territórios onde nunca tinham estado ates neste ciclo do novo álbum?
Não especialmente. Os concertos europeus deste Verão são sobretudo em sítios onde já tocámos várias vezes. No entanto, temos uma digressão pelo Canadá no final do ano, a apoiar os KILLSWITCH ENGAGE, e isso é um território bastante novo para nós enquanto banda a esse nível.

São já 17 anos de MALEVOLENCE, e um reputação construída palmo a palmo. Sentem que já cruzaram aquela linha entre serem a “next big thing” e uma banda verdadeiramente estabelecida?
Sim e não. Há sítios onde tocamos onde é óbvio que esse passo foi dado de uma forma significativa. Mas sinto que ainda há muito trabalho por fazer. Há lugares onde ainda não fomos, lugares onde já estivemos mas há muito tempo. Para ver sincero, nunca houve um objectivo final com os MALEVOLENCE. o principal objectivo sempre foi continuarmos a fazer aquilo que amamos — tocar em todo o mundo, ver o máximo possível. E ainda não chegámos lá.

Vistos de fora, os MALEVOLENCE parecem ser já bastante grandes.
Acredito, mas é exactamente essa mentalidade de “o que mais podemos fazer agora?” que nos mantém activos. Nos concertos que fizemos recentemente nos Estados Unidos, percebemos que estamos a fazer as coisas bem, mas não somos nem de perto tão grandes como no Reino Unido. Por isso continuamos a trabalhar, a espalhar a palavra, a ver até onde conseguimos chegar.

Quer dizer que não traçaram metas quando formaram a banda…
Honestamente? Não. Só queríamos sair da nossa cidade e ver o mundo. Nunca nos sentámos à volta de uma mesa a definir metas ou o que quer que fosse. Cada um de nós tem os seus objectivos individuais — tocar em certos festivais, apoiar certas bandas, chegar a certas cidades. No entano, como grupo, como os MALEVOELNCE, o objectivo sempre foi apenas tocar música pesada e, com sorte, conseguir viver disso.

Tinhas estado noutras bandas antes de criarem os MALEVOLENCE?
Estive numa banda local por um curto período de tempo, mas não era nada de especial. Por isso, sim — os MALEVOELNCE foram primeiro projecto real em que estive envolvido, e está a funcionar. Já estamos há 17 anos a fazer isto. É, basicamente, toda a minha vida adulta passada nesta banda.

Alguma vez imaginariam durar tanto tempo?
Não. No entanto, as coisas acontecem. A vida leva-te para certos caminhos. Enquanto todos estivermos a gostar do que estamos a fazer, continuamos em frente. É assim tão simples.

O «Where Only The Truth Is Spoken» suscitou reacções bastante fortes. Ficaram surpreendidos
Trabalhámos muito nesse disco. [pausa] E foi um processo estranho, porque… Gravámos tudo e, depois, ficámos sentados sobre ele durante um ano, à espera do lançamento, enquanto a editora trata do vinil e de tudo o resto — toda aquela burocracia chata.

Quando finalmente saiu e comecei finalmente a ver as pessoas a reagirem, a abraçarem o que passámos três ou quatro anos a fazer, foi uma sensação muito boa. E sinto que ainda estamos a ver o álbum crescer. Há canções que agora têm mais peso ao vivo, há mais pessoas a saber as letras. Ainda está a acontecer.

Porque é que o processo de lançamento demorou tanto?
É o funcionamento da máquina. O disco tem de ser misturado, masterizado, o vinil tem de ser fabricado, e o aparelho em volta de tudo isso precisa do seu tempo. Mas o intervalo entre este álbum e o anterior não foi assim tão longo como noutros casos.

Este foi o primeiro disco que fizeram com um produtor externo, certo? O Josh Wilbur.
Sim. O Josh trabalhou com os LAMB OF GOD e uma série de outras bandas famosas. Foi a nossa primeira experiência a trabalhar com alguém de fora, sabes? E foi óptimo. Tornou todo o processo mais divertido, especialmente para mim. Às vezes fazer um álbum pode parecer um peso, um “temos de fazer um álbum outra vez“. Desta vez não houve nada disso. O Josh foi incrivelmente aberto a todas as nossas ideias e, na verdade, trouxe muita coisa à mesa também.

Vindo de um background tão DIY, não foi difícil para vocês abrirem essa porta a alguém de fora?Quisemos simplesmente experimentar. Temos 17 anos de banda, este é o nosso quinto álbum, por isso queríamos ver o que mais podíamos fazer. E estou muito contente por termos arriscado, porque sinto que resultou num álbum muito sólido. Temos sempre de nos empurrar para fora da zona de conforto. E trabalhar com alguém exterior foi exactamente isso. Aprendemos muito — sobre como trabalhar uns com os outros, como comunicar ideias, como ceder quando é preciso.

Antes de começar, havia algum receio de perder liberdade criativa?
Sim, havia um pouco. Mas desapareceu assim que o conhecemos e percebemos como era trabalhar com ele. Não é ele a ditar o que devemos fazer — é um trabalho de equipa. Ele trouxe ideias novas. E, para ser muito incero, esse receio não durou muito.

O que é que ele trouxe de concreto para o disco?
Para mim, em termos de letras, foi muito importante ter alguém que me desse espaço para experimentar. Se estivesse preso numa parte, se não conseguisse exprimir realmente o que queria dizer, ter uma pessoa de fora para trocar ideias foi fundamental. Dentro dos MALEVOLENCE, às vezes matamos uma ideia antes de ter sequer hipótese de crescer — é automático quando trabalhas com as mesmas pessoas há 17 anos. O Josh funcionou como um mediador: antes de descartar, incentivou-nos a tentar.

A «Silhouette» foi uma surpresa — um single mais suave, separado do álbum. Como surgiu?
Essa canção já existia como demo há alguns anos. Quando estávamos a escolher as faixas para o álbum, ficou de fora porque sentimos que já tínhamos chegado à quota de canções mais suaves no disco. Mas sabíamos que era boa o suficiente para ser lançada. Acabou por ser um single autónomo… Filmámos o vídeo-clip num dia e estou muito orgulhoso do resultado. É algo diferente, um passo fora da nossa zona de conforto.

Como foi a reacção da vossa base de fãs?
Muito boa. O vídeo já vai num milhão de visualizações. Estávamos um pouco nervosos, não vou mentir — com medo que as pessoas dissessem que era demasiado suave. Mas não houve nada disso. Nunca houve ódio. Escrevemos a música que queremos escrever. Se as pessoas não gostarem, não é problema meu — mas se gostarem, fico muito grato.

Os MALEVOLENCE nunca couberam numa caixa. Essa recusa a classificações foi sempre intencional
Sim, sempre foi assim. Se ouvires as nossas canções mais antigas, havia poucas bandas com aquele som na época — porque estávamos a escrever a música que queríamos ouvir. Bebemos de tantos géneros do som pesado que seria desonesto reduzirmo-nos a uma etiqueta. Metal, hardcore, metalcore — não me importo com nenhum desses rótulos. As pessoas podem chamar-nos o que quiserem.

Os públicos mais jovens também parecem mais abertos. Os miúdos de hoje não fazem drama por uma banda misturar hip-hop com metal.
Exactamente. E isso é uma coisa muito boa. Olha para artistas de outros géneros — pega no Drake, que pode fazer um álbum de rap, um de R&B, um de afrobeat. As bandas que resistem ao tempo são aquelas que experimentam, mudam e se reinventam. É isso que nós queremos fazer. Toda a gente sabe que os MALEVOLENCE conseguem escrever canções muito pesadas — e que conseguem escrever uma balada que faz chorar. A questão é saber equilibrar as duas coisas dentro de uma canção, dentro de um disco.

Achas que o acesso facilitado à música, o streaming, as redes sociais, explica a abertura do público?
Talvez. A internet dá-te acesso a cinco bandas novas num dia, e amanhã podem ser as tuas favoritas. Mas sinto que há outra coisa: agora há tanto crossover entre géneros, tanta fusão, que as pessoas deixaram de se preocupar com classificações e passaram a perguntar-se apenas como podem apoiar uma banda. E as redes sociais fazem parte disso — quando vais ao Instagram de uma banda e percebes quem são como pessoas, investes mais. Não é só a música, é a identidade.

Para terminar — o que podem os fãs esperar do vosso concerto em Lisboa?
Um alinhamento completamente novo, muitas canções novas, alguns dos clássicos. Vai ser a primeira vez que tocamos muito deste material em Portugal. A última vez que aí estivemos foi absolutamente louco, e tenho muita vontade de voltar. Temos uma base de fãs muito leal em Portugal — e sinto que já se passou tempo demais desde a última visita. Quero ver até que ponto conseguimos incitar o caos.