Três décadas depois de terem colocado Portugal no mapa do metal europeu, os MOONSPELL estreiam o tema que abre «Far From God», que chega a 3 de Julho com apresentações ao vivo em Sintra e no Porto ainda este ano.
Há bandas que envelhecem. E há bandas que amadurecem. Os muito alogiados MOONSPELL pertencem, inequivocamente, a esta segunda categoria — e «Cross Your Heart», tema que inaugura o seu aguardado 14.º álbum de estúdio, chega como prova disso mesmo. O single não é uma concessão. Não é um aceno calculado ao mercado nem uma fórmula repetida por hábito. É uma declaração de princípios sonoros: metal gótico na sua forma mais densa e comprometida, construída com a convicção de quem sabe que ainda tem algo a dizer — e que esse algo importa.
«Far From God», o novo álbum dos MOONSPELL, não nasceu de um ímpeto fácil: resulta de cinco anos de procura criativa, dúvida e redescoberta — um regresso marcado por uma profundidade emocional que a banda não havia atingido desta forma há muito tempo.
Fernando Ribeiro, voz e rosto do grupo há mais de três décadas, não esconde o peso desse percurso: “Para criar o «Far From God», tivemos de esperar pela musa. Mais uma vez, ela não nos falhou e revelou-se-nos das formas mais misteriosas e belas. Levámos cinco longos anos de tentativas e erros, de desespero ao ponto de pensarmos que já não éramos capazes e por que razão deveríamos sequer criar nova música. Mas estou contente por termos persistido.”
É um discurso de rara honestidade para uma banda da dimensão dos MOONSPELL— e precisamente por isso ressoa com uma autenticidade que poucos comunicados de imprensa conseguem fabricar.
Quanto ao novo single, o cantor dos MOONSPELL explica que “«Cross Your Heart» é um tema de estrada, directamente inspirado numa vida passada a viajar e a ver muita coisa a acontecer dia e noite, sem parar. Quando cruzamos Portugal e lá fora, vemos flores e cruzes nas bermas, sinais de que ali alguém morreu.
Uma vida, muitas vidas, infelizmente jovens, tomados pela vertigem da velocidade, do álcool, da distracção. Num país em que se morre tanto na estrada, esta canção é o pequeno alerta e a profunda homenagem a essa ‘guerra civil’ no asfalto onde nos tornamos a pior versão de nós mesmos. Musicalmente, continua a missão de pintar de gótico o nosso metal, com melodia e densidade.”
Tematicamente, «Far From God» também não teme os seus próprios fantasmas. O disco percorre o amor baudelaireano, a culpa existencial, a redenção, ressurreições cristãs e a nobreza silenciosa das criaturas da noite. Os vampiros e lobisomens não surgem aqui apenas como adereços de género, mas como veículos para emoções genuinamente sombrias — solenes, românticas e sem filtros.
É uma posição estética deliberada. O álbum rejeita explicitamente o brilho artificial que tem colonizado uma parte significativa do metal gótico contemporâneo, apostando numa fantasia que é fundamentada pela sinceridade emocional.
Fernando Ribeiro é, de resto, directo na sua missão: “O «Far From God» é uma verdadeira cruzada contra o declínio deste estilo nos últimos anos, uma afirmação sombriamente trabalhada de que os MOONSPELL estão aqui para ficar e para reclamar o seu próprio trono. Sem política, sem redes sociais, sem intervenção, apenas amor romântico doentio, vampiros, lobisomens para que possamos todos morrer de beleza, em paz e elegância.”
O álbum foi produzido com Jaime Gomez Arellano — responsável por registos com os Paradise Lost, os Sólstafir e os Ghost, entre outros — e apresenta-se como um disco que procura conciliar o espírito mais sombrio da era clássica dos MOONSPELL com um som simultaneamente poderoso e contemporâneo.
A comparação com o «Irreligious» — o segundo álbum da banda, editado em 1996 e pedra angular do metal gótico europeu — tem circulado nos corredores da cena desde que os primeiros ouvintes tiveram acesso ao material. O próprio Fernando tinha partilhado essa leitura durante uma sessão de perguntas e respostas na página de Instagram da banda, admitindo que as pessoas que ouviram o disco o descrevem como o «Irreligious» do século XXI. A afirmação, neste caso, não soa leviana, mas também não parece ser uma fanfarrice: é uma balizagem do que está em causa.
Como noticiado anteriormente, etse regresso da banda não fica pelo plano discográfico. «Far From God» será apresentado ao vivo em dois momentos distintos no território nacional: primeiro em Sintra, a 12 de Setembro, e depois no Porto, a 31 de Outubro — data que, para os MOONSPELL, adquire um significado quase litúrgico. O Halloween Invicto é, neste contexto, muito mais que uma coincidência de calendário.
A banda tem, aliás, mantido uma presença ao vivo consistente e marcante em Portugal: em Outubro de 2024, realizaram o primeiro concerto sinfónico da sua carreira, o Opus Diabolicum, na MEO Arena, em Lisboa, num evento que ficou registado na história da música portuguesa. O novo ciclo que agora se abre parece querer elevar ainda mais essa fasquia. O novo álbum dos MOONSPELL está em pré-venda, com várias edições físicas disponíveis, incluindo uma caixa de madeira numerada.





