Depois de perder dois terços dos membros, os THE OCEAN regressam com formação expandida e música nova. «Light Pollution» é o primeiro single de avanço para «Solaris», o novo LP da banda liderada por Robin Staps.
Há bandas que não sobrevivem a uma baixa. Os THE OCEAN perderam quase toda a sua formação. E respondem com o álbum mais ambicioso dos seus 25 anos de existência. Entre 2022 e 2025, o grupo berlinense que redefiniu os contornos do post-metal viu partir dois terços dos seus elementos, com a formação que gravou os aclamados «Phanerozoic I», «Phanerozoic II» e «Holocene» a despedir-se da sua base de fãs com uma actuação triunfal no Hellfest no ano passado.
Do núcleo que sustentou mais de uma década de coesão criativa, restaram só três: o guitarrista fundador, compositor e letrista Robin Staps, o baixista Mattias Hägerstrand e o novo baterista Jordi Farré, também membro dos CRIPPLED BLACK PHOENIX. Seria o fim natural de um ciclo. Não foi.
«Solaris» — o 12.º álbum de estúdio dos THE OCEAN — chega anunciado como o capítulo mais ousado de toda a discografia do colectivo. Com quase 70 minutos de duração, parte de uma premissa conceptual de rara envergadura: o filme homónimo de 1972 do realizador soviético Andrei Tarkovski, obra-prima do cinema de ficção científica, que ainda é um dos mais perturbadores e prundos estudos cinematográficos sobre memória, consciência e os limites do conhecimento humano.
O primeiro single do álbum, «Light Pollution», é também a primeira janela para este o novo universo dos THE OCEAN. A faixa abre com texturas de sintetizador que estabelecem uma continuidade orgânica com «Holocene», antes de ganhar corpo e desviar-se progressivamente para território menos familiar. Depois, o desfecho é monumental: uma fusão de grandiosidade orquestral, peso bem sufocante e complexidade rítmica contida que cresce em câmara lenta até se tornar insuportavelmente bela.
Convenhamos, os THE OCEAN sempre operaram ali na confluência entre a devastação sonora e o rigor intelectual, com LPs estruturados como tratados geológicos, filosóficos ou evolutivos. está bem de ver que com o novo «Solaris», esta tendência atinge um novo patamar. Para preencher o vazio deixado pela saída do vocalista Loïc Rossetti, Robin Staps recrutou não um, mas dois novos cantores: Enrico Tiberi e Lane Shi, dos norte-americanos ELIZABETH COLOUR WHEEL e OTAY:ONII. Nas guitarras, juntaram-se Emmanuel Jessua, dos franceses HYPNO5E, e Marco Gennaro. Uma renovação quase total — mas com a espinha dorsal intacta.
Em «Light Pollution», Enrico Tiberi interpreta a secção inicial. Tematicamente, a canção orbita — e aqui a palavra é mesmo precisa — em torno das armadilhas da tecnologia contemporânea e de uma crescente obsessão da humanidade com a realidade simulada. O conceito de movimento orbital não é aqui apenas astronómico: remete igualmente para cenas iniciais do filme de Tarkovski, onde o movimento orbital da água — as trajectórias circulares das partículas durante a passagem de ondas — transfere energia sem deslocar a água em si. Um ciclo que progride sem avançar.
“Assistimos a várias revoluções comunicacionais ao longo dos séculos XX e XXI, mas teremos melhorado a nossa forma de comunicar?“, questiona o líder dos THE OCEAN. “Houve realmente movimento para a frente, ou foi o movimento orbital — temo-nos limitado a treinar água? A poluição luminosa simboliza a transparência da era pós-moderna, que tudo e todos penetra. Tudo está constantemente visível; perdemos a escuridão onde esconder-nos, e com o clarão implacável da comunicação, perdemos também a nossa privacidade.“
Para o vídeo-clip de «Light Pollution», THE OCEAN chamaram o realizador Craig Murray — responsável por trabalhos visuais para MOGWAI e CONVERGE —, que construiu uma narrativa que integra a chegada dos dois novos vocalistas com o conteúdo lírico da faixa. O resultado, segundo os próprios músicos, eleva o acompanhamento visual a uma dimensão cinematográfica.
“O Craig é um exército de um homem só“, descreve Staps. “Cada detalhe do filme existe na sua cabeça antes de começar a rodar; tem esboços desenhados à mão de cada cena. Levanta-se às 06:30 para fazer moldes, filmar e realizar, e ainda está acordado às 02:00 da manhã a colar tentáculos ou a espalhar lama e areia pelos rostos. É uma máquina.“
A ambição de «Solaris» reflecte-se também nas colaborações convocadas para a sua produção. Thorsten Quaeschning, membro histórico dos TANGERINE DREAM, contribuiu com sintetizadores modulares — a sua presença acaba por conferir ao LP uma dimensão onírica que dialoga directamente com as paisagens electrónicas do filme que o inspirou. A mistura e masterização ficaram a cargo do sueco Jens Bogren, que já tinha trabalhado com os THE OCEAN nos seminais «Pelagial» e nos dois «Phanerozoic» — um retorno que assegura continuidade técnica e sonora num álbum que, em tudo o resto, representa uma ruptura.
«Solaris» só chega a 25 de Setembro, mas o alcance do que este novo single anuncia é inconfundível: os THE OCEAN não se limitaram a sobreviver à tempestade; regressaram com a obra mais completa, mais corajosa e mais carregada de sentido que alguma vez colocaram no mundo. Em baixo já podes conferir a capa e o alinhamento completo do disco, as pré-encomendas dos formatos físicos estão disponíveis via Pelagic Records.

01. 52°30’11” N, 13°26’12” E | 02. Departure Song | 03. Light Pollution | 04. Simulacra | 05. Belligerence | 06. Ultima Esperanza | 07. Milk Of My Dreams | 08. 51°28’30” S, 73°6’11” W




