Numa noite sem bandas de abertura ou quaisquer distracções, o LAV – Lisboa Ao Vivo rendeu-se totalmente aos inegável charme dos MACHINE HEAD.
Há concertos que cumprem o que prometem. Há outros que excedem qualquer expectativa razoável. E há aqueles raros em que a distância entre o palco e a plateia desaparece quase por completo — em que o suor, o volume e a cumplicidade se fundem numa única experiência. Ontem, dia 28 de Abril, à noite, o concerto dos MACHINE HEAD no LAV – Lisboa ao Vivo pertenceu inequivocamente a essa terceira categoria, mesmo que o caminho até lá não tenha sido linear.
Os bilhetes tinham esgotado há meses, sendo a última vez que a banda pisou em Lisboa foi há dois anos, como parte do alinhamento do primeiro dia da edição de 2024 do EVILLIVƎ FESTIVAL — um contexto radicalmente diferente, com cartaz partilhado, horários rígidos e o compromisso inevitável de quem toca num festival. Esta noite era outra coisa. Outra escala, outra intenção, outra relação com o tempo.
A digressão An Evening With MACHINE HEAD foi concebida precisamente para isso: retirar a banda dos grandes pavilhões e de potenciais cartazes sobrepovoados, e devolvê-la a salas onde o contacto é directo, o volume é físico e não há nada a partilhar com outras bandas — nem o palco, nem a noite, nem a atenção do público.
Antes de Robb Flynn e companhia tomarem o palco de assalto, ouviu-se uma boa selecção de metal dos 90s através do PA e, já a anteceder a intro «In Comes The Blood», soou a «Bohemian Rhapsody», dos QUEEN. A intenção era legível — criar um momento de comunhão espontânea que, noutros contextos, já produziu cenas memoráveis. Nesta ocasião, o público correspondeu com maior ou menor entusiasmo, conforme a zona da sala e o estado de aquecimento de cada um. Talvez não tenha sido o momento de epifania colectiva que se desejava, mas certamente cumpriu a função de elevar a temperatura antes do verdadeiro início do espectáculo.
Às 21:00 em ponto, as luzes apagaram-se. O rugido que se seguiu foi desproporcional à dimensão da sala — e isso, por si só, já dizia tudo sobre a natureza desta noite. O regresso da luminosidade revelou um palco decorado como manda a liturgia do metal moderno – um grande ecrã no fundo, duas torres de LED laterais e uma longa faixa luminosa por baixo do estrado da bateria. Funcional, eficaz, sem excessos. Afinal, ao invés de outras bandas, no caso dos MACHINE HEAD o aparato visual estava ali apenas para servir a música, não o contrário.









Convenhamos, os MACHINE HEAD têm no seu arsenal vários candidatos a abertura de concerto. Ao longo de mais de três décadas, construíram um catálogo onde não faltam faixas com a gravidade e a urgência necessárias para dar o tiro de partida para uma noite memorável. Ainda assim, continuam a regressar a «Imperium», o tema que abre «Through The Ashes Of Empires», e é difícil argumentar contra essa escolha. Há algo naquele riff inicial — naquela promessa cumprida de peso e velocidade em simultâneo — que funciona como uma declaração de princípios. Percebeu-se de imediato que esta noite não ia ser fácil. Não ia ser curta. Seria isto durante quase três horas. Intensidade ao rubro.
Verdade seja dita, o impacto de um tema depende sempre de variáveis que escapam à vontade da banda. O som nos primeiros minutos de qualquer concerto é um organismo instável, e a abertura em Lisboa não foi excepção. O médio grave andou à procura do seu lugar, o baixo de Jared MacEachern ficou enterrado na mistura mais tempo do que seria desejável, e a articulação entre as duas guitarras ficou a perder alguma clareza nos momentos de maior densidade. «Ten Ton Hammer», que se seguiu imediatamente, empurrou tudo com mais força.
O som foi melhorando progressivamente, e com ele a intensidade da noite foi crescendo. «CHØKE ØN THE ASHES ØF YØUR HATE» beneficiou de uma mistura mais equilibrada e, inspirando um enorme circle pit, mostrou que o álbum mais recente da banda tem uma presença ao vivo que os registos de estúdio nem sempre deixam antever. Seguiram-se «Now We Die» e «Crashing Around You», antes da noite ganhar uma outra dimensão com «The Blood, The Sweat, The Tears» e «Is There Anybody Out There?» — dois temas que a sala conhecia bem e reclamou com a convicção de quem espera por eles desde que entrou.
Foi mais ou menos a partir desta sequência que a força de MacEachern se tornou inegável. O baixista e vocalista de apoio é um dos activos menos discutidos dos MACHINE HEAD modernos: desde que entrou em 2013, conferiu à banda uma segunda voz que amplia consideravelmente a dinâmica dos concertos. Mais discretos, mas não menos competentes, Reece Scrugs na guitarra e o baterista Matt Alston completaram uma estrutura rítmica inegavelmente sólida, e a que ninguém pode apontar defeitos.
Flynn, esse, é um caso à parte. Há uma qualidade de sobrevivente em tudo o que faz — em palco, na forma como fala com o público, na maneira como transforma cada obstáculo num momento de cumplicidade. Os truques são já bem conhecidos, foram usados centenas de vezes em centenas de palcos e salas, mas continuam a funcionar com uma eficácia desconcertante. Numa era em que largas fatias do público parecem mais interessadas em documentar do que em participar, este tipo de direcção activa pode parecer anacrónica — mas é, de facto, necessária, e o estratega dos MACHINE HEAD executa-a com uma autoridade que raramente encontra resistência.
A primeira surpresa da noite chegou com «Rage To Overcome» — mas não apenas pelo tema em si. Antes de o atacarem, Flynn e companhia improvisaram alguns compassos de «Seven Nation Army», dos WHITE STRIPES, numa daquelas referências à omnipresente adaptação que tomou conta dos estádios de futebol e que, nos últimos anos, se tornou um fenómeno cultural em si mesmo. O momento, depois repetido várias vezes pelo vocalist ao longo da actuação, foi recebido com gáudio geral — o tipo de desvio que só funciona quando a sala já está entregue, e estava.


«UNHALLØWED», «This Is The End» e «Slaughter The Martyr» saíram-se melhor do que o material poderia sugerir em abstracto; ao vivo, e com o volume certo e a plateia certa, ganham uma urgência que o estúdio não lhes conseguiu dar por completo. Ainda assim, a fase central do concerto acusou uma quebra de intensidade — inevitável, talvez, num concerto de quase três horas, mas perceptível para quem estava atento ao pulso da sala. A energia baixou, a temperatura desceu ligeiramente, e houve momentos em que o LAV pareceu estar à espera que a banda decidisse em que direcção queria ir.
A decisão, quando chegou, fez-se ouvir com bastante potência. «Blood For Blood» abriu uma sequência sempre em crescendo, que incluiu ainda «Game Over», «Old», «Outsider», «Locust» e «BØNESCRAPER». A seguir, numa noite construída sobre riffs de aço e volume que se sente no peito, o momento mais inesperado chegou com guitarras acústicas: Flynn e MacEachern tocaram «Circle The Drain» e «Darkness Within» em versões totalmente acústicas, sendo que a mudança foi abrupta o suficiente para criar silêncio genuíno numa sala até aí em ebulição permanente. Apesar da quebra de ritmo, foi nesse momentos que se percebeu realmente a dimensão do catálogo dos MACHINE HEAD — e a sua versatilidade.
Convenhamos, uma banda que consegue suspender o tempo com duas guitarras acústicas, depois de uma hora de metal de alta intensidade, sem que a transição pareça forçada ou demasiado calculada, tem algo que vai muito além da competência técnica. Tem autoridade. E Robb Flynn, com a voz já a mostrar os primeiros sinais de esforço acumulado, encontrou em Jared MacEachern o suporte que a sequência exigia.
A electricidade regressou com «Catharsis», o tema-título do álbum mais divisivo da carreira da banda, que se revelou uma escolha acertada para representar esse período conturbado; «Bulldozer», de «Supercharger», deu à sala uma energia mais crua, que a plateia absorveu com satisfação; e «From This Day», a terceira do muito subestimado «The Burning Red», serviu de rampa de lançamento perfeita para o fecho obrigatório — e foi também o sinal de que a intensidade estava de volta na recta, de forma muito significativa, depois da fase mais morna do meio da noite.
«Davidian» e «Halo» soaram sublimes. Não há outra forma de acabar. Não há alternativa credível. São os dois temas com os quais os MACHINE HEAD encerram concertos há décadas, e há nessa repetição uma espécie de ritual que o público reclama e a banda honra. A «Davidian» — com o seu “Let freedom ring with a shotgun blast!” transformado em coro colectivo — continua a ser um dos momentos mais viscerais do metal ao vivo, daqueles em que a distinção entre o palco e a sala perde qualquer sentido prático. Em Lisboa, não foi diferente.









Em jeito de rodapé: um dos paradoxos do formato An Evening With é que, ao dar à banda liberdade para explorar o catálogo em profundidade, expõe também as escolhas que ficaram por fazer. Esta digressão europeia tem privilegiado um alinhamento que, sendo extenso e variado, tende a gravitar para o seguro. Os onze álbuns de estúdio estiveram todos representados — um feito considerável, e em si mesmo um argumento para a consistência da discografia —, mas há temas que continuam à espera do seu momento ao vivo: «My Misery», «Night Of Long Knives» ou «Silver» são apenas alguns dos títulos que os fãs mais dedicados têm o direito de continuar a reclamar a cada nova digressão.
E isto nem é uma crítica grave, porque uma banda que consegue preencher mais de duas horas e meia exclusivamente com “escolhas seguras” tem um problema invejável. O potencial do formato, porém, sugeria uma ambição que o alinhamento desta noite não cumpriu por inteiro.
Pese isso, no final uma coisa tornou-se clara: os MACHINE HEAD são, provavelmente, incapazes de dar um mau concerto. O que, nste caso, é tanto um elogio como uma constatação — Robb Flynn sabe exactamente o que é, o que a sua banda representa e o que o público precisa de sentir quando sai de um concerto. Estas An Evening With são, feitas todas as contas, a expressão mais honesta dessa consciência: sem rede, sem bandas de apoio, sem partilhar o cartaz com mais ninguém. Foram apenas os MACHINE HEAD, volume alto e quase três horas de música para provar que trinta anos de carreira não pesam — sustentam uma carreira invejável.
ALINHAMENTO: Imperium | Ten Ton Hammer | CHØKE ØN THE ASHES ØF YØUR HATE | Now We Die | Crashing Around You | The Blood, The Sweat, The Tears | Is There Anybody Out There? | Rage To Overcome | UNHALLØWED | This Is The End | Slaughter The Martyr | Blood For Blood | Game Over | Old | Outsider | Locust | BØNESCRAPER | Circle The Drain | Darkness Within | Catharsis | Bullldozer | From This Day | Davidian | Halo



