JUDAS PRIEST

JUDAS PRIEST: IAN HILL retira-se após 57 anos

De forma totalmente inesperada, o baixista fundador dos gigantes britânicos JUDAS PRIEST decidiu abandonar de vez os palcos.

Chega ao fim uma das mais duradouras ligações entre um músico e uma banda na história do heavy metal. O Sr. Ian Hill, baixista fundador dos JUDAS PRIEST, anunciou a sua retirada após 57 anos ao serviço do grupo britânico, justificando a decisão com o agravamento de vários problemas de saúde que começaram a comprometer a sua capacidade de tocar ao vivo. Para ocupar o seu lugar, a banda confirmou Davey Rimmer, conhecido sobretudo pelo trabalho desenvolvido com os URIAH HEEP, que já tinha sido chamado a substituir Hill durante algumas datas da mais recente digressão europeia do grupo.

A decisão representa uma enorme mudança histórica para os JUDAS PRIEST. Desde os primeiros tempos do grupo, formado em Birmingham em 1969, Ian Hill permaneceu como o único membro fundador ainda presente na formação, atravessando diferentes épocas, mudanças de músicos e transformações profundas na história do metal. A sua saída assinala, por isso, o encerramento de um capítulo que acompanhou praticamente toda a existência da banda.

Numa mensagem emotiva, os JUDAS PRIEST reconheceram a importância do baixista para a identidade do grupo e desejaram-lhe o melhor nesta nova etapa da vida. “É com o coração pesado que partilhamos esta mensagem pessoal do nosso Ian… Foi durante tanto tempo a espinha dorsal dos JUDAS PRIEST e fará muita falta a todos nós. Desejamos-lhe o melhor nesta reforma e damos as boas-vindas ao Davey na família Priest“, escreveram os músicos.

Na declaração em que explica a sua saída de cena, Ian Hill recorda que sempre teve uma resposta bastante simples quando lhe perguntavam durante quanto tempo conseguiria continuar a tocar: enquanto as suas prestações não fossem prejudicadas. Agora, admite que chegou ao momento que durante tanto tempo procurou adiar. “Detesto ter de o dizer, mas esse momento chegou por fim“, confessa o músico, revelando que tem enfrentado há vários anos uma artrite progressiva, entretanto em estado avançado no ombro esquerdo e na mão direita, presente também no ombro direito e em ambos os joelhos.

Hill explica que tem tentado controlar os problemas através de analgésicos, géis e, mais recentemente, infiltrações de cortisona no ombro e na mão. Apesar destes tratamentos, a situação agravou-se ao ponto de levantar sérias dúvidas sobre a sua capacidade para completar os concertos da mais recente digressão europeia dos JUDAS PRIEST.

O baixista revelou ainda que chegou a gravar as linhas de baixo para o próximo álbum da banda, demonstrando que os problemas físicos não o impediram de continuar a trabalhar em estúdio. A situação era, contudo, bastante diferente em palco, onde a exigência física de um concerto completo se tornou cada vez mais difícil de conciliar com as limitações do seu estado de saúde. A gravidade do problema ficou particularmente evidente durante a passagem do grupo por Bruxelas. Dois dias antes do espectáculo de Londres, Hill sofreu uma rotura de um tendão no ombro esquerdo, pouco antes dos encores, ficando incapaz de levantar o braço o suficiente para alcançar o braço do instrumento.

O músico já tinha sido observado por especialistas, que consideraram a possibilidade de evitar uma intervenção cirúrgica. Ainda assim, mesmo que a operação não venha a ser necessária, não há qualquer garantia de que recupere a força necessária para voltar a suportar um espetáculo completo. Perante este cenário, Hill decidiu colocar um ponto final na sua carreira ao vivo. A decisão foi também motivada pela vontade de recuperar o tempo passado longe da família durante quase seis décadas de dedicação à banda.

“Durante cinquenta e sete anos, negligenciei a minha vida familiar. Decidi retirar-me para passar os anos que me restam a compensar esse tempo e a fazer coisas com a minha família, antes que um deles tenha de me empurrar numa cadeira de rodas“, explicou, com uma franqueza que deixa clara a dimensão pessoal de uma escolha que ultrapassa as dificuldades em continuar a tocar com os JUDAS PRIEST.

A entrada de Davey Rimmer não surge como uma decisão de última hora. Já bem onscientes das dificuldades físicas que Ian Hill enfrentava, os JUDAS PRIEST tinham pedido ao baixista dos URIAH HEEP que aprendesse o alinhamento da tour, de forma a poder intervir caso o músico fundador fosse obrigado a abandonar algum concerto.

Foi precisamente isso que aconteceu a 21 de Setembro, quando os JUDAS PRIEST subiram ao palco do Eventim Apollo, em Londres, sem Hill. O concerto, que encerrou a digressão europeia Faithkeepers de 2026, acabou por proporcionar a Rimmer a oportunidade de assumir as funções de baixista perante o público, depois de ter sido chamado para a substituição devido à lesão sofrida em Bruxelas.

Segundo o próprio Ian Hill, o músico respondeu de forma exemplar ao desafio, preparando-se com pouco tempo de antecedência e assegurando a sua participação no espetáculo. A experiência acabou por confirmar a escolha que a banda viria agora a oficializar. “O Davey é um grande baixista e uma pessoa genuinamente porreira, que se vai integrar perfeitamente na função. Desejo-lhe toda a sorte do mundo!“, afirma Hill, identificando o sucessor como a escolha natural para dar continuidade ao trabalho desenvolvido ao longo das últimas décadas.

Além da ligação aos URIAH HEEP, Rimmer integra também os ELEGANT WEAPONS, projecto que conta com o guitarrista Richie Faulkner, o vocalista Ronnie Romero, conhecido pelo seu trabalho com os RAINBOW e os MSG, e ainda o baterista Christopher Williams, dos ACCEPT. Essa proximidade musical com o universo da banda britânica contribui para tornar a transição particularmente natural.

A saída de Ian Hill tem um peso especial quando se considera a história dos JUDAS PRIEST e a forma como a sua formação evoluiu desde os primeiros anos. O baixista foi uma presença constante enquanto o grupo se afirmava como uma das forças determinantes do heavy metal, sobrevivendo a sucessivas mudanças de músicos e acompanhando a construção de um legado que ultrapassou largamente as fronteiras do Reino Unido.

Rob Halford juntou-se à banda em 1973, enquanto Glenn Tipton entrou em 1974. Halford acabaria por abandonar o grupo no início da década de 1990, regressando em 2003. Já o guitarrista K.K. Downing, outro dos nomes fundamentais da história dos JUDAS PRIEST, saiu em 2011, sendo substituído por Richie Faulkner. Ao longo de todas estas transformações e mudanças, Ian Hill permaneceu no seu posto, tornando-se o elo de ligação mais duradouro entre a formação original e todas as encarnações que se seguiram. A sua saída significa que, pela primeira vez na história do grupo, nenhum dos músicos fundadores continua a integrar a formação.

Aos 57 anos de percurso com os JUDAS PRIEST, o baixista despede-se dos palcos sem esconder a enorme gratidão pela vida que a música lhe proporcionou. “Não há um único dia em que não agradeça pela incrível viagem que vivi. Resta-me dizer que vos amo a todos e agradecer-vos pela vida que me permitiram viver“, escreveu na mensagem de despedida.

Para os fãs, a retirada de Ian Hill representa o fim de uma presença que parecia inseparável dos JUDAS PRIEST. Para o músico, porém, chegou a altura de colocar a saúde e a família em primeiro lugar, depois de quase seis décadas dedicadas a uma das bandas mais importantes e influentes da história do metal.