Para ouvir na íntegra! Com três temas inéditos e uma aproximação assumida às raízes do black metal, os norte-americanos DEAFHEAVEN regressam com «At Work In The Fields Of The Bomb», um lançamento-surpresa que explora o lado mais sombrio da natureza humana e a banalidade que pode esconder-se por detrás de uma catástrofe nuclear.
Os DEAFHEAVEN voltaram a surpreender os fãs com a edição inesperada de «At Work In The Fields Of The Bomb», um novo registo de três temas que promete mostrar uma das facetas mais extremas do colectivo de São Francisco. Conhecidos por cruzarem a agressividade do black metal com a dimensão atmosférica do shoegaze, os músicos apresentam agora um disco que, segundo o guitarrista Kerry McCoy, representa a abordagem mais pesada que alguma vez levaram para estúdio.
A chegada deste lançamento não aconteceu, contudo, sem alguns sinais prévios. Durante as últimas semanas, os DEAFHEAVEN começaram a disponibilizar exemplares do EP antecipadamente e aproveitaram os concertos mais recentes para apresentar ao vivo material inédito. Ainda assim, a edição oficial de «At Work In The Fields Of The Bomb», que já pode ser escutado na íntegra no player em baixo, acaba por funcionar como uma surpresa para quem aguardava novidades discográficas do grupo.
Numa entrevista concedida à Binaural no mês passado, McCoy não deixou grandes dúvidas quanto à direcção musical escolhida para este regresso. “É a coisa mais pesada que alguma vez editámos“, afirmou o guitarrista, acrescentando que este novo trabalho é também “o mais próximo que alguma vez” estiveram “do black metal“. A ideia já apontava para uma abordagem particularmente incisiva por parte de uma banda que, ao longo dos anos, construiu uma identidade própria precisamente através da tensão entre a violência sonora e as passagens mais expansivas e melódicas.
Com este lançamento, os DEAFHEAVEN parecem querer explorar de forma mais directa a vertente extrema da sua linguagem musical, deixando aos ouvintes a tarefa de avaliar até que ponto as palavras de McCoy correspondem ao resultado final. Para lá dessa orientação musical, «At Work In The Fields Of The Bomb» apresenta um conceito que vai muito além da confrontação sonora. O título do EP foi retirado de um livro fotográfico de Robert Del Tredici, uma obra documental dedicada aos lugares e às pessoas envolvidos na produção de armas nucleares.
A escolha serve de ponto de partida para uma reflexão sobre o contraste inquietante entre as consequências inimagináveis de uma bomba nuclear e a normalidade aparente das actividades quotidianas que tornam possível a sua existência. Em vez de se concentrar exclusivamente na devastação que uma catástrofe desta dimensão provocaria, os temas do EP dirigem a atenção para as decisões e os sistemas que podem conduzir a humanidade a um ponto sem retorno. A ideia central reside nessa discrepância: acontecimentos capazes de alterar irreversivelmente o destino do mundo podem resultar de uma sucessão de acções aparentemente banais.
O texto de apresentação do EP aprofunda essa perspectiva, questionando a facilidade com que a possibilidade da extinção se pode tornar parte da realidade humana. A partir do momento em que a destruição total passa a ser uma hipótese bem concreta, a própria existência de testemunhas deixa de poder ser garantida. É uma premissa sombria que acrescenta uma dimensão social, política e existencial a um lançamento que, musicalmente, leva os DEAFHEAVEN a territórios particularmente agressivos.
«At Work In The Fields Of The Bomb» inclui apenas três faixas: «Hunter», «Three Princes» e «Sorry Laid The Hearth». O alinhamento abre com «Hunter», tema escolhido para receber tratamento audiovisual próprio, sob a forma de uma curta-metragem realizada com Nico Poalillo, que podes ver em cima.
Resultado: com este lançamento, os DEAFHEAVEN voltam a desafiar as expectativas em torno de uma discografia marcada pela constante tensão entre peso, melodia e experimentação. Desta vez, a promessa de uma sonoridade mais próxima do black metal de raíz surge acompanhada por um conceito que encara de frente algumas das contradições mais perturbadoras da sociedade em que vivemos. E o resultado está agora nas mãos dos ouvintes: três novos temas que assinalam um regresso assumidamente mais pesado e que encontram no imaginário da ameaça nuclear um enquadramento tão inquietante quanto oportuno.






