WOLFBRIGADE

METAL GONZO | WOLFBRIGADE: A alcateia não aceita ser domesticada; e eu, hoje, também não

«Howls from Underground», o décimo segundo álbum dos suecos WOLFBRIGADE, não é disco para ser analisado… É, isso sim, um daqueles cada vez mais raros álbuns a que se sobrevive.

Pois é, cá estamos. São outra vez três da manhã, o chão da sala já cheira a mim e a álcool em proporções que um químico forense acharia preocupantes, e eu acabei de ler uma frase que me fez pousar o copo com um estrondo capaz de acordar o prédio inteiro: “um sinal de fumo para os famintos, os selvagens, os perversos.” É assim que os WOLFBRIGADE descrevem o próprio disco, e confesso que, nesta fase da noite, já me sinto incluído nessa lista sem precisar de pedir licença.

Ponho «Howls from Underground» a tocar sem grande cerimónia, porque cerimónia é coisa de gente sóbria, e a primeira faixa chama-se — não estou a inventar isto, juro — «Caveman Motherfuck». Alguém, algures na Suécia, teve a lata de abrir um LP assim, e eu, no chão, ergo o copo em sinal de respeito antes sequer de ouvir uma nota. É o tipo de título que separa quem está a brincar aos punks de quem nasceu dentro do género e nunca mais de lá saiu. Sim, os WOLFBRIGADE são desses.

Há uma ideia tola — e já me convenci de que é mesmo tola, por volta da segunda bebida — de que as bandas amolecem com a idade. Ficam mais lentas, mais melódicas, mais progressivas, mais pseudo, como se envelhecer fosse sinónimo de sentar o rabo numa cadeira de baloiço com um cachecol ao pescoço. Os WOLFBRIGADE, pelos vistos, nunca receberam o memorando, ou então receberam-no e usaram-no para acender um cigarro.

«Doomrunner» passa e eu já estou de pé, o que é um erro de julgamento considerável às três da manhã com esta quantidade de álcool no sangue, mas o riff exige-o, não há como negociar com ele. Chega «Cold War Bootlicker» pouco depois, e esta, esta sim, é a faixa que me faz parar de fingir que estou só a “avaliar o novo disco dos WOLFBRIGADE com distanciamento crítico”. Já não há distanciamento nenhum cá em casa. Sou só eu, descalço, a cantar mal uma letra que nem percebo bem, enquanto o vizinho do segundo esquerdo bate na parede com uma urgência que hoje até me permite dar-lhe razão.

«Headhunter» explode como um cruzamento entre MOTÖRHEAD e DISFEAR, um galope rosnado que me faz pensar — com a lucidez cristalina de quem já não tem lucidez nenhuma — que talvez devesse comprar uma mota. Não tenho carta. Não interessa. Pesquiso no telemóvel “aulas de condução urgentes Lisboa” e a aplicação, sensatamente, não me dá resultados.

Há, no meio disto tudo, um momento de pausa estranha: «When Dogs Cry» soa rasposa e selvagem como os THE CROWN na sua fase mais suja, e por breves segundos sinto-me quase intelectual, quase capaz de fazer uma comparação musical séria. Dura pouco. «Man Is Wolf To Man» chega logo a seguir com um estertor à BLACK BREATH, e qualquer pretensão de sobriedade crítica desaba comigo, outra vez, para o chão.

«Fat Man Hellscape» e a faixa-título rosnam dentes à moda antiga, puro WOLFBRIGADE sem desculpas nem diluições, e nessa altura já perdi a conta a quantas vezes me levantei e voltei a sentar-me, como um ioiô mal regulado. Lisboa lá fora continua em silêncio, indiferente ao facto de eu estar aqui a travar uma guerra pessoal contra a ideia de que envelhecer significa ficar manso.

Porque não significa. Pelo menos não para os WOLFBRIGADE, que decidiram aos doze álbuns de carreira que preferiam continuar a morder do que aprender a sorrir simpaticamente para a câmara. Dizem que não se ensinam truques novos a cães velhos. Pois bem — os lobos, ao que parece, nunca precisaram de truques novos. Só precisavam de manter os dentes afiados.

Acabou o disco. Acabou, também, qualquer vestígio de dignidade que tivesse trazido para esta sala. A garrafa está vazia, eu estou no chão, e nem sei bem a que horas isto vai acabar. Mas sei uma coisa: amanhã, quando a vergonha matinal se instalar, vou voltar a pôr este disco a tocar. Porque há uma matilha lá fora, algures na Suécia, e esta noite senti-me, por quarenta e cinco minutos, parte dela.


Nota: este texto é um exercício estilístico de jornalismo gonzo, não uma crítica factual ao novo álbum dos WOLFBRIGADE.