JORGE FERNANDES

[R.I.P.] Faleceu JORGE “XINÊS” FERNANDES, o homem que tratava do som por detrás do som

Jorge “Xinês” Fernandes era um dos técnicos e produtores mais discretos e requisitados da cena nacional. Tinha 54 anos e deixa obra dos estúdios à televisão.

Quem passou por um estúdio português nas últimas três décadas, ou ligou o televisor numa tarde da década de 90, terá certamente ouvido o trabalho de Jorge Fernandes sem saber o nome. Para o meio, porém, era “Xinês”, alcunha que dispensava apelido e que valia como assinatura de ofício. Nasceu em Lisboa em 1972, vivia em Almada e completou 54 anos a 8 de Outubro, três dias antes de morrer. A causa do falecimento não foi divulgada.

A formação começou cedo e foi pouco convencional. Entre 1988 e 1990 frequentou o Conservatório de Música de Lisboa, e logo a seguir entrou de imediato no serviço público, onde trabalhou entre 1992 e 1999 na RDP e RTP como técnico de som de exteriores e reportagens. É um tipo de escola que não se aprende em salas de aula: gravar fora de portas, com o imprevisto como condição, obriga a decidir depressa e a ouvir melhor. Foi neste contexto que participou em trabalhos para a Antena 3, incluindo as sessões unplugged da estação, que ficaram na memória de quem acompanhava a rádio da época.

O passo seguinte levou-o a Londres. Entre 1994 e 1996, concluiu o curso de Engenharia de Som na London School Of Sound, com estágios na BBC e nos estúdios de Abbey Road, referência incontornável da gravação moderna. Fê-lo, note-se, em paralelo com a actividade em Portugal, o que diz algo sobre a ambição e a capacidade de trabalho de um técnico que nunca se limitou a um único território.

A televisão foi outro campo onde deixou marca. Entre 1994 e 1998, foi co-fundador dos programas Portugal Radical, Templo dos Jogos e O Mundo Dos Animais, emitidos pela SIC, assumindo sonoplastia e pós-produção de áudio. Eram formatos de linguagem acelerada e juvenil, em que o som tinha de acompanhar o ritmo da imagem, e a escolha de quem o desenhava contribuía de forma decisiva para a identidade de cada um.

Na discografia nacional, o currículo cobre registos de natureza muito diversa. Como músico e produtor, colaborou em registos dos BLIND ZERO, Jorge Palma, DA WEASEL, THORMENTHOR, MOFO, REDLIZZARD ou HANDS ON APPROACH, o que atravessa o rock, o hip-hop, a canção de autor e o metal extremo. Trabalhou ainda em sonoplastia para dança e teatro, áreas em que o som deixa de ser acompanhamento e passa a ser matéria dramática.

Enquanto executante, a ligação mais antiga é a dos A KAUSA, banda formada em Almada nos anos 80, quando Jorge Fernandes era ainda um adolescente. Mais tarde, em 2012, fundou com Rui Pita os HORNS, projecto que se movia entre o dark ambient, o noise, o drone e o industrial. Dois anos depois, em 2014, a dupla lançou o álbum «Summoned», trabalho que reflete uma vertente mais exploratória e sombria de um músico habituado a servir os outros nos bastidores.

É nessa dualidade que reside talvez o melhor retrato de Jorge “Xinês” Fernandes: um profissional capaz de lidar com a exigência técnica da rádio e da televisão e, ao mesmo tempo, de se perder em paisagens de ruído e textura. Em ambos os casos, a escuta era o centro do ofício. Com a sua morte, a música portuguesa perde uma figura rara, daquelas cujo contributo se mede menos pelos créditos em destaque do que pela qualidade do que soa em discos e programas que muitos conhecem de cor.