IRON MAIDEN

IRON MAIDEN: “BURNING AMBITION” celebra 50 anos de heavy metal sem uma única pergunta inconveniente

O novo documentário sobre os gigantes IRON MAIDEN é uma celebração exuberante e controlada — honesta na falta de autocrítica, generosa com os fãs, e curiosamente reveladora precisamente no que omite.

13 de Julho de 1985. O Live Aid enchia o Estádio de Wembley com o que o rock tinha de mais fotogénico e mais televisivo. Os IRON MAIDEN não foram convidados. Nessa mesma época, já enchiam recintos de dimensão equivalente em meia Europa sem precisar da benção de ninguém. É nessa recusa estrutural à validação externa — nunca declarada, sempre praticada — que reside o coração de Burning Ambition, o novo documentário sobre a banda britânica. Um filme que, como ela própria, faz exactamente o que quer, sem pedir desculpa por isso.

Produzido com o habitual controlo corporativo que os IRON MAIDEN impõem sobre a sua própria marca há décadas, o filme recorre a arquivo fotográfico e vídeo vintage em vez de planos aproximados dos seus elementos no presente. Não há testemunhos crús, não há silêncios incómodos, não há o risco — sempre excitante, sempre perigoso — de que alguém diga algo que não estava no guião.

O que há, em abundância, é o calor genuíno de uma base de fãs sem igual: desde o actor espanhol Javier Bardem a Lars Ulrich, dos METALLICA, passando pelo Gene Simmons dos KISS, todos comparecem com fervor de convertidos e algum humor desarmante. São os fiéis a celebrarem os santos — e fazem-no com convicção suficiente para segurarem o espectador mesmo quando o filme se esquiva às perguntas mais interessantes.

A narrativa central do documentário segue a geometria clássica dos épicos do rock: a ascensão colossal, a ligeira queda, a ressurreição ainda mais colossal. Burning Ambition percorre todas as transformações de formação com uma clareza funcional, incluindo a saída do vocalista original Paul Di’Anno e o episódio mais turbulento da história da banda: a saída e subsequente regresso de Bruce Dickinson, a voz que durante décadas foi sinónimo do som Maideniano. São momentos que qualquer fã conhece de cor, mas que aqui ganham alguma dimensão emocional por força do arquivo sonoro e visual que os envolve.

Há também um segmento que merece destaque: o papel pioneiro dos IRON MAIDEN na penetração de mercados atrás da Cortina de Ferro, nomeadamente na Polónia dos anos 80. Numa época em que o rock era tratado com desconfiança pelas autoridades do Bloco de Leste, a banda entrou por onde outros não ousaram — não como agentes de uma agenda política, mas simplesmente como uma força musical que o sistema não sabia como parar. O documentário é sensato ao reconhecer este feito sem o romantizar em excesso; os IRON MAIDEN nunca precisaram de slogans.

Ainda assim, é precisamente nas ausências que Burning Ambition acaba por torna-se mais eloquente — involuntariamente. À excepção de uma breve referência ao divórcio do fundador e baixista Steve Harris, não há nada verdadeiramente pessoal no filme. Nenhuma ferida exposta, nenhuma contradição habitada, nenhum momento que não tenha sido aprovado por múltiplas camadas de gestão de imagem.

O contraste com outros filmes do género é revelador. Metallica: Some Kind Of Monster, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky, era precisamente o oposto: uma câmara com acesso total a uma terapia de grupo que durou meses, com todo o desconforto, ridículo e humanidade que isso implica. O recente Becoming Led Zeppelin, de Bernard MacMahon, ofereceu contexto histórico e musical denso, quase académico na sua seriedade. Burning Ambition não ambiciona nem uma coisa nem outra — e seria muito injusto julgá-lo por critérios que nunca foram os seus.

Há um momento particularmente sintomático: um dos membros da banda, ao falar sobre as digressões da juventude, diz apenas que havia “todo o tipo de… novas experiências”. A reticência é deliberada, quase cómica até. É o filme a piscar o olho e a dizer: nós sabemos que vocês sabem, mas não vamos lá. Esta discrição partilhada com o documentário dos LED ZEPPELIN — também ele pudico sobre as aventuras extraconjugais de cinco homens famosos em estrada — diz talvez mais sobre os limites do género do que sobre as bandas em questão.

Por tudo isso, Burning Ambition é, em última análise, um objecto de fãs feito por fãs institucionais — ou seja, pela própria banda e pelo seu círculo de aprovados. Isso tem consequências. A crítica está ausente não por acidente, mas por design. Não há jornalistas incómodos, não há momentos de dissonância, não há tentativa de compreender o fenómeno IRON MAIDEN a partir de fora.

E no entanto — aqui está o paradoxo — isso é também de alguma forma fiel ao espírito desta banda. Os IRON MAIDEN construíram toda a sua carreira à margem da aprovação institucional. Nunca dependeram do beneplácito dos guardiões culturais do que é cool — aquela casta de jornalistas e programadores que decidem o que é legítimo e o que não é. Fazer um documentário que contorna a imprensa crítica e fala directamente para o público tem, portanto, uma lógica interna que não é de ignorar.

O próprio filme parece consciente disso, embora nunca o verbalize efectivamente. Há um clip em que se ouve a voz inconfundível de Danny Baker — locutor e jornalista britânico célebre pela sua irreverência — a narrar uma reportagem sobre a banda com um respeito desprovido de condescendência. Esse é um dos raros momentos em que o exterior entra, e a sua raridade torna-o memorável.

Então, afinal, para quem é este filme? A pergunta merece uma resposta honesta: Burning Ambition é um documentário para convertidos. Não converte ninguém. Não surpreende os que já sabem. Não interroga o fenómeno com profundidade suficiente para interessar quem estuda a cultura popular ou a indústria musical. É uma celebração exuberante, bem-disposta e tecnicamente competente de uma das maiores bandas de heavy metal da história — e nisso cumpre o que promete com uma eficácia que seria ingrato negar.

O problema — se é que é um problema — é que os IRON MAIDEN mereciam bem mais. Mereciam um realizador com liberdade suficiente para entrar nas contradições, nos silêncios, nas décadas de estrada que transformam qualquer ser humano de formas que nenhuma canção sobre guerreiros medievais consegue encapsular. Mereciam o equivalente musical de um romance de formação — e receberam um livro de homenagem com capa dura e fotografias a cores.

Há beleza nisso também, claro. Mas fica a sensação de que, algures num arquivo não autorizado, existe um documentário muito mais interessante à espera de ser feito.