Na passada sexta-feira, os THE ARISTOCRATS arrasaram a República da Música, em Lisboa, na data de encerramento da sua mais recente digressão mundial.
Há concertos que se percebem, e há concertos que se sentem. O que os muito talentosos Guthrie Govan, Bryan Beller e Marco Minnemann — o trio que opera sob a insígnia THE ARISTOCRATS — apresentaram na passada sexta-feira, dia 15 de Maio na República da Música, em Lisboa, pertence à segunda categoria. Com firmeza.
A banda chegou à capital portuguesa no remate de uma maratona que atravessou a Austrália, a Ásia e as Américas antes de se instalar finalmente na Europa. E, em palco, havia qualquer coisa de uma banda que guardou o melhor para o fim — ou que, simplesmente, não sabe mesmo fazer as coisas de outro modo. A República da Música recebeu-os com lotação esgotada, ou bem perto disso, e uma audiência que sabia exactamente o que vinha buscar.







O concerto arrancou com quatro temas de «Duck», o álbum mais recente do grupo, apresentados sem cerimónias e com a precisão que distingue este trio há mais de uma década. A palavra virtuosismo é a mais fácil de colunistas apressados, mas aqui seria só o ponto de partida: o que os THE ARISTOCRATS fazem não é exibicionismo técnico — é conversação a três vozes, densa e veloz, que pressupõe décadas de escuta e décadas de toque.
O momento que ficou na memória de muitos foi, se dúvida, «Spanish Eddie». Guthrie Govan apresentou a canção com a convicção de quem inventou um título único para a posteridade — até se aperceber que, nos 80s, Laura Branigan tinha uma canção com esse nome, e “com maior sucesso que o nosso“, desabafou ele, com a seriedade comedida de quem admite uma derrota sem, ainda assim, perder o fio à meada. A humildade durou o tempo suficiente para sorrir. Depois, Govan encostou os dedos nas cordas, a sala respondeu com “olés” em uníssono, e ninguém mais se lembrou de Branigan.
Marco Minnemann dominou o palco no seu solo de bateria — uma construção desconcertante em que os sons de brinquedos de galinha e porco em loop se tornaram parceiros improváveis de alguns minutos de pura desfaçatez rítmica. Absurdo e genial, como convém no caso. O clímax chegou quando o baterista arrancou o riff inconfundível da fanfarra da 20th Century Fox, com a sala inteira a cantar a melodia em coro.








Momentos como esse dizem muito sobre a relação que os THE ARISTOCRATS constroem com o público: não existe barreira entre o tecnicamente inacessível e o imediatamente contagioso. A complexidade entra pela frente; a alegria sai pela porta do lado.
«The Ballad Of Bonnie And Clyde» mereceu apresentação própria: o tema foi inspirado no episódio real em que um casal roubou os instrumentos de Bryan Beller — e foi preso três dias depois. A música é tão boa que quase apetece lamentar pelos ladrões, que não mereciam tamanha homenagem involuntária.
Na recta final, os THE ARISTOCRATS tocaram «Get It Like That» e «Desert Tornado», encerrando a noite com a mesma energia cirúrgica com que a abriu — sem afrouxar, sem condescender ao espectáculo fácil. No final, uma certeza reforçada: os THE ARISTOCRATS ao vivo são uma coisa de outro mundo. E, se ainda houvesse dúvidas em relação a isto, este concerto em Lisboa tratou de as dissipar.




