Ao terceiro LP, os FUMING MOUTH regressam com uma novidade que só por si já seria notícia — Jay Weinberg, antigo baterista dos SLIPKNOT, integra agora a formação — mas é a forma como Mark Whelan transforma a sua própria luta contra a leucemia em matéria sonora que verdadeiramente define este trabalho.
Há discos que nascem de circunstâncias tão extremas que se torna quase impossível dissociar a música da história que a precede. O «The Ringing Bell», terceiro álbum dos FUMING MOUTH, é um desses casos. Editado esta sexta-feira, o disco chega depois de Mark Whelan, vocalista da banda, ter sido diagnosticado com Leucemia Mieloide Aguda — e de, contra todas as probabilidades, ter recuperado. Não é preciso escutar uma única nota para perceber que esse capítulo biográfico atravessa cada canção deste disco, mas é ao ouvi-lo que se compreende verdadeiramente a sua dimensão.
Convenhamos, o percurso dos FUMING MOUTH nunca foi linear. O segundo álbum, «Last Day Of Sun», dividiu audiências ao assumir uma aproximação mais evidente ao punk e ao hardcore, afastando-se do death metal mais cru da estreia. A discussão sobre essa opção estética nunca chegou a apagar a qualidade de temas como «Out Of Time», «The Silence Beyond Life» ou «I’ll Find You» — canções que, apesar de tudo, continuam a resistir bem à passagem do tempo —, mas deixou por resolver uma questão: a de saber para que lado a banda penderia a seguir.
«The Ringing Bell» responde a essa pergunta com uma síntese inteligente. As guitarras e os acordes esmagadores de temas como o abertura instantaneamente memorável com «Cheat Death» ou a brutal «After Oblivion» aproximam-se claramente de uma veia mais sombria e mortífera, rementendo para a estreia da banda. Mas a função continua a ser outra: o coração hardcore e a energia punk permanecem intactos, sugerindo que estes FUMING MOUTH, muito à semelhança dos seus primos musicais nos BLACK BREATH, se continuam a ver, antes de mais, como uma banda de hardcore — e só depois como uma banda de death metal.
Essa dualidade entre forma e função é talvez a chave interpretativa mais útil para todo este álbum. Não se trata de um regresso nostálgico à fórmula original, mas de uma reformulação que absorve tudo o que os FUMING MOUTH aprenderam entretanto, sem nunca perder identidade.
E se há um elemento que surpreende de imediato neste terceiro capítulo, é a chegada de Jay Weinberg à bateria. Conhecido pelo trabalho meticuloso e versátil que desenvolveu como baterista itinerante de várias formações de peso, Jay assume aqui todas as funções rítmicas com uma naturalidade notável — dos d-beats aos blastbeats, passando pelos grooves mais cadenciados e pelos ritmos mais implacáveis. A sua entrada não é apenas uma curiosidade de bastidores; é um dos factores que explica a solidez e a variedade rítmica que percorrem o novo disco dos FUMING MOUTH do início ao fim.
Ainda assim, é nas letras que «The Ringing Bell» revela a sua verdadeira ambição. Há uma espécie de optimismo sombrio, quase contraditório na superfície, que atravessa «A Blaze of Nihilism» e «Finally Fearless». Não é uma positividade ingénua — é antes a positividade de quem já esteve do outro lado e sabe exactamente o preço que isso tem.
Essa tensão entre desespero e resistência também se manifesta na estrutura das canções. «Self-Exhumed» e «Finally Fearless» desenvolvem-se a partir de riffs contagiantes e um groove massivo que deverão agradar a quem acompanha nomes mais recentes como NO CURE e 100 DEMONS — o que, note-se, é um elogio de peso, seja qual for o ângulo de leitura. Ainda assim, há death metal suficiente nestas faixas, bem como no devastador tema de encerramento, intitulado «Respect Mortality», para satisfazer até os ouvintes mais exigentes com a pureza do género.
Talvez a maior surpresa do disco resida, precisamente, na quantidade de melodia sombria e melancólica que o atravessa na sua segunda metade. Temas como o hino «Hidden In The Moor» ou a poderosa «Barbarian Scourge» revelam um gosto por solos rasgados e linhas melódicas que remetem mais para o universo dos DISMEMBER do que para a contundência mais directa dos MERAUDER, mas sem que isso comprometa a intensidade global da obra.
O momento mais arriscado surge, no entanto, no tema-título. «The Ringing Bell» aventura-se por território quase death/doom, e recupera a voz limpa de Whelan — desta vez de forma mais concisa e eficaz do que em tentativas anteriores. É possível que, para alguns ouvintes mais ortodoxos, este seja um passo longe de mais. Ainda assim, a canção funciona notavelmente bem, tanto pela sua colocação no alinhamento como pela vulnerabilidade expressiva que carrega, demonstrando a profundidade e a versatilidade do som dos FUMING MOUTH sem nunca parecer um exercício de diferenciação apenas pela diferenciação.
Em suma, mais do que um simples regresso à forma, «The Ringing Bell» afirma-se como o som de uma banda que olhou para a possibilidade do fim de frente e decidiu, em resposta, gritar ainda mais alto. Há discos que se ouvem; este exige-se que se sinta. E se a trajectória dos FUMING MOUTH continuar a seguir esta curva ascendente, dificilmente este será o ponto mais alto da sua história — será, isso sim, o momento em que tudo começou a fazer sentido.



